Abstract

Tradução e dobragem: Como e porquê?

Infelizmente ainda não cheguei ao nível de compreensão de japonês em que consigo ver episódios de séries mais complexas (como Monogatari Series, por exemplo) sem legendas e conseguir perceber tudo (ao contrário da maior parte dos shounens, que por outro lado, são bastante simples de compreender). E, tal como eu, aposto que a maior parte do público de anime em geral está na posição de precisar de legendas.

Além da barreira linguística (principalmente nos Estados Unidos) existe muita gente que simplesmente não gosta de ouvir japonês porque vamos ser honestos, a maior parte das coisas mainstream estão populadas com vozes bastante irritantes, surgindo daí a necessidade de fazer dobragens (ou dubs, como normalmente se identificam).

Para este tópico vou excluir a maior parte das dobragens orientadas para um público mais juvenil, uma vez que essas têm tendência a ser altamente censuradas de modo a “preservar a inocência das crianças” ou algo parecido. Vamos então falar da legendagem e dobragem de anime na atualidade, e oferecer também um bocadinho de contexto histórico.

A meio da década passada, com o aumento da velocidade e qualidade da internet a nível quase global, assistiu-se à popularização de fóruns e sites de hosting de vídeos, nomeadamente Youtube, como forma de consumo de anime, muito do qual nem era revendido de forma legal fora do Japão. No início as traduções oficiais eram uma raridade, sendo o “mercado” (ilegal, diga-se de passagem) populado por fansubbers, ou seja, grupos de amadores que faziam e codificavam as suas traduções.

Por volta de 2006/07, altura em que títulos como Suzumiya Haruhi no Yūutsu e Lucky Star estavam em alta, houve um grande crescimento do número de grupos de fansubbers e, consequentemente, da quantidade de anime a ser traduzido. Para o público geral, isso queria dizer que, de repente, havia imenso anime disponível à distância de um clique, mas isso também queria dizer que parte do texto original seria perdido na tradução e/ou que as pessoas pouco acostumadas não compreenderiam alguns termos ou expressões. E ASSIM NASCERAM AS FAMOSAS NOTAS DO TRADUTOR!

Piadas à parte, para iniciantes, as notas do tradutor podem ser bastante úteis, e eram-no principalmente na altura em que surgiram, quando não havia um de milhão pessoas no Youtube a explicar o que queria dizer “onii-chan” ou “senpai”.

Atualmente a utilização de notas de tradutor caiu um pouco em desuso, mas basta ver algo mais antigo e elas farão a sua aparição. Em grande parte isso deveu-se à massificação da comunidade inglesa de fãs e à discussão e partilha de conhecimentos e opiniões de forma que há uma década atrás era praticamente impossível. Desde então a oferta de legendas oficiais aumentou, quer vindo de sites de stream como a Crunchyroll (que para quem não sabia, já foi um dos maiores sites pirata de stream de anime) e que agora oferecem os episódios traduzidos profissionalmente poucas horas depois da sua saída no Japão; quer de licenciadoras, que revendem e dobram animes dos quais têm licença, como por exemplo a Funimation.

A meu ver existem dois grandes tipos de legendas: as que são o mais fiel possível ao original (muitas vezes tendo de suplementar informação adicional sob a forma de notas de tradutor de modo a que audiências menos experientes consigam entender); e as legendas que tentam localizar um pouco o guião de modo a serem mais acessíveis para que a audiência não sinta tanto o choque cultural.

Debater que tipo de legendas é “objetivamente melhor” é muito difícil, principalmente porque depende do que se está a ver e da preferência pessoal. Da minha experiência, audiências mais casuais tendem a preferir legendas mais localizadas ou dubs, porque têm pouco investimento na cultura e não estão muito dentro das suas peculiaridades, mas também porque não têm muito interesse em aprender vocabulário. Por outro lado, ao fim de algum tempo dedicado à indústria, começamos a compreender naturalmente o vocabulário mais comum; e quando reparamos que o que lemos e o que ouvimos não quer bem dizer o mesmo, acaba por se tornar um pouco estranho. Por isso há quem prefira legendas mais fiéis ao japonês, e para algumas séries (como Monogatari) notas de tradutor são o que nos safa no mar de jogos de palavras e segundos significados de coisas. Idealmente, teriamos a coexistência de ambas as legendas, de forma a que todos pudessem ver tudo da forma como preferem.

Passemos agora para o outro lado da moeda, as dobragens. É de notar que estamos apenas a falar de dobragens oficiais, fandubs e abridges não serão incluídos ou abordados.

Ao contrário das legendas (que podem ser mais localizadas ou mais fiéis ao original) o simples conceito de ter uma dobragem já presume um certo grau de localização, uma vez que requer uma tradução do guião que (ao contrário das legendas) tem de corresponder até certo ponto com a animação de fala que vemos no ecrã. Por esta razão penso que há duas formas diferentes de localizar uma dub: aquelas que tentam manter o guião o mais fiel possível, apenas traduzindo pequenos pormenores como honoríficos (passar “onii-chan” para “irmão mais velho”, por exemplo); e aquelas que tomam liberdade artística de alterar o guião, quase criando um novo anime com novas piadas no lugar de outras que não fariam sentido devido às diferenças culturais.

Para ilustrar este último ponto vou apresentar alguns exemplos de cada um dos tipos de dobragens. Eu sou bastante picuinhas com dubs, porque muitas vezes prefiro ouvir as vozes japonesas do que ouvir americanos a tentar soar “anime” e que na verdade apenas soam parvos e irritantes, por isso apenas mencionarei exemplos de séries que eu vi e cujas dubs gostei bastante, ao ponto em que me é indiferente ouvir em japonês ou inglês, porque foram realmente bem conseguidas.

Como exemplo de dubs que localizam o mínimo possível, removendo as barreiras culturais, temos Baccano! e Evangelion. No caso do primeiro tenho de salientar (para quem não conhece) que é uma história passada nos Estados Unidos, com personagens de diversos estados. Como seria de esperar, na versão original não são reproduzidas as pronúncias características do estado de proveniência de cada personagem, contudo, na dub este é um dos pontos mais fortes em termos de caracterização verbal das personagens. Devido à natureza da história não existe muito contexto cultural para contornar, mas considero que Baccano! corresponde a uma boa adaptação do guião original.

A presença de Evangelion neste argumento deve-se à qualidade da adaptação do guião de modo a manter praticamente todo o conteúdo do original ao mesmo tempo que torna alguns dos assuntos mais relacionados com a natureza da sociedade japonesa compreensíveis para audiências ocidentais. Também é de louvar a forma como os atores conseguiram emular as personalidades das personagens sem soarem demasiado “anime”, nomeadamente nos casos de Ayanami Rei e Asuka Langley Sohryu.

Do outro lado do espectro temos dubs que pegam no guião original e quase que o reescrevem na íntegra, mantendo a história geral igual mas mudando a forma como é apresentada de modo a transmitir a mesma ideia a um público diferente. Exemplos deste tipo de dub são Black Lagoon e Panty and Stocking with Garterbelt, ambos animes com um forte caráter violento e sexual. A abordagem tomada por ambos é bastante parecida, por isso vou falar deles ao mesmo tempo.

Quando comparamos a quantidade de profanidades proferidas em cada uma das versões dos animes notamos que as dubs têm exponencialmente mais asneiras por episódio, de forma a acentuar que não são, de todo, coisas para crianças, mas também porque são utilizadas como forma de caracterização e comédia. Isto deve-se ao facto de na língua japonesa não haver profanidades da mesma forma que existe nas línguas ocidentais, sendo o aumento de asneiras quase uma inversão das normais adaptações para colmatar problemas de cultura.

De forma a serem o mais fiéis ao seu próprio guião, muitas vezes as vozes que ouvimos nas dubs não traduzem exatamente a mesma personagem ou personalidade que esperávamos, pois muitas vezes tentar emular as vozes originais não funciona no novo contexto em que são postos, dando como exemplo Stocking (de Panty and Stocking with Garterbelt), que no original tem uma voz muito mais feminina e suave, enquanto no dub americano tem uma voz muito mais “bitchy” e menos feminina.

Ao contrário das legendas, onde podemos claramente afirmar que ainda hoje as fansubs acabam por ter melhor qualidade geral do que as oficiais (infelizmente); no caso das dobragens é muito mais difícil associar um dos tipos de abordagens como dub de qualidade, uma vez que, quer as mais fiéis, quer as menos fiéis, na sua maioria, sofrem da falta de atuação dos atores. Isto para dizer que, ao contrário dos voice actors japoneses que realmente atuam os seus papéis, os atores americanos normalmente soam muito mais apagados, como se apenas estivessem a ler as suas partes. Adicionalmente, associa-se o facto de muitos atores americanos se esforçarem demasiado para soar “anime”, resultando em gravações bastante cringy e irritantes.

Colocando as coisas nestes termos, torna-se um pouco absurdo falar em boas dubs ou subs. Cada um dos tipos exerce as suas funções respetivas, estejam a ser fiéis ao original, a localizar apenas um pouco, ou a alterar a forma como a história é apresentada de forma a torná-la mais apelativa; fazendo pouco sentido compará-las diretamente. Contudo, independentemente do objetivo final da tradução ou legenda, é sempre necessário ter em mente o que a história original quer transmitir. Para isto é necessário ter uma série de cuidados na tradução do original.

Em parte esta publicação veio a propósito do vídeo dos nossos parceiros da Otaku Vision, onde desenvolvem em mais detalhe este nosso último ponto. Não se esqueçam de ver o vídeo deles e de seguirem o seu canal para mais coisas porreiras sobre anime e mangá!

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