Abstract

DarliFra e animes originais que de originais pouco têm

Sou fã do estúdio Trigger quase desde que sou fã de anime tendo acompanhado praticamente todos os animes que o estúdio produziu, por isso quando Darling in the FranXX (Darlifra para os amigos) foi anunciado criei uma série de expectativas que na altura me pareceram bastante razoáveis, principalmente em relação ao lado criativo da coisa, algo que é normalmente sinónimo do estúdio mesmo quando tentaram fazer dramas românticos no passado coughKiznaivercough. Não vou entrar em muito detalhe sobre o enredo, nem explicar grande parte do que se passa na história porque senão seriam apenas queixas e quero manter isto o mais curto possível.

Haverá SPOILERS daqui para a frente, não só para Darling in the Franxx, mas também para Neon Genesis Evangelion e Tengen Toppa Gurren Lagann! E se ainda não viram Darling in the FranXX este não é um bom sítio para começarem a vossa relação com o anime.

 

Não vi o anime semanalmente mas acompanhava o seu desenrolar nas redes sociais e em fóruns, pelo que não demorei a compreender que à medida que os episódios passavam, mais e mais pessoas se sentiam enganadas e desiludidas com o anime. Na altura desprezei esses comentários como pessoas que tinham criado expectativas demasiado grandes e que no fim não tinham sido correspondidas (como acontece em relação a praticamente todos os animes que saem), mas os comentários persistiam, aumentando em proporção e gravidade (havendo até ameaças de morte a atores e diretores e tudo, o costume na comunidade de anime quando as massas não gostam de algo -.-’).

Quando o anime terminou e chegou finalmente altura de eu lhe pôr as mãos em cima, Darlifra era um tipo de peste negra pior que Sword Art Online, que toda a gente e o seu cão criticava pela história sem consistência, que tinha implodido no último arco.
Com um pouco de receio, pus mãos à obra e comecei a ver o anime. Depois de uma maratona da primeira metade numa tarde fiquei, no geral, bastante satisfeita com a experiência que a A-1 Pictures e Trigger me tinham trazido até aquele ponto.

A animação, e principalmente a character animation, estava fantástica; relembrando-me que mecha não é um género assim tão mau. A história, apesar de não ser particularmente original até aquele ponto, estava a sugerir uma futura exploração de temas como o que representa ser humano? (uma vez que em praticamente todos os episódios éramos seduzidos pela possibilidade de Zero Two não ser humana) e a importância das emoções (marcado pelo facto dos nossos protagonistas serem os únicos que aparentemente as possuíam).

Contudo, uma ameaça ao meu entretenimento permanecia na parte detrás da minha mente: “eu sei que isto vai dar m*rda…”. Porque razão só ouvia comentários negativos em relação ao final da série? Rapidamente percebi porquê ( ´•̥ו̥` ) … Passado o episódio 16 as coisas ficam uma confusão pegada. Numa tentativa de explicar o universo o anime acaba a dar não um (!), mas vários tiros no pé; coisas que antes pareciam inocentes referências a outros animes (nomeadamente Neon Genesis Evangelion e Tengen Toppa Gurren Lagann mas disso já falamos) são agora quase desenvergonhadamente copiadas, não tendo metade do impacto da sua versão original; deixando a impressão que acabámos de ver Ícaro voar em direção ao Sol e cair de rabiosque no chão (se Ícaro fosse uma menina de anime claro).

A segunda metade do anime deprimiu-me. Principalmente porque a primeira me tinha cativado bastante (com foco nos episódios 14, 15 e 16, o clímax do conflito central de Hiro e Zero Two, assim como a tentativa dos jovens viverem sem o constante apoio dos adultos) ao ponto em que o anime poderia ter acabado aqui. Mais ou menos… Mas todo o desenvolvimento de agricultura que acontece uns episódios mais a frente podia ter acontecido aqui e tínhamos tido uma história com princípio, meio e fim melhor do que aquela que no final tivemos. Poderia haver depois uma segunda temporada onde as origens dos Klaxosauros era explicada, mas com um pouco mais tempo para a audiência digerir as coisas, em vez de condensar tudo num ou dois episódios.

Um final assim teria sido melhor porque teria sido mais original em vez da quimera que tivemos, resultado da fusão descontrolada das histórias de Evangelion e Gurren Lagann.

Para os fãs do estúdio Gainax, donde proveio a maior parte do staff fundador do estúdio Trigger, as semelhanças entre Darling in the FranXX e os dois dos maiores sucessos do que foi em tempos uma das grandes forças criativas na indústria são claras. Falo, claro, de Evangelion e Gurren Lagann. Analisemos então os elementos que Darlifra “empresta” dos seus antecessores. Por conveniência falarei deles individualmente, para não ter de estar sempre a explicitar a qual deles me refiro.

Comecemos por Evangelion: a meu ver, e devido à natureza dramática de Darlifra (percebem? porque é um drama romântico), é de Eva que são tirados a maior parte dos detalhes sobre o mundo (mesmo que as razões sejam diferentes). Estes incluem o facto dos pilotos serem todos jovens; o facto da humanidade viver numa sociedade tecnologicamente desenvolvida para combater/evitar a ameaça (Angels ou Klaxosauros); o facto de haver um grupo que regula a sociedade nas sombras (Seelle ou APE) e que funciona em parelha com o grupo de cientistas que estuda formas de combater as ameaças (Nerv ou o próprio professor Franxx?); o facto dos robôs serem feitos a partir de carcaças dos monstros que é suposto derrotarem; o facto da real e secreta motivação do chefe de comando dos robôs (Ikari Gendo ou Professor Franxx) estar relacionada com a ameaça (catálise da instrumentalidade para voltar a ver a sua mulher ou captura da princesa dos Klaxosauros porque ela é bonita???); e já que estamos no tópico do chefe, deixo a nota como ambas as respetivas mulheres desapareceram/morreram no decorrer do desenvolvimento dos robôs. Além destas “semelhanças” na narrativa geral temos também sequências inteiras, tal como a sua composição, que espelham quase frame por frame cenas equivalentes de Eva. Darlifra não é o primeiro nem será o último a utilizar cenas de Eva, contudo o que poderia ser uma inofensiva referência, quando é associada com tudo o resto, fica um pouco demasiado Eva para o meu gosto (e eu adoro Eva!).

Em relação a Gurren Lagann o tipo de inspirações são outras, uma vez que é a narrativa em si que é copiada, mudando ligeiramente as morais e temas. Se leram a nossa publicação sobre a jornada do herói saberão que Gurren Lagann é um exemplo clássico dessa fórmula narrativa e saberão também que é algo largamente utilizado. Então porque é que eu digo que Darlifra “empresta” elementos de Gurren Lagann em específico e não da jornada do herói em geral? Evangelion e Gurren Lagann seguem ambos a jornada do herói, contudo são histórias fundamentalmente diferentes, com ritmos e temas diferentes. Olhemos então para Darlifra em perspectiva; começamos com um protagonista que quer algo mas que não o tem (Simon e Kamina vivem na sua vila debaixo da terra e desejam explorar a superfície enquanto Hiro deseja poder pilotar os robôs, algo para o qual foi criado para fazer); depois acontece algo que torna esse desejo possível (o aparecimento de Yoko e a descoberta do pequeno robô Lagann ou o aparecimento de Zero Two que permite que Hiro pilote com ela); um grupo de companheiros junta-se para lutar contra um inimigo comum (formação da equipa Dai-Gurren ou a aceitação de Hiro e Zero Two pelo esquadrão 13). Até aqui tudo bem, clássica jornada do herói; o ponto seguinte seria algo que testaria a determinação do protagonista (SPOILERS!! a morte de Kamina ou o facto de Hiro por a sua vida em risco ao pilotar Sterilizia pela terceira vez); contudo quando chegamos ao fim do primeiro arco descobrimos que (tal como Lordegenome) os Klaxosauros estavam na realidade a proteger a Terra de uma ameaça maior: Aliens (Anti-Spirals ou VIRM), que agora são o inimigo principal e a luta abandona o planeta Terra e deve agora espiralar fora de controlo para uma guerra intergalática (ahahah piadinhas).

Além de utilizar a mesma história, Darlifra conseguiu arruinar completamente a revelação porque: 1. aconteceu literalmente uns minutos após descobrirmos que afinal os Klaxosauros eram bons (por isso ainda estávamos a digerir isso); 2. tinha quase nenhuma relevância para os temas explorados na série, ao contrário de em Gurren Lagann, onde os Anti-Spirals explicam que a sua luta se baseia no controlo do número de elementos em comunidades avançadas de modo a que o poder da espiral, Spiral Nemesis – uma metáfora para potencial e evolução – não saia fora de controlo; 3. a transição de paradigma (luta na Terra para luta no espaço) acontece quase do nada em vez de estar contextualizada, como acontece em Gurren Lagann onde o conflito vai gradualmente ganhando dimensões cada vez maiores (tal e qual uma espiral, um dos principais símbolos do anime, quem diria que simbologia poderia estar relacionado com os temas apresentados??), o salto para o espaço, apesar de um pouco exagerado (mas esse é o propósito! Tal e qual como uma espiral!) não é completamente inesperado, estando de acordo com os temas centrais da narrativa.

Vou respirar um pouco e falar de algo que vem a propósito apesar de não ter só haver com Darling in the FranXX. Com mais e mais novos estúdios a surgirem todos os anos, mais e mais novos títulos todas as temporadas e uma crescente demanda por animes originais, tenho visto animes “originais” a “inspirarem-se” noutros de forma nem sempre subtil. Outro exemplo especialmente doloroso foi 18if, cujo conceito e estrutura eram estranhamente semelhantes aos de Flip Flappers (que havia saído nem um ano antes).

Sim, fazer referências a outros animes não tem mal, havendo quase um género dedicado a isso, principalmente para fins de comédia, mas quando o produto final transpira mais das inspirações do que ideias novas acho que devemos ficar preocupados. Principalmente porque Darlifra não é o primeiro nem será certamente o último anime a pegar em conceitos que uma vez foram originais e arruiná-los de forma quase irreconhecível, especialmente considerando o quão exigente e competitiva é a indústria de anime atual, que parece mais preocupada em produzir quantidade em vez de qualidade.

Se depois disto me perguntarem o que acho de Darling in the FranXX, a minha resposta vai ser provavelmente aquela que eu tanto tinha ouvido enquanto o anime estava a sair: que visualmente é maravilhoso, que tem boa música (aqueles endings, man!), mas que isso pouco o salva em termos de história. E a principal razão para isso é ter tentado copiar dois dos melhores animes de sempre e falhado miseravelmente.

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