Abstract

Wotaku ni Koi wa Muzukashii & Danna ga Nani wo Itteiru ka Wakaranai Ken: não percebo como é difícil adaptar comédia referencial

Antes de desenvolver o tema deste abstract preciso de ter a certeza que estamos todos na mesma página no que toca às séries em questão.

Os protagonistas são Wotaku ni Koi wa Muzukashii (Wotakoi ou “O amor é difícil para um otaku”) e Danna ga Nani wo Itteiru ka Wakaranai Ken (Danna ga Nani ou “Eu não percebo o que o meu marido está a dizer”) e sim, antes que perguntem, o título do artigo é uma piadinha com as traduções de ambos os títulos :v.

Ambas as séries têm animes que adaptam as suas mangas de origem, ambas reflectem sobre a vida adulta de otaku e as interações com não-otaku, e são ambas comédias com uma grande vertente de humor referenciando a cultura otaku (ou seja fazendo piadas com cenas de outros jogos ou animes).

Danna ga Nani retrata o dia-a-dia da vida de Tsunashi Hajime, um otaku hardcore que vive à conta do seu blog, e da sua mulher, Kaoru, uma mundana mulher assalariada que de otaku tem pouco. O charme da série está em vermos como as relações entre as personagens se desenvolvem.

Apesar de ter uma grande componente de comédia referencial, no final do dia Danna ga Nani é bom pelo quão humanas as suas personagens são, tornando as referências um pouco a cobertura em cima do bolo.

A adaptação para anime parece compreender isso, sendo fiel ao mangá nesse equilíbrio entre as componentes otaku e normie slice of life, de modo que o que tenha realmente piada é a diferença de “cultura” das personagens e não simplesmente referenciar animes a torto e direito estou a olhar para ti gintama.

Grande parte do que torna o anime tão agradável de ver como o mangá é que o sentimento que se tem com ambos é muito semelhante, sendo quase indiferente qual das versões se consome. Em parte pode ter a ver com o facto do artstyle original ser simplista, evitando problemas de produção com falta de movimento ou fluidez das cenas; mas também se deverá ao facto de ser um short, que, ao compactar a narrativa, consegue manter o timing das piadas evitando que se estique algumas cenas mais do que seria necessário para fazer os vinte minutos requeridos para uma série completa.

Não se esqueçam que é mais fácil adaptar mangas de ação do que de slice of life e manter o mesmo timing quando há mais movimento na cena, pois este está revelado nos painéis, do que quando a cena consiste em pessoas sentadas a falar; é fácil cair na tentação de transpor os painéis do mangá diretamente para anime e apenas animar quando alguém fala, mantendo as outras personagens estáticas.

E é essa uma das razões que me fez escrever este abstract, foi ter visto estes problemas na adaptação de Wotakoi, mas antes disso: contexto!

Wotakoi acompanha principalmente dois casais: um composto por um otaku de jogos (Nifuji Hirotaka) e uma fujoshi otaku de anime e mangá (Momose Narumi); e outro por um otaku fã de yuri (Kabakura Tarou) e uma fujoshi cosplayer (Koyanagi Hanako). A história revolve em torno dos seus esforços por conciliar as suas vidas de assalariados com os seus respectivos hobbies, focando-se mais nas dinâmicas de cada relação e de como diferentes tipos de otakus interagem. Apesar de inicialmente as personagens serem bastante arquétipos de pessoas com aqueles hobbies especificos, rapidamente revelam um lado muito mais humano e realista.

Tal como Danna ga Nani, Wotakoi também tem uma grande componente de humor referencial, contudo esta vertente está muito aumentada no último devido ao facto de todos os personagens principais serem otaku. Não que seja um mau aspecto, porque de certo modo é bastante realista e qualquer pessoa que partilhe os seus hobbies com amigos também terá inside jokes deste género.

Ao contrário de Danna ga Nani, não considero que o anime de Wotakoi capture fielmente a essência que o mangá transmite. Ao que já tinha referido antes como “problemas de produção” (tal como alongarem cenas mais do que seria necessário para fazer tempo ou falta de movimento nas cenas tornando-as rígidas e artificiais) junta-se um ponto que nunca deixa de me fazer confusão nos episódios de Wotakoi: as personagens têm cara de batata durante mais tempo do que seria desejado! Isto é um grande choque para quem vem de ler o mangá, onde grande parte do charme vem da beleza consistente (fight me!) com que as personagens estão desenhadas, mesmo nas cenas que são levadas mais no gozo. Estas pequenas alterações acabam por ter um grande impacto na forma como algumas piadas são apresentadas, acabando por ter menos piada do que poderiam ter.

Claro, com isto não quero dizer que Wotakoi falha como uma adaptação, longe disso. Gosto bastante como pega em algumas piadas que no manga aparecem soltas, apresentadas quase num formato 4-koma, e as integra na história global. Contudo acho que o anime teria beneficiado em ser um short em vez de ter episódios de vinte minutos, o que poderia também ter evitado alguns dos problemas de animação, considerando que nesta temporada além de Wotakoi o estúdio A-1 Pictures está a produzir/co-produzir outros quatro animes.

Recomendo vivamente o mangá de Wotakoi a quem tenha gostado do anime ou estivesse a pensar em vê-lo, sendo uma experiência visualmente mais agradável que o anime (excepto o opening, aquele opening é a das melhores cenas do anime, ao lado de ter Sawashiro Miyuki como a voz da Kyoanagi). Recomendo também Danna ga Nani a quem tenha gostado de Wotakoi e esteja a procura de algo parecido, com um tipo de atmosfera e humor semelhante.

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