Koe no Katachi – Análise

Em 2016, dois anos depois do final de serialização do mangá de Koe no Katachi, chegou a adaptação para filme pelo estúdio Kyoto Animation.

Koe no Katachi conta-nos a história de Nishimiya Shoko, uma rapariga praticamente surda, e de Ishida Shouya, um jovem despreocupado que só se preocupa com não estar aborrecido. Shouya apercebe-se rapidamente do quão “divertido” é maltratar Shoko por causa do seu problema auditivo, liderando a turma do sexto ano num bullying colectivo contra a rapariga, que eventualmente acaba por trocar de escola.

Anos mais tarde, depois de ele próprio ter sofrido de bullying por parte dos seus antigos amigos, Shouya tenta redimir-se das suas ações para com Shoko. Contudo, nada é simples para alguém com profundas cicatrizes mentais (e físicas) fruto de falta de comunicação interpessoal.

A directora de alguns dos maiores sucessos da KyoAni, Yamada Naoko, traz-nos um deslumbrante filme sobre tópicos sensíveis (como depressão e suicídio), mas sobretudo sobre a importância da comunicação, verbal ou não, que de certeza não será para todos.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o filme ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

A história de Koe no Katachi é pouco mais complexa que a premissa em si, excluindo o papel de algumas personagens secundárias, contudo, parte do seu charme está na simplicidade como a conta.

Somos rapidamente introduzidos ao passado das personagens num flashback breve mas repleto de detalhes sobre o seu dia-a-dia durante o 6º ano. Vemos o bullying feito a Shoko, mas também a Shouya, o que ajuda a enquadrar o seu “eu” tímido e introvertido com 17 anos, contrastando com a sua personalidade em criança.

 A verdadeira história começa quando Shouya procura Shoko, numa tentativa de trocar com ela a amizade que esta lhe tinha tentado oferecer tantos anos antes. Mal sabe Shouya que, tal como ele, Shoko também tem grandes arrependimentos sobre a sua infância.

A narrativa é bastante linear (apesar da sua apresentação) e não tem grandes twists, parecendo que tudo decorre de forma natural, com um bom pacing, pelo que não vale a pena spoilar nenhuma parte em específico. Deixo apenas a nota que adorei a forma como alguns temas como a morte de um parente, depressão, auto-estima e suicídio foram abordadas de forma tão íntima e real; mas também como a mensagem final foi positiva, não incentivando tendências suicidas como resposta a problemas.

As personagens, quer principais quer secundárias, dão corpo e alma ao filme; como não seria de esperar outra coisa de algo tão focado na interação com os outros e no esforço de compreensão do próximo.

Durante grande parte do filme acompanhamos a perspetiva de Shouya, vendo o mundo e os outros como ele vê (às vezes com X em frente da cara de quem não confiamos ou de quem não temos coragem de olhar nos olhos), isto não serve apenas como ferramenta narrativa mas também para desenvolver as personagens de acordo com a sua interação com o protagonista, ou seja, nós não conhecemos realmente as outras personagens, apenas conhecemos o que o protagonista acha delas.

 Este tipo de caracterização funciona com as personagens mais próximas do protagonista, como Shoko ou Yuzuru, mas falha em caracterizar tão bem outros elementos do grupo de amigos do jovem, sendo que algumas personagens ficam um pouco vazias de personalidade e, sem contexto do mangá, perguntamo-nos sobre a sua relevância na história geral.

A atenção e detalhe colocado na caraterização da depressão e suicídio como algo que, apesar de não ser saudável, é mundano, em vez de vitimizar as personagens foi algo que me surpreendeu bastante, evitando a simpatia por pena dos coitadinhos que estão deprimidos. Em vez disso apresenta personagens que lutam para sair da depressão e que se ajudam mutuamente a voltar a aprender a viver.

Destaque para as personagens maternas que recebem a medalha para as melhores mães em anime… Não porque sejam necessariamente boas mães mas pela forma como foram construídas e apresentadas.

Como seria de esperar de algo com o nome de Kyoto Animation, a parte visual de Koe no Katachi é muito acima do que estamos habituados, mesmo para as séries de televisão que o estúdio faz, demonstrando mais uma vez que a política de trabalhar inhouse resulta em produções mais bem organizadas, o que se nota no produto final.

Todos os detalhes desde a animação das personagens até aos backgrounds estão em sintonia, trabalhando juntos para obter algo que tem uma qualidade uniforme. Isto não quer dizer que não haja momentos de suster a respiração, mas sim que existe uma melhor dinâmica entre os diferentes aspetos em cena que na maioria dos animes.

Os character designs foram muito bem adaptados do mangá, a minha única crítica é o facto de Ueno Naoka ser muito parecida a Mitsuki Nase, de Kyokai no Kanata, principalmente na forma como é animada (a sua linguagem corporal).   

Outro detalhe a realçar é a dedicação posta em representar a linguagem gestual como uma rela forma de comunicação. Enquanto que o mangá se escapa em apresentar apenas uma ou duas das posições por frase, o filme teve de dedicar mais atenção a essa faceta de interação.

No campo sonoro tenho a dar os parabéns a Ushio Kensuke, o compositor da melhor banda sonora que ouvi desde Shigatsu wa Kimi no Uso, sendo que quase todas as suas músicas são memoráveis e utilizadas de forma muito inteligente para criar atmosfera e evocar um sentimento específico para uma certa altura.

É incrivelmente agradável de ouvir, mesmo fora do contexto do filme, algo que eu aprecio sempre e que considero um traço de uma boa OST (opiniões neste ponto podem variar).

A cereja no topo do bolo é a insert song, Koi wo Shita no Wa, de aiko. Uma linda canção sobre amor acidental que se enquadra bastante bem no contexto da história focando-se no romance lowkey entre Shouya e Shoko.

 

 

MurasakiHime

Hey! Sou a Inês, escrevo como MurasakiHime, gosto de animação (anime e cartoons), mangá, visual novels e música. Estudante universitária nos tempos livres.

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