Hibike! Euphonium – Como utilizar a banda sonora

Hibike! Euphonium (e a sua sequela) é, provavelmente de todos animes que eu vi, aquele que melhor utiliza a sua música. Não quero com isto dizer que é necessariamente o anime com a melhor banda sonora (gostos variam), mas sim que a forma como as peças e a sua interpretação foram escolhidas e introduzidas, para ajudar a construir a narrativa em vez de apenas a suportar, como é comum com as bandas sonoras.

Um relance à sinopse e percebemos que Hibike é um anime sobre musica; está nas tags e tudo. Ao contrário de outros animes de música produzidos pelo mesmo estúdio, sim, estou a olhar para ti K-On! Hibike é, de facto, sobre música, e mais do que sobre tocá-la, é sobre as diversas razões que levam alguém a dedicar tanto tempo a algo aparentemente tão fútil mas como isto não é uma análise sobre a série em si, não me vou meter por aí.

Vamos começar por fazer uma pequena tangente para que o meu argumento sobre a alegada “qualidade” da banda sonora faça sentido.

A utilização  de som em filmes/séries/anime é fundamentalmente sempre a mesma e divide-se em três “tipos” de som:

  • Diegético – Indo ver o significado de diegético ao dicionário, concluímos que sons diegéticos resultam da diegese, ou seja estão adjacentes ao mundo da narrativa. Isto é tudo o que são sons do quotidiano, desde diálogos até ao som de passos, chuva, etc. Sons diegéticos constituem aquilo que as personagens ouvem e consideram normal.
  • Não diegético – Por oposição ao som diegético, é todo o som que não seria ouvido pelas personagens, sendo algo que apenas a audiência ouve, como a banda sonora e as insert songs, mas também, por exemplo, narrações na terceira pessoa.
  • Meta-diegético – É um pouco difícil de explicar, por isso talvez seja mais simples com um exemplo. Sons meta-diegéticos são percepcionados normalmente por apenas uma personagem, sendo interpretado como “o som dentro da cabeça daquela pessoa”. Não é algo que exista no mundo da narrativa, mas também não é completamente externo, uma vez que uma personagem “o ouve”. É o equivalente a termos uma música na cabeça, a não ser que a comecemos a trautear, mais ninguém a ouve, mas para nós é como se a música estivesse a tocar. Aplicado a anime, seriam aqueles monólogos que todos conhecemos dos gêneros shounen e desporto.

A história de Hibike é sobre uma banda filarmónica, que ao contrário da banda de K-on! passa grande parte do anime a praticar ou em competições, em solo ou em grupo. São raros os episódios em que não há música diegética (que agora já sabem o que é) resultado do contexto da história. A música, sendo um tema central na narrativa, tem um papel muito importante, sendo expressa de forma diferente por personagens diferentes (como quando ouvimos as audições dos diferentes membros da banda na primeira temporada).

Esta última frase serviria também para descrever outro anime sobre música clássica: Shigatsu wa Kimi no Uso. Em Shigatsu (um anime também sobre músicos, maioritariamente pianistas) existem muito poucas diferenças entre a música diegética e não diegética. Conhecedores de música clássica discordarão, pois o tipo de complexidade musical de Chopin nada tem haver com a OST de cartoons chineses e blá blá blá. Mas vejamos as coisas do ponto de vista de uma pessoa comum e musicalmente iletrada: quem não saiba música provavelmente não nota a diferença! Isto porque na maior parte dos concertos e recitais que acontecem no anime temos um segundo plano meta-diegético a acontecer ao mesmo tempo, e estamos mais focados no monólogo interno do personagem do que na música a ser tocada. Que é o mesmo tratamento que as peças não diegéticas têm na maior parte do tempo: simplesmente barulho de fundo para a cena a decorrer em primeiro plano. Isto para dizer que, em Shigatsu wa Kimi no Uso não existem quase diferenças entre as peças que é suposto serem entendidas como diegéticas e não diegéticas pois tomam todas um segundo plano nas suas respectivas cenas.

Pelo andar da carruagem provavelmente já perceberam onde eu quero chegar, voltando então à banda sonora de Hibike.

Primeiramente, e ao contrário de outros animes de música (Shigatsu incluído), existe pouco som meta-diegético durante os ensaios e atuações (sim, existem cortes para outras personagens na plateia, e mesmo quando existe comentário é quase sempre por parte de terceiros tirando aquele comentário meta-diegético da Kumiko durante a última atuação da primeira temporada, mas como foi na peça que menos importa espero que o meu argumento continue válido XD, mantendo o som na cena diegético), isto ajuda a não distrair o espectador do que é “realmente importante”.

Além disso, a banda sonora está dividida (quase que fisicamente) entre peças não diegéticas (no CD1) e diegéticas (CD2) pelo uso de duas sonoridades diferentes.

A diferença de sonoridades resulta principalmente de decisão de excluir os instrumentos com maior foco na série (nomeadamente o trompete e o eufónio) da maior parte da música não diegética, sendo as ocasionais flautas o único instrumento que é partilhado (OK, há tipo uma ou duas peças na segunda temporada que são tocadas por uma orquestra completa, incluindo instrumentos de banda filarmónica, mas isso é para servir um propósito muito específico na narrativa).

Isto evita que o espectador fique dessensibilizado para o som dos instrumentos da banda filarmónica (mesmo quando tocados fora dela), e permite que as músicas mais “normais” de banda sonora façam o seu papel de nos imergir na história sem competir com as peças diegéticas por um lugar ao sol.

Tudo isto permite aos produtores, diretores, e diretores de som controlar que música é mais marcante para o público (hint: provavelmente vai ser a do concerto que dura 4 minutos e que tem esses mesmos 4 minutos só de música acompanhada por imagens dos personagens a tocar; e não a música que, mesmo tendo tocado algumas vezes, é usada como background para conversas e interações entre os personagens).

Como devem ter percebido depois disto tudo, eu gosto bastante de música (e de Hibike, talvez o suficiente para ter uma futura análise depois do filme sair, quem sabe) e a forma como Hibike! Euphonium tratou a sua música foi algo que me surpreendeu bastante.


– Gostaste do artigo? Compartilha com os amigos e deixa o teu comentário!

MurasakiHime

Hey! Sou a Inês, escrevo como MurasakiHime, gosto de animação (anime e cartoons), mangá, visual novels e música. Estudante universitária nos tempos livres.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *