Eureka Seven – Análise

Nos anos 80 e início dos 90, o género mecha era dos mais populares para uma alargada faixa etária, em parte devido à grande variedade de séries com diferentes tons e públicos alvo, mas também devido à introdução de figuras de ação, que iniciaram o mercado de merchandise no Japão com figuras de animes como Gundam (um dos grandes ícones do mecha ainda hoje).

Eureka Seven é considerado por muitos um dos modernos marcos do género mecha, a par com Tengen Toppa Gurren Lagan, mas será que merece esse lugar?

 

Produzido pelo estúdio Bones, Eureka Seven é um anime original de 2005 com 50 episódios. É uma mistura de géneros um pouco estranha (donde resultam alguns dos problemas que a série apresenta) sendo estes mecha como é óbvio, ação, sci-fi, drama e romance.

Num mundo futurista, onde mechas surfam ondas invisíveis constituídas por trapars, conhecemos Renton Thurston, um jovem de 14 anos que aspira a ser mecânico de LFOs (light finding operation – os mechas) para o famoso grupo rebelde Gekkostate. Renton aspira a ser como o seu ídolo, Holland, líder do Gekkostate, lutando contra as forças governamentais e surfando trapars nos tempos livres (basicamente a encarnação de todos as fantasias anti-autoridade que um puto reprimido de 14 anos podia ter). Esse sonho fica mais próximo quando Eureka, piloto do Type Zero Nirvash (basicamente um mecha muita bom, quase que o rapaz se vem todo), passa pela garagem do seu avó em busca de uma afinação do seu mecha (porque o avó do Renton ajudou a desenhar os robôs antes de virar velho rabujento).

Juntar-se ao Gekkostate é apenas o início da aventura de Renton pelo mundo, descobrindo a verdade acerca da organização que admira, do mundo que o rodeia e da rapariga pela qual está caidinho, Eureka.

A história de Eureka Seven divide-se em 4 arcos distintos: o primeiro, descreve a vida de Renton a bordo do Gekkostate, a dinâmica que desenvolve com o resto da tripulação e, principalmente, as suas tentativas de se aproximar da apática Eureka (ep. 1-19). O início deste arco é lento e nada acontece (tipo slice of life mas com um saborzinho a shounen graças ao humor reacional sem piada), mas é quando começam as pistas que há mais a acontecer no mundo do que o vimos até agora. Intenções e informações escondidas começam a vir à superfície mas por cada episódio com mais conteúdo temos 5 ou 6 daqueles em que nada acontece. O romance começa a ser levado mais a sério, sendo que as personagens começam a tomar ações para compreender o outro, em vez de suspirarem pelos cantos (apesar de isto ser verdade para os nossos jovens, é mais visível na relação entre Holland e Talho, os “adultos responsáveis” à frente de Gekkostate).

Este arco é o mais aborrecidos e, assim, acabam por afastar as pessoas antes do anime mostrar o seu máximo potencial (que, vamos ser honestos, não é assim nada por aí além).

No segundo arco (ep. 20-27), começamos a ver character development. Nesta parte da história temos mais introspeção e crescimento por parte de Renton e Eureka. Após eventos spoilerificos, Renton abandona Gekkostate e vagueia durante estes 7 episódios, enquanto Eureka reflete sobre os seus sentimentos (sim, ela ganha sentimentos por esta altura) por Renton. O tempo em que estão separados funciona como forma de não só desenvolver a identidade das personagens longe do seu papel no romance, como ajuda estas a compreender que se calhar o que sentem não é só uma paixoneta.

O terceiro arco (ep. 28-40) é o build-up até ao climax, sendo que é aqui que as personagens começam a enfrentar a verdadeira realidade de lutar numa guerra. De volta ao Gekkostate, Renton toma um papel muito mais ativo, sendo aceite de volta como um membro valioso depois de ter provado como cresceu enquanto esteve fora.

A partir daqui até ao fim a história é metade acid trip, metade spoiler, mas é aqui que a maior parte das pontas são atadas de uma forma super anti-climática, deixando-nos sem saber bem o que tirar do final.

Um dos pontos fortes da história (tirando a história em si) foi a forma como conseguiu desenvolver as personagens ao longo do tempo, transformando um romance super genérico de “amor à primeira vista” como o de Renton e Eureka numa relação que (com os seus devidos altos e baixos) é realista e funcional, algo que raramente se vê em anime.

É verdade que o desenvolvimento das personagens é completamente reacional, ou seja, eles não mudam porque querem mas sim para se adaptarem a uma nova realidade, porque algo aconteceu e os estilhaçou de tal modo que, quando se recompuseram, é claro que estavam diferentes!

Apesar dos motivos um pouco desapontantes para o character development, Eureka Seven continua a fazer um bom trabalho a acompanhar o crescimento e o desenvolvimento das personalidades de Renton, Eureka, Anenome, Dominic, Talho e Holland (uma vez que qualquer personagem que não estes são quase completamente ignorados no que toca a progressão e desenvolvimento).

A partir do segundo arco torna-se bastante evidente que Neon Genesis Evangelion teve uma grande influência em Eureka Seven, quer no desenvolvimento da história, personagens ou direção de algumas cenas (como veremos à frente).

A influência Evangelionesca começa pela premissa do anime e a forma como a história está estruturada ao longo dos episódios. Recapitulando: temos um jovem que vive infeliz da vida (mas que ao contrário de Ikari Shinji, e mais numa linha Narutesca, tem ambições na vida e interesses românticos) até que as circunstâncias o obrigam a juntar-se a uma organização à beira da lei e pilotar robôs, derrotando um inimigo cujo propósito é a aniquilação da raça humana. A somar a isto, o climax da história consiste na escolha que é dada ao personagem principal sobre o futuro do planeta e da raça humana.

(a cima, imagens reais de Evangelion Unit 01 em modo beserk)

Ainda não soa a Eva? Então, falta referir que a ordem dos episódios está disposta de modo a primeiro nos acostumar ao que é a vida mundana das personagens (no caso de Renton, limpar a roupa e louça e as vezes participar numa luta ou outra entre mechas) para depois introduzir o “verdadeiro plot”, com a agenda escondida de outros personagens, eventos que traumatizam e deprimem os personagens (apenas temporariamente, porque não podemos ter outro pussy como o Shinji, não é?) e acid trips à psique das personagens (que não têm nem metade do impacto porque 3 episódios depois já foram completamente esquecidas e não tiveram qualquer impacto nos personagens).

As personagens de Eureka Seven podem ser facilmente separadas por afiliação que têm na “guerra”, ou seja, temos os membros do Gekkostate (os óbvios heróis) e temos as forças militares apoiantes do Governo (os óbvios maus da fita). Dentro de ambas estas fações podemos contar 6 personagens “principais”. As aspas são importantes porque é preciso perceber que, se por um lado as verdadeiras personagens principais são Renton e Eureka, por outro existem outras 4 personagens que são igualmente importantes ao longo da história e que tirando estas, todo o resto do cast é quase dispensável, tendo pouco ou nenhum impacto na história.

Começamos então com o casalinho principal! Renton é, basicamente, um clássico protagonista de animes shounen: impulsivo e casmurro, mas determinado em obter o que quer, principalmente se esse algo for uma certa jovem de cabelo azul (aquilo é azul certo?). Ao longo do anime ele desenvolve-se num jovem responsável e de confiança. Ladra menos e morde mais, conseguindo, assim, ganhar o respeito do resto do staff do Gekkostate.

Eureka é das personagens que sofrem mais desenvolvimento na série, começando como o clássico arquétipo dandere, deadpan (cópia de Ayanami Rei), estão a ver a rapariga. Ao interagir com Renton, Eureka acorda para a vida e começa a ganhar emoções (literalmente), levando a um romance que no início parece muito forçado mas acaba por fazer sentido.

Começamos agora com os personagens secundários. Holland e Talho (eles dizem Tah-lo-ho mas não impediu os risos durante os primeiros episódios) são na minha opinião os melhores pombinhos de Eureka Seven, e o facto de vermos a sua relação mudar com o desenvolvimento das personagens ainda a torna melhor. No início do anime estão ambos muito apegados ao passado: Holland à saudade da sua vida antes do Gekkostate, e Talho à imagem que tinha de Holland. Ao conseguirem ultrapassar esses obstáculos (um pouco no backstage da história) formam uma relação sólida, baseada na confiança e comunicação (algo que muita gente 3D não tem). Progressão à parte, irritou-me um pouco o quanto Talho se assemelhava a Misato (Evangelion) principalmente ao nível da sua personalidade e do papel maternal que assume em relação a Renton (mas se calhar foram só as outras influências todas a Eva que fizeram com que eu ficasse com essa impressão).

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Por fim, as outras duas personagens que considero fulcrais para o curso do anime são Anemone e Dominic (esta categoria é só casais até agora, deve ser a primavera a afetar-me). Durante grande parte do anime, Anemone é pau mandado do Governo, defrontando Eureka e Renton por diversas vezes; servindo Dominic como o supervisor das suas ações fora do campo de batalha (uma vez que spoilers fazem com que sua saúde mental de Anemone seja muito instável).

Quando, perto do fim, os lados da batalha se começam a esbater, vemos um maior desenvolvimento por parte deste par, que serve não só para nos mostrar o outro lado da batalha que o Gekkostate está a travar, mas também para mostrar que nem todas as relações acontecem sem esforço (e quem viu sabe bem que o Dominic fartou-se de sofrer e levar porrada para conseguir ficar com a rapariga).

O leque de personagens continua de forma quase infinita mas queria apenas apontar que os “filhos” de Eureka (é difícil de explicar, just roll with it) Link, Maurice e Maeter estavam bastante bem escritos, sendo das melhores representações de crianças que já vi em anime. Apesar de não terem um papel fulcral na história contribuem em parte para o desenvolvimento do casal principal, criando uma dinâmica familiar que nenhum dos membros constituintes possui.

Menção breve para o staff do Gekkostate, pelos character designs originais mas personalidades completamente banais, o que os torna reconhecíveis mas não memoráveis.

Ao contrário do que recentes grandes adaptações como HunterXHunter (2011) ou Fullmetal Alchemist Brotherhood (2009) nos acostumaram, a qualidade da animação em Eureka Seven é bastante inconsistente (quase tão inconsistente como o seu tom), sendo bastante medíocre em vários episódios, principalmente no início, demonstrando falta de à vontade dos animadores com as personagens (algo que melhora ao longo do tempo).

Apesar das personagens em si estarem mais dentro de modelo à medida que os episódios avançam, a animação demora a mostrar o que vale. São precisos 12 episódios para vermos alguma coisa que não fosse medíocre ou medianamente animado (estilo primeiros episódios de Naruto); depois de “Acperience 1” são precisos mais 7 episódios até voltarmos a ver algo de jeito (no 19º episódio: “Opposite View”). Isto pode não ser um problema para muita gente, e é verdade que à medida que o fim do anime se aproxima o número de cenas com boa animação aumenta, mas eu não sou uma pessoa muito exigente com essas coisas e incomodou-me (se o estilo de Revolutionary Girl Utena não me tirou do anime poucas coisas o farão, verdade que a história de Eureka Seven também não ajudou a manter-me acordada até à reta final do anime).

Apesar de tudo isto a dizer mal da animação em si, considero que os character designs e a arte de Eureka Seven eram relativamente originais, principalmente para a altura, quando este tipo de arte mais moe ainda estava no início. Tal como Evangelion, Eureka Seven utiliza a sua arte tanto para retratar o lado mais mundano das vidas dos personagens, como para dar enfâse aos seus conflitos interiores (quando começam a bater mal da batatola), deformando os personagens para obter aquele “q” de surrealismo (que Evangelion consegue muito melhor porque não tem medo de ir ao limite).

Para finalizar, queria referir que no meio desta negatividade toda gostei bastante da direção de Kyoda Tomoki . Apesar da animação flutuante, o anime é cosido pela direção, atando toda a incoerência num anime que no final (quase) faz sentido dum ponto de vista progressivo e tonal. A direção é principalmente interessante nas sequências surreais que já mencionei.

Apesar da sólida direção, várias cenas ao longo dos episódios de Eureka Seven parecem-se bastante com Evangelion, por vezes utilizando a mesma sequência de shots e chegando mesmo ao ponto de ter quase cenas iguais frame por frame (não estou a gozar, e isto não acontece uma nem duas vezes). Prestar homenagem a um anime noutro introduzindo referências e easter eggs é bastante comum; contudo, quando se utiliza uma premissa semelhante, um rumo de história semelhante, personagens semelhantes e, depois, ainda se faz copy paste de algumas cenas numa tentativa falhada de simular uma atmosfera semelhante à que Evangelion cria em algumas partes é um pouco cansativo e entediante, especialmente para fãs do anime que está a ser quase plagiado (como eu!).

O departamento do som não é um dos pontos fortes em Eureka Seven, mas também não diria que magoa tanto a qualidade geral do anime como as inconsistências na história ou animação. O sound design é mediano, sendo que não houve (nem esperaria) grande atenção a muitos pormenores (como o facto de personagens andarem em chapas de metal umas vezes soarem como se estivessem a andar em alcatifa e outras como se estivessem a dar chutos a latas de Coca-Cola (not sponsored)).

Tirando as inconsistências ao nível dos sons diegéticos (algo que provavelmente não vai afetar muita gente), a banda sonora é bastante aceitável. Não é nada de especial e não diria que ouviria a música fora de contexto (como faço com outras OSTs), mas tem algumas músicas que quando são tocadas no sítio certo fazem o coração ir dokidoki e quase nos esquecemos do quão parvas e insignificantes as cenas de ação que estão a acontecer são.

Os openings e endings cumprem a sua função, uns melhores que os outros, claro, mas diria que principalmente os openings estavam na sua grande parte bem conseguidos.

No campo do voice acting, não tenho queixas de maior. Com tantas personagens em cena ao mesmo tempo há-de haver alguma com vozes que dão enxaquecas, mas felizmente tais indivíduos eram bastante secundários, logo não se tornava uma dor de cabeça crónica.

(reação verídica à qualidade da dub)

O mesmo já não se pode dizer da Dub inglesa. Eureka Seven foi dubbed pela FUNimation, contudo, não recomendo a ninguém ouvir aquelas vozes durante 50 episódios. Desde vozes erradas para as personagens até representações claramente forçadas, a dub torna a experiência de ver o anime muito desconcertante, uma vez que nos focamos mais no quão maus o voice acting e lip sync são do que no que está a acontecer em concreto.

MurasakiHime

Hey! Sou a Inês, escrevo como MurasakiHime, gosto de animação (anime e cartoons), mangá, visual novels e música. Estudante universitária nos tempos livres.

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