Análises

Planetes – Análise

Planetes, adaptado de um mangá com o mesmo nome, é um anime de 26 episódios produzido pelo estúdio Sunrise, que saiu nas temporadas de Outono e Inverno de 2003/04.

Esta série leva-nos a 2075, onde há quase tanta colonização humana na Terra como no espaço, uma vez que viagens inter-espaciais se tornaram tão comuns como andar de carro ou avião, e ir à lua de férias é quase como ir uns dias à Disneyland. Contudo, com a grande exploração do espaço, um novo obstáculo surgiu no desenvolvimento da vida neste: detritos e lixo espacial em órbita a todo o redor da Terra, viajando a velocidades suficientemente grandes para representarem um perigo para naves e centrais espaciais. É neste contexto que conhecemos a Secção de Detritos da Technora Corporation (responsável por recolher lixo espacial), e o seu novo membro, Tanabe Ai.

É um anime com uma mistura de géneros um pouco improvável, sendo estes drama, romance, sci-fi, seinen, e claro, espaço. Cada um tem o seu cantinho e o seu papel no desenrolar da história e das personagens.

Planetes tem como diretor Taniguchi Gorou, que ocupou a mesma posição em Code Geass (2007 e 2008) e, mais recentemente, em Junketsu no Maria (2015); e art director Ikeda Shigemi, que participou em Bokurano (2007), One Punch Man (2015) e Boku no Hero Academia (2016).

Apesar de pela premissa podermos ficar com a ideia de que Planetes é uma excitante história sobre a vida no espaço não é necessariamente isso que acontece, uma vez que a verdadeira história é sobre as vidas das personagens que vamos conhecendo ao longo dos episódios.

Não existe propriamente uma linha narrativa no início, sendo mais uma representação do que é ter uma “vida normal” no espaço. Tirando algumas ocorrências um pouco menos comuns, a vida de todos os personagens que conhecemos (e não me refiro apenas aos empregados da Secção de Detritos) é sobretudo mundana. Todo o tipo de problemas mundanos afligem os nossos queridos personagens, desde desgostos amorosos, problemas na empresa, a doenças ocupacionais (ou não).

Cada indivíduo tem as suas ambições e os seus sonhos, desde subir na hierarquia da empresa até comprar a sua própria nave espacial, e estes desejos parecem todos bastantes credíveis e vamos conhecendo as suas fundações ao longo que escavamos mais fundo nas personagens e nos seus passados.

Sensivelmente, a primeira metade da série segue uma estrutura episódica, à medida que acompanhamos Tanabe na descoberta da vida como empregado da Secção de Detritos, na formação de diferentes relações com os seus colegas e na luta pelo seu ideal de amor (um dos temas da série, como irei mais à frente explicar). Nestes episódios, deparamo-nos com racismo, situações que retratam a disparidade entre países de primeiro e terceiro mundo em termos de oportunidades de negócio e da conquista do espaço; encontramos terroristas (Space Defense Force) que consideram a exploração do espaço uma aberração e que os humanos deviam tentar resolver os problemas da Terra (como guerra e fome) em vez de gastarem dinheiro e recursos na exploração espacial.

Apesar destes serem temas polémicos, no final do dia acabam por ter pouca influência nas personagens pois a Secção de Detritos nada pode fazer acerca disso. Isto, claro, até à segunda metade da série.

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Na segunda metade, seguimos Hoshino Hachirota (ou Hachimaki) um experiente membro da Secção de Detritos, quando este decide deixar tudo para trás e participar nos rigorosos e exigentes testes para a primeira viagem a Júpiter.  É aqui que o tema e o ideal de “amor” de Tanabe entram de novo: ao abandonar tudo de modo a perseguir o seu lugar a bordo da nave espacial rumo a Júpiter, Hachimaki convence-se de que “as pessoas são como estrelas no espaço, e que entre elas existe muito espaço vazio”, negando assim o afeto e a atenção dos outros.

Muitos dos elementos e personagens introduzidos na primeira parte da série têm um grande papel na segunda metade, complementando a sua introdução inicial com um maior envolvimento na história.

As personagens de Planetes foram desenhadas por Chiba Yuriko, que fez também os characters designs para Junketsu no Maria (2015) e Space Dandy (2014).

Como deve ser percetível na secção acerca da história, Planetes tem um vasto leque de personagens, que aparecem com maior ou menor frequência, mais ou menos memoráveis. Contudo, é muito difícil definir todos os personagens que não Tanabe e Hachimaki como secundários no contexto da narrativa. Seria como considerar os nossos amigos personagens secundárias na história da nossa vida…?

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Uma das grandes surpresas de Planetes foi, de facto, o quão reais quase todas as personagens pareciam, de modo que cada um podia ser protagonista do seu próprio anime. Não só isso, como também o facto de as personagens crescerem e desenvolverem-se ao terem contacto umas com as outras, de modo que quando se voltam a encontrar uns quantos episódios mais tarde notamos realmente o impacto que certos acontecimentos tiveram.

Isto não quer dizer que vamos ficar a saber os nomes de todos os “personagens secundários”, longe disso, mas tal como na vida real, somos capazes de os reconhecer e no final de um pouco de conversa talvez o nome surja (ou talvez não).

Considerando que Planetes é um anime de 2003/04 podemos dizer que a animação é fantástica, uma vez que tem mais de 10 anos e tem melhor qualidade que muitas coisas que saem atualmente. Outro factor para a minha surpresa é o facto deste ter sido produzido pelo estúdio Sunrise, que não é exatamente conhecido por fazer animes com esta qualidade.

O art style é estilo realista, algo que eu compararia com o art style de Serial Experiments Lain mas com um toque um pouco mais moderno. Dou graças aos santos pelas naves e tais serem desenhadas e não modelos em 3D, mas isso pode ter sido uma das razões pelas quais Planetes saiu da Sunrise (para quem não sabe, o estúdio ficou famoso por ser um grande produtor de séries mecha) o que, associado ao elevado detalhe posto nos diferentes ambientes e elementos (como os fatos espaciais e o cuidado de cada nave ser diferente e identificável) dá uma incrível sensação de realismo à série.

A atenção ao detalhe não ficou só pela construção do ambiente, mas também pela mínima correção científica, principalmente ao nível da gravidade e das tecnologias utilizadas. Ver os personagens a flutuar a 0G no espaço era significativamente diferente de vê-los sujeitos à gravidade de 1/6G na lua (e por aí adiante).

Em termos de edição de som em geral existe uma única coisa que eu gostaria de salientar: DÊEM UMA MEDALHA A QUEM SE LEMBROU QUE NÃO HÁ SOM NO ESPAÇO! OBRIGADO.

Sim, ao contrário do que séries como Star Wars nos façam pensar, não existe som no espaço, e este foi um pormenor que serviu para cimentar a credibilidade de muitas cenas e o seu impacto (pelo menos na minha opinião).

 

A banda sonora não é nada de especial, tendo apenas uma ou duas faixas minimamente interessantes. A falta de impacto da banda sonora passa também pelo facto de se reutilizarem muito as mesmas músicas, de modo que ficamos “imunes” a estas ao fim de algum tempo.

Um dos pontos altos é, contudo, o opening, que ao início não parece nada de especial mas (pelo menos para mim) foi merecendo o seu lugar de destaque. Uma das razões para isso foi o facto das sequências de imagens variarem ao longo da série, não só para refletir a mudança de curso da história, mas também eventos passados, por isso não se pode perder nem um, uma vez que lá para o meio as sequências são praticamente diferentes a cada episódio.

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Existe uma dub que não é má, mas há umas quantas personagens que soam forçados, incluindo Tanabe, o que pode ser um pouco irritante, pelo menos na primeira metade da série, em que grande parte dos episódios consiste nela a falar/queixar-se de coisas.

 

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