Abstract

Cardcaptor Sakura e Sailor Moon – Fazer Mahou Shoujos nos Anos 90

Neste Abstract abordarei dois dos meus mahou shoujos favoritos produzidos nos anos 90 infelizmente ainda não é desta que falo de Utena: Cardcaptor Sakura e Bishoujo Senshi Sailor Moon. Isto não é uma análise formal de nenhum dos animes, servindo apenas como forma de expor algumas ideias e opiniões que tenho em relação a ambas as séries.

Sumarizando brevemente ambas as histórias:

Cardcaptor Sakura segue Kimonoto Sakura, uma diligente e alegre rapariga que, por acidente, abre um misterioso livro, libertando um série de cartas mágicas capazes de causar todo o tipo de problemas na cidade de Tomoeda. Acompanhamos Sakura à medida que ela tenta colecionar todas as cartas, tornando-se a sua nova Mestre.

Sailor Moon segue Tsukino Usagi, uma jovem medricas e desleixada, que ganhou poderes mágicos após cuidar de um gato com um estranho símbolo de uma lua na testa. Adotando o nome Sailor Moon, Usagi luta contra todo o tipo de monstros com o objetivo de encontrar outras raparigas com poderes como ela, e acima de tudo, a Princesa da Lua.

Estas são as sinopses iniciais de cada uma das séries. Devido à popularidade destes animes e das suas histórias entre a comunidade, muitos dos argumentos que eu apontarei de seguida foram elaborados de modo a serem compreendidos sem a visualização de uma ou ambas as séries. Contudo, irei falar de algumas coisas bastante específicas, por isso podem considerar isto uma espécie de aviso para possíveis spoilers.

Tratando da parte menos técnica primeiro, falarei da história e personagens.

Eu tenho uma relação estranha com animes cujo público alvo são raparigas. Não suporto a maior parte do que constitui o género shoujo, como os romancezinhos baseados em mal-entendidos e personagens que são uns verdadeiros pãezinhos sem sal na maior parte das vezes.

Vamos lá voltar a arrumar as tochas e forquilhas, isto é uma generalização bastante grande. Na verdade até gosto de alguns shoujos, mas a proporção de séries que não suporto em comparação com as que me cativam é grande o suficiente para poder afirmar que shoujo não faz o meu género (ahahah vamos distrair a audiência com piadinhas para eu não acabar na fogueira). De forma quase irónica, a minha relação com mahou shoujos é quase inversa; sendo o número de animes desse género que eu adoro muito superiores aos que me são indiferentes.

acima: eu a fugir de fãs de shoujo

É de notar que ambos os animes têm elementos de shoujo mais tradicionais, como triângulos amorosos cliché e forçados; ou drama à custa de mal entendidos. São dos aspetos que mais me irritam em ambos os casos, contudo (considerando a demografia alvo) sou capaz de perdoar até certo ponto, principalmente porque as histórias não são 100% focadas nesses aspetos e aquilo que me atrai no conjunto completo é muito superior aos pequenos detalhes que me irritam.

Começamos com uma perspectiva mais geral sobre ambas as histórias; nomeadamente as suas semelhanças. As personagens principais (assim como praticamente todas as protagonistas de mahou shoujos) deparam-se com o seu poder por acaso, vendo-se numa situação em que têm de derrotar ou subjugar uma força oponente de modo a restaurar paz (as cartas ou diversas forças do mal). Têm um leque de amigos próximos que estão cientes dos seus poderes (Tomoyo e Syaoran ou as outras Sailors), reforçando a amizade como um ponto importante na história. Têm também um claro pretendente, fonte de comédia sob a forma de wishful thinking. A certo ponto da história, as protagonistas têm sérios problemas de auto-estima, preocupando-se se elas serão fortes os suficiente para conseguir alcançar os seus objetivos (colecionar todas as cartas ou proteger a Terra). Até aqui é a clássica fórmula.

É nas diferenças entre os dois animes que eu me quero focar, pois são as características que os distinguem da maioria que fazem com que eu goste particularmente de ambos, por razões bastante diferentes.

Sailor Moon, com os seus 200 episódios e cinco arcos, conseguiu fazer e experimentar várias coisas diferentes, criando uma fórmula base para cada arco e uma atmosfera completamente diferente em cada um. Num, o foco está na emancipação das diversas personagens, procurando formas de se tornarem mais fortes; noutro as Sailors são completamente dependentes de um unicórnio para fazerem seja o que for. A extensão do anime comparado com a real extensão do mangá (muito mais pequeno) permite mais exploração das personagens, mas também afeta negativamente algumas partes da história, que parece que não avançam durante episódios para depois ficarem instantaneamente resolvidas num ou dois.

Sailor Moon brilha mais forte na sua terceira temporada, Sailor Moon S, com uma agradável e gradual mudança de tom para tonalidades mais escuras (aka shit gets serious). Personagens moralmente ambíguas surgem, fazendo com que as nossas já estabelecidas personagens repensem o seu lugar e tentem melhorar-se. Em S as protagonistas são muitas vezes salvas por terceiros, fazendo-nos questionar a sua capacidade de lidar com a situação, o que associado à história de fundo geral do arco, lhe confere um tom incrivelmente adulto para algo que tem como público alvo raparigas com 13 anos. E DEPOIS NO ARCO SEGUINTE APARECE UM UNICÓRNIO QUE RESOLVE TODOS OS PROBLEMAS POR ELAS, PORQUE QUEM PRECISA DE CHARACTER DEVELOPMENT?!

Como deve ser óbvio neste ponto, a minha apreciação geral de Sailor Moon provavelmente seria muito melhor se o número total de episódios fosse reduzido para metade, cortando grande parte dos episódios que não avançam nem a história nem o desenvolvimento das personagens, mas não todos! Porque essa versão existe, chama-se Crystal, e fujo dela como o diabo da cruz; mas isso fica para outro abstract. Sailor Moon chega a ser demasiado formulado e aborrecido, com monster designs pouco originais e pouco memoráveis que originam muito pouca tensão, resultado da repetição incessante do formato cliché monster of the week, porque todos sabemos que a Sailor Moon vai mandar o seu mega ataque da temporada e derrotar os mauzões. Os vilões são na sua generalidade bastante desinteressantes e unidimensionais, sofrendo de um problema de design e motivações semelhantes ao dos monstros.

Por outro lado, Cardcaptor Sakura, com apenas 70 episódios, consegue ter uma história quase tão bem ou melhor estruturada que Sailor Moon, com claros objetivos em cada arco. Os episódios seguem uma fórmula geral: Sakura depara-se com um fenómeno estranho, tendo de recorrer à massa cinzenta para arranjar um estratégia para o conseguir travar; contudo, ao contrário de Sailor Moon, Cardcaptor Sakura está mais do que satisfeito em largar essa fórmula durante alguns episódios para se focar mais em certos personagens e/ou eventos. Na minha opinião essa é uma das diferenças mais fundamentais entre as duas séries; a forma como Cardcaptor Sakura está disposto a abandonar momentaneamente o curso episódico da narrativa para nos mostrar um evento banal na vida das personagens que, em termos da narrativa, não serve nenhum outro propósito que não dar mais dimensão às personagens como pessoas que têm vida para além do que têm a haver com as cartas. Isso é algo com bastante valor e que Sailor Moon não tem ao mesmo nível.

Outra diferença a notar é a forma como as forças oponentes são encaradas em Cardcaptor Sakura. As cartas não são inimigos completamente malignos, pelo contrário, muitas vezes nem têm más intenções, sendo várias as que possuem uma natureza pacífica ou são apenas traquinas e acabam sem querer por se tornar inconvenientes. Esta caracterização das cartas como seres com diversas personalidades, associado aos seus designs incrivelmente memoráveis faz com que a demanda de Sakura, apesar de não ter o peso do mundo às costas, é incrivelmente mais interessante do que a de Sailor Moon. Ao contrário do último, o que é interessante em Cardcaptor Sakura é ver qual a estratégia que Sakura vai utilizar mais do que saber se ela consegue selar a carta ou não.

Sendo a audiência-alvo de Cardcaptor Sakura crianças com menos de 13 anos, alguns aspectos mais sérios e adultos da série acontecem em segundo plano, contudo, é evidente para audiências mais velhas o que se passa e porquê. Inversamente, alguns dos aspectos mais infantis por vezes são demasiado irritantes estou a olhar para ti Meilin, e podem tornar-se quase dolorosos de ver durante 20 episódios seguidos (o que provavelmente não é um problema assim tão grande se não for visto em maratona como eu vi). Fiquei bastante surpreendida com a maturidade com que o anime abordou alguns temas como auto-confiança, sexualidade e relações interpessoais; dando uma mensagem bastante positiva acerca destes. Sim, Sailor Moon também aborda muitos destes temas, mas reforço que o anime tem o mau hábito de muitas vezes reverter character development quando bem lhe parece, e por isso acaba por ter menos impacto.

Passando para uma perspectiva mais técnica, ambos os animes merecem crédito, mas por razões opostas; Sailor Moon praticamente inventou o conceito de stock footage, ou seja, a reutilização de sequências específicas em vários episódios como forma de poupar tempo e dinheiro em animação. Foi graças a esta técnica que as personagens conseguiram ter diversas combinações de roupa casual, como se tivessem um real guarda roupa em casa, às vezes escolhendo as mesmas roupas, mas também comprando novas de vez em quando. A forma como as personagens alternavam a sua roupa demonstrou também elevada atenção ao detalhe de forma a reflectir as suas personalidades; por exemplo, considerando vestidos formais, há pelo menos 3 instâncias em que as personagens utilizam vestidos formais, nas três ocasiões Rei (Sailor Mars) utiliza vestidos diferentes, demonstrando a sua atenção e dedicação à moda digno do ídolo nº 1 do mundo; por outro lado, nessas mesmas três situações, Ami (Sailor Mercury) veste sempre o mesmo vestido, demonstrando o seu desinteresse pela sua aparência. A utilização de stock footage permitiu um aliviamento do calendário entre episódios, permitindo maior ênfase onde era necessário.

A animação de Cardcaptor Sakura é fantástica pelo facto de não tomar nenhuns atalhos. Em quase todos os episódios Sakura usa uma roupa diferente, requerendo uma sequência de transformação diferente para cada um, algo que, mesmo utilizando os mesmo keyframes, dá trabalho. Raramente havia shots com o claro intuito de poupar na animação (por exemplo, personagens com as bocas tapadas para nem ter de se animar os lábios a mover quando falam), e na maior parte do tempo havia muito mais movimento em cada cena do que seria necessário. Não para dizer que havia excesso de animação, mas que o esforço de consistência da qualidade e quantidade de animação por cena ao longo dos episódios foi algo que apreciei bastante. Além disso, a arte e a própria qualidade da animação de Sakura é muito mais aceitável mesmo pelos padrões de hoje: com sequências muito fluidas e animação que me moveu com a forma como retrata o peso dos movimentos de forma incrivelmente realista.

Não é surpresa que Cardcaptor Sakura tenha uma melhor animação e produção mais organizada, considerando que há um intervalo de quase 6 anos entre o início de Sailor Moon e de Cardcaptor Sakura, mas achei curioso a abordagem oposta que ambos tomaram em relação à produção, conseguindo no final, fazer quase a mesma coisa.

Fazendo um apanhado dos meus pontos: Cardcaptor Sakura e Sailor Moon são pontos de referência para mahou shoujos dos anos 90 devido a produções praticamente opostas, a primeira focada na melhor qualidade possível e a segunda na maior quantidade de episódios possível. Cada série tem os seus méritos e falhas, contudo acho que mais facilmente recomendaria Cardcaptor Sakura do que Sailor Moon, em parte devido ao seu menor número de episódios e ao aspecto menos formulado; contudo acho que Sailor Moon é um marco na história do género, por isso fãs de anime em geral, e especialmente de mahou shoujo não o deveriam ignorar, porque há muito de bom enterrado no meio de unicórnios como plot devices sim, eu tenho problemas com aquele unicórnio.

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