Vale a pena ver anime sazonal?

Ultimamente temos vindo a observar uma produção em massa de anime. Todas as temporadas saem pazadas de novos títulos e sequelas e isso é algo que me tem saltado à vista, tal como à de outros conhecidos youtubers como o Digibro e Arkada, e que me leva a falar sobre uma questão que me tem atrofiado o tico e o teco, já há algum tempo: será que vale a pena acompanhar anime sazonal? É uma pergunta bastante abrangente e delicada e que se eu tivesse de responder dentro de dez segundos, eu responderia de uma forma bastante simples: não.

Passo então a explicar: em primeiro lugar eu não quero dizer que anime sazonal seja mau ou que não tenha valor, nem desaprovo aqueles que desejam acompanhar os seus animes preferidos enquanto estão a sair. Apenas penso que o consumo excessivo de séries sazonais não é compensatório, acabando por ser uma perda de tempo, sendo que a principal razão para a minha opinião assenta nesse mesmo problema: o tempo.

A indústria da animação tem vindo a passar por um crescimento quase linear no que toca à produção por exemplo: de 2000 a 2009 saíram cerca de 1165 animes (TV) e de 2010 a 2017 já saíram 1404, mais 239. Como anime está cada vez mais mainstream e existe uma necessidade de reaver o investimento, os estúdios produzem anime industrialmente (muitas vezes sacrificando a qualidade do anime, mas isso fica para outra publicação).

Existe demasiado anime a sair por temporada. Em tempos não muito distantes (durante a década de 2000) as temporadas continham cerca de vinte ou trinta séries por temporada, agora a indústria aumentou a quantidade em demasia. Por exemplo, na temporada passada (Outono 2017) saíram 63 animes novos para acompanhar, incluindo shorts e desprezando as séries que continuam de temporadas passadas, ONAs, OVAs, episódios especiais, filmes e as séries de longa serialização como One Piece, Dragon Ball Super, Boruto, Detective Conan, etc. Posto isto, não há ninguém que acompanhe TUDO aquilo que sai numa temporada, sendo isso quase impossível tanto a nível de tempo, mas também a nível de gostos pessoais. Limitando-nos às animações televisivas, suponhamos que acompanhamos apenas 1/3 dos novos animes (21) e 5 dos que vêm de trás e mais nada, ficamos com cerca de 8 horas e 36 minutos por semana, ignorando as aberturas e encerramentos.

Este tempo torna a ‘regra dos três episódios’ muito penosa e sofredora, pois é o equivalente a perder cerca de 26 horas (78 episódios) a perceber o que vamos deixar ou não de acompanhar ou que vai ser ou não merecedor do nosso tempo (e muitas vezes mesmo assim costumamos levá-las até ao fim) e que, provavelmente, se não fossem sazonais nós nunca as teríamos visto. Isto leva-me a falar da regra do ‘aquilo que comecei tenho de terminar’ apesar de não haver (depois desta matemática toda) muito para debater. Se adotarmos essa filosofia, corremos o risco de desperdiçar o nosso escasso tempo (e que muitas vezes é mesmo rarefeito) em animes que não valem a pena, e abandonar um anime no primeiro ou terceiro episódio, não impede que no futuro se volte a dar uma hipótese, por razões várias.

Não quer dizer que todos os animes sazonais sejam medíocres, muito pelo contrário, todos os grandes animes foram uma vez sazonais. O que aconteceu é que o rácio entre animes de qualidade e animes menos bons (tendo em conta o padrão da época) aumentou bastante. Enquanto na década de 90 tínhamos 30 bons e 90 menos bons por ano, agora temos 50 bons e 150 menos bons, o que torna a diferença entre as quantidades muito mais acentuada.

O aumento da produção e da quantidade de adaptações (tanto de light novels como de mangá) sobrecarregaram muitos estúdios e isso levou a um decréscimo da percentagem da qualidade dos trabalhos seja casting, má adaptação ou simplesmente a escolha de um source material desinteressante.

Passando à frente, eu compreendo três tipos gerais de otaku que acompanham animes sazonais: aqueles que têm algum tipo de profissão ou hobby que o requeira (como diversos youtubers e administradores de páginas eheh), aqueles que querem acompanhar algum anime específico ou sequela e aqueles que acompanham apenas porque gostam de ver anime (também sei que muitos pertencem a este grupo para comparar o tamanho das suas listas pelo fim da temporada, ver anime não é uma competição e se fazem isso, não precisam de ler mais).

Agora, não consigo compreender o porquê daqueles que veem apenas por ver o fazerem (claro que consigo, eu próprio já pertenci a esse grupo). Ver anime sazonal é também um evento social. Ver as mesmas séries que os nossos amigos ou que a comunidade para depois poder participar nas discussões sobre o que está atualmente no ar ou sobre os episódios da semana seguinte, é algo fascinante e uma das poucas coisas boas sobre o acompanhamento de anime à medida que sai tem, mas também não significa que tenhamos de estar a ver muita coisa, bastam aqueles dois ou três de que toda a gente fala, apenas para darmos a nossa opinião sobre o assunto.

Por isso deixo o meu conselho: não percam tempo a acompanhar uma grande quantidade de sazonais se não tiverem de o fazer, é muito tempo que perdem a ver algo que pode vir a tornar-se um anime do qual não gostem e que podiam aproveitar para ver outros animes da vossa plan to watch list, animes que já terminaram e sobre os quais podem ler e ver análises, ou pelo menos saber a opinião pública sobre o anime (mesmo que valha o que valha) e as reações da comunidade e poder construir uma opinião mais sólida sobre o que se quer ver. Acompanhem o mínimo de anime sazonal, melhor ainda, não acompanhem nenhum se não tiverem mesmo hype para ver (alguma adaptação de uma light novel ou mangá que tenham lido e que adorem), pois as opiniões no início da estação são demasiado abstratas (principalmente com animes originais) e mesmo um anime que se mostre “bom” até ao quinto episódio pode vir a tornar-se um monte de lixo. Esperem pelo final da temporada, façam a vossa pesquisa (incluindo na nossa página) e vejam aquilo que talvez valha a pena ver depois de se saber o que foi, e depois se quiserem, podem ver os animes de uma temporada durante a seguinte.

Vale a pena acompanhar anime sazonal? Se não tiverem alguma coisa que vos ‘obrigue’ a isso, não. Ou pelo menos, não mais de dois ou três animes por temporada, isso permite-nos ter tempo livre para diferentes coisas, incluindo acompanhar animes já terminados e que queiramos ver, e ter um conhecimento geral daquilo que se passa, o suficiente para poder interagir com outras pessoas e discutir o assunto. Não tenham medo de dar drop a uma série, pois mais tarde podem sempre voltar a vê-la se vocês virem que afinal até vale a pena e existem diversas séries que só se aproveitam de verdade com uma clássica maratona (seja por uma questão de acompanhamento da narrativa, seja por uma questão de não perder o momentum da série). Se querem qualidade, esperem que saia a edição em bluray. Se é para ter uma maior certeza do que foi aquela temporada, talvez acompanhá-la durante temporada seguinte de modo a filtrar uns quantos animes que talvez, no início, tivessem considerado acompanhar, e assim ter acesso a uma agenda organizada, com tempo livre que podemos usufruir a ver outras séries sobre os quais já existe uma opinião popular mais sólida, e poder viver um período em que ver anime não é algo consumista.

Posto isto, recolhi algumas opiniões adicionais de outros membros da equipa ou amigos próximos sobre este tópico:

MurasakiHime

Vejo anime de forma séria (ver Beyblades e Sailor Moon quando era pita não conta) à cerca de 6 anos e admito que grande parte da minha introdução nunca foi feita exactamente através de animes sazonais, para o bom e para o mau, tendo o meu primeiro anime sido One Piece. Como gostava de ver tudo em maratona acompanhar as coisas semanalmente nunca me apelou, preferindo ver uma ou duas temporadas depois de terem acabado. Isto em parte deveu-se ao facto de, como novata, havia muitos animes “obrigatórios” e clássicos. Só comecei realmente a acompanhar temporadas religiosamente quando comecei a escrever para o Anihome, tendo de acabar de ver os animes a tempo de escrever sobre eles ao final da temporada.

Esse ritmo para mim é honestamente sufocante. Eu sou uma pessoa de compromisso, sendo que normalmente não gosto de ver muitas séries ao mesmo tempo e, como referi antes, prefiro ver em maratona, porque sinto que consigo ter uma relação mais próxima com a história do que vendo semanalmente ao lado de outros 10 animes, cujas histórias começo a confundir ou misturar. Também tenho tendência a analisar as coisas de forma bastante profunda, algo que acompanhando semanalmente uma série se perde porque já não me lembro exatamente de pormenores da história ou perco noção do flow geral da narrativa.

Por outro lado, ao fim de algum tempo, a visualização semanal de anime sazonal acaba por se tornar numa demanda pelo melhor anime da temporada ou do ano, o que, apesar de um lado ser importante para realçar os animes que ficam para a posteridade, a realidade é que a maior parte dos grande animes das temporadas ou dos anos não são realmente os melhores, mas apenas os que foram mais falados (quem é que ainda fala de Erased ou Re:Zero?), caindo rapidamente no esquecimento. Porque na mentalidade sazonal o que interessa mais do que encontrar os melhores “clássicos modernos” é alimentar a hype para um determinado anime durante 3 ou 6 meses e depois nunca mais falar ou pensar nele para o resto da vida. Para alguém cuja grande parte dos seus animes favoritos foram produzidos nos anos 90, essa abordagem é deveras triste, porque não só deixamos de promover a divulgação dos clássicos da indústria como deixamos de valorizar o próprio anime que vemos a longo prazo. Séries como Flip Flappers ou Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu são das melhores coisas que vi em 2016 e entristece-me o facto de, 1 ano depois, estes animes com potencial de serem os marcos da década serem esquecidos e ignorados, porque o que interessa é o que vai sair na próxima temporada.


Scrub

Antes de começar a tentar justificar o porquê de não ver anime sazonal, penso ser essencial dar ênfase ao facto de nunca ter acompanhado várias séries ao mesmo tempo. Tendo isso em conta, o que se segue é a opinião de uma pessoa que sempre gostou de ver anime em maratonas e que raramente se desviou desse padrão.

Há cerca de 4 anos caí num buraco do qual ainda não saí. Nessa altura, tudo o que via de anime era espetacular e muito cativante, levando a que fosse quase impossível descolar-me do ecrã do meu computador durante horas a fio. Isto naturalmente levou a que fosse praticamente obrigatório acabar qualquer anime o mais rápido que conseguisse, dando forma ao que eu iria descobrir ter o nome de maratonas. Infelizmente, esta atividade era o contrário da sua homónima, e trazia consigo o efeito oposto na minha saúde. Tal como as maratonas que conhecia, descobri ser necessário um período de recuperação até que pudesse passar à próxima, para poder deixar assentar tudo o que tinha acabado de acontecer nas dezenas de episódios na minha mente. No entanto, o sentimento de satisfação após ver um bom anime foi o que fez valer a pena as longas maratonas que fazia. Continuando com esta ideia, consigo dizer com muita confiança que espaçar os episódios com uma semana é algo que diminui esta satisfação.

Levei muito tempo a começar a dar hipótese a anime sazonal, e, quando essa altura chegou, foi uma experiência um pouco decepcionante. Apesar de poder estar mais ativo nas plataformas online que discutem anime e criam memes, não consegui encontrar outro benefício significativo que isso me trazia. Ao invés disso, tornou mais complicado o acompanhamento do enredo e reduziu a ligação emocional que crio com as personagens e a sua situação. No entanto, não foi a única vez que acabei por sucumbir à tentação de ver algo que me desperta o interesse antes de todos os episódios estarem disponíveis, mas, cada vez que o faço, fico com a mesma ideia que descrevi acima. Infelizmente, isto não implica que nunca mais vou ver anime sazonal, até porque às vezes os memes são demasiado bons.

António Santos

Sou um amante da cultura japonesa que estuda nos tempos livres. Ver anime, ler manga e jogar preenchem a maior parte do meu dia. A outra parte é dedicada ao Anihome.

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