Kimi no Na wa – Análise

2016 marcou o regresso de Shinkai Makoto ao grande ecrã com Kimi no Na Wa (ou Your Name), que rapidamente se tornou número 1  e 2 nos ranks do MyAnimeList e Kitsu, com scores de 9.31 e 91.06% respetivamente.

Produzido pelo estúdio CoMix Wave Films, Kimi no Na wa é uma história original, escrita por Shinkai, numa tentativa de chamar mais atenção para o seu trabalho e trazer um filme que permitisse introduzir anime e animação a um público mais alargado (como é explicado nesta entrevista).

A história conta-nos como as vidas de Miyamizu Mitsuha, habitante da pacata vila de Itomori no meio do campo, e Tachibana Taki, residente da sempre héctica cidade de Tóquio, são viradas de cabeça para baixo quando ambos começam a trocar de corpo e como este aparentemente insignificante acontecimento afeta não só as pessoas, como o mundo que os rodeia.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o filme ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

O guião de Kimi no Na wa pode ser resumido em três arcos, sendo o primeiro um slice of life sobre os jovens a trocarem de corpo; O segundo mais virado para o drama e ação, com toda a comoção do cometa a destruir a cidade; E o terceiro a vida dos dois em Tóquio, oito anos depois do desastre (os minutos finais do filme).

A primeira metade do filme é de longe a minha favorita, tendo romance, drama e comédia em iguais proporções para criar uma rom-com bastante interessante. O foco é a troca de corpos entre os jovens e como eles têm de aprender a viver como o outro. No início, há uma iniciativa um pouco forçada de confundir a plateia acerca do que se está a passar quando os jovens trocam de corpo. O que se torna ridículo quando se está a ver o filme pela segunda e terceira vez. As trocas rapidamente resultam numa engraçada dinâmica entre as duas personagens muito diferentes, que acabam por se apaixonar.

Se o filme tivesse ficado por aqui eu teria ficado bastante satisfeita e entretida, com um bad-end final clássico à Shinakai (como um dia a troca de corpos parar e eles terem aquele impulso que lhes falta alguma coisa mas sem nunca se conhecerem, por exemplo).

Mas não! Havia um às na manga!  

A segundo arco do filme dá aos jovens a missão de salvar a aldeia da sua destruição iminente devido a um cometa, explicitando que além de trocarem de corpos, os jovens também “viajavam no tempo”, sendo que a vida de Mitsuha se encontrava três anos no passado em relação à de Taki, que se situa no tempo “presente”, o referencial durante este arco.

Este aspecto tornou algo sobrenatural, mas facilmente aceitável, como a troca de corpos, numa ferramenta narrativa cheia de problemas sendo o mais notável destes o facto de nenhum dos personagens reparar na diferença de anos. Fossem eles alunos universitários ou trabalhadores a tempo inteiro seria um pouco mais credível mas principalmente para alunos do secundário, onde é necessário escrever datas e sumários em todas as aulas acho incrivelmente bizarro. Mais, Taki não associa as inúmeras notícias que ouve sobre o cometa (quando está no corpo de Mitsuha) com o cometa que passara há três anos e que já não estava visível no seu tempo “presente”.

Na minha opinião, a transição entre estas diferentes componentes narrativas não foi bem executada, sendo muito brusca, quase como se houvesse uma linha no guião que dissesse “ok, já conhecemos mais ou menos as personagens, já podemos destruir isto tudo com o cometa”. A mudança de tom é demasiado brusca de um goofy slice of life para um character drama com risco associado elevadíssimo. Não há praticamente transição, simplesmente acontece, os personagens acordam um dia e o foco passou a ser o cometa. De referir o quão rídiculo foi o facto de Taki de repente se esquecer de Mitsuha e as entradas que esta tinha deixado no seu diário desaparecerem todas ao mesmo tempo quando ele percebe que ela morreu com o cometa. Que conveniente para aumentar o drama!

Parte do que a primeira metade do filme tinha gasto tanto tempo a desenvolver foi pelo cano a baixo, como o misticismo associado a Itomori e às suas divindades que se torna em algo tão supérfluo como um plot device (na forma de Kuchikumizakem, por exemplo) para permitir que as personagens se encontrassem quando é conveninente. Isto faz com que qualquer mensagem mais filosófica que o filme estivesse a tentar passar (como a analogia do destino com um cordão, explicado em grande detalhe pela avó de Mitsuha) perca a importância porque vamos começar a ver como é que vai ter um papel ridiculamente conveniente na história (no caso do cordão, este torna-se literalmente um elo de ligação entre Mitsuha e Taki em várias ocasiões do filme quando trocam o cordão que Mitsuha usa para atar o cabelo).

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O último arco quebrou com o clássico “final triste em que os amantes acabam sozinhos” (que é quase sinónimo com Shinkai) optando por um mais ortodoxo “final feliz” em que Mitsuha e Taki finalmente se encontram depois de tantos anos em busca “daquela pessoa cujo o nome não se conseguiam lembrar porque tinham amnesia seletiva, I guess”.

Não diria que as personagens de Kimi no Na wa são o ponto forte do filme, o que normalmente é um mau sinal quando se tenta fazer algo que é em parte character drama.  

Não para dizer que as personagens sejam más, porque não são, simplesmente têm pouco que as distinga, são pouco marcantes. Uma das grandes causas para esta falta de caracterização passa pelo facto de quase passarmos mais tempo com Mitsuha no corpo de Taki, e com Taki no corpo de Mitsuha, do que com os respetivos donos de cada corpo no seu dia-a-dia. Por isto as cenas mais sentimentais perdem impacto porque não temos ligações com os personagens em si.

A subcaracterização não aflige só o casal principal, sendo a maioria das personagens secundárias quase tão interessante como uma folha em branco, com personalidades cliché e desinteressantes.

Talvez parte da razão pela qual não gostei muito do desempenho das personagens se prenda ao facto de estar habituada a melhores protagonistas de Shinkai, sendo que Kotonoha no Niwa, o anterior filme do director, conseguiu desenvolver personagens mais interessantes em quarenta e cinco minutos que Kimi no Na Wa numa hora e quarenta e cinco.

Tal como seria de esperar de um filme com o nome de Shinkai Makoto associado, Kimi no Na Wa tem aquela caraterística background art altamente detalhada, com grande atenção à luz, para criar uma atmosfera deslumbrante em cada cena.

Em termos de animação não tenho muito para dizer, sendo esta um pouco inconsistente, por vezes pouco acima de mediano, mas com algumas sequências altamente fluidas, claramente fruto de rotoscope, algo que saltava muito à vista. Não que o uso de rotoscope seja algo que eu condene mas quando é tão óbvio anula um pouco a imersão quando reparamos mais que “agora é rotoscope, agora já não, agora é outra vez” do que na história.

Um pormenor que apreciei bastante foi o detalhe colocado na personificação dos jovens enquanto estavam no corpo um do outro, ou seja, quando Mitsuha estava no corpo de Taki a linguagem corporal do jovem era incrivelmente feminina e vice-versa. Este pequeno detalhe, que em conjunto com o trabalho dos atores, ajudou a vender bastante bem a troca de corpos como algo genuíno e real.    

Gostaria de tirar um minuto para dizer que, ao contrário da opinião geral, não considero que a arte em Kimi no Na Wa estivesse “linda de morrer”. Claro que não se compara com a qualidade de uma série de televisão, de longe, mas comparando com outros filmes recentes e trabalhos anteriores de Shinkai não acho que quer a animação quer a arte em geral fosse assim tão impressionante.

À segunda vez que se vê o filme nota-se muito mais os elementos CGI e as sequências que foram rotoscoped de forma um pouco mais descuidada (principalmente sequências de corrida à distância), o que quebra um pouco a imersão, sendo a quantidade de imperfeições notadas proporcional ao número de vezes que se vê o filme (eu vi três vezes, por isso façam as contas).

Antes de começar a ouvir o contra-argumento de “nada é perfeito” vou voltar a referir Kotonoha no Niwa como referência para um filme que não perde o seu charme com rewatches (confiem em mim, já revi algumas vezes, e não foram poucas).

Vamos desmentir aqui algo que tem sido dito da boca para fora desde que Kimi no Na Wa começou a ganhar mais popularidade e dar mais exposição ao director: os filmes de Shinkai Makoto têm boa arte, são lindos, 25 wallpapers p/segundo.

Shinkai é tendencialmente sinónimo de bom background art, mas isso não se traduz necessariamente em boa arte estando o impacto visual dos seus filmes muito dependente do equilíbrio entre o background e os character designs. Como exemplo disso, podemos comparar Kimi no Na Wa com Byousoko 5 centimeter, um filme mais antigo de Shinkai. Neste filme a arte no background tem as mesmas caraterísticas altamente detalhadas e iluminadas que em Kimi no Na Wa, mas parece muito mais estranho ao olho quando acompanhado pelos character designs simples e toscos das personagens.

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Neste caso não existe muito equilíbrio entre o que está em primeiro e em plano de fundo, resultando por isso em algo visualmente dissonante. Em Kimi no Na Wa o equilíbrio entre as duas componentes visuais está mais equilibrado, resultando numa experiência muito mais suave e agradável à vista.

A banda sonora em si não tem muito que se lhe diga, não sendo nada fora do comum, contudo não consigo negar que, no que toca às insert songs, Radwimps (a banda compositora) fez um excelente trabalho, sendo estas das melhores coisas que o filme tem para oferecer.

Os voice actors também merecem a sua fatia do bolo, pelo excelente desempenho vocal na interpretação de ambas as personagens, demonstrando uma incrível flexibilidade na representação de personalidades femininas e masculinas.

MurasakiHime

Hey! Sou a Inês, escrevo como MurasakiHime, gosto de animação (anime e cartoons), mangá, visual novels e música. Estudante universitária nos tempos livres.

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