Análises

Violet Evergarden – Análise

Lançado no início de 2018, numa colaboração com Netflix, Violet Evergarden foi facilmente um dos animes mais aguardados da temporada (em grande parte devido ao pedigree do estúdio que o produziu, Kyoto Animation, e à mediática campanha de marketing que rodeava o anime). Adaptado de uma light novel do mesmo nome publicada pelo próprio estúdio (como tem sido hábito da KyoAni nos últimos anos), Violet Evergarden introduz-nos ao continente de Telesis que recupera de uma violenta guerra de quatro anos e à titular protagonista que tendo perdido os braços na batalha final tem agora de se conformar com uma vida fora do campo de batalha; arranjando trabalho numa empresa postal, escrevendo cartas como Auto Memory Doll.  

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho a continuarem a ler esta análise.

Violet Evergarden (utilizarei o título completo para me referir ao anime e apenas o primeiro nome quando me refiro à personagem para evitar confusões) não é, nem será o último anime que trata de guerra e do impacto que esta tem nos que ficam (talvez produto dos japoneses terem levado com duas bombas nucleares em cima), sendo, contudo, um fantástico exemplo dentro das séries que tentam abordar este tema. Quando falamos de filmes/animes que retratam a guerra de forma assustadoramente realista pensamos talvez em Hotaru no Haka (Grave of the Fireflies) ou Kono Sekai no Katasumi ni (In This Corner of the World), relatando a vida de quem está alheio à guerra, vivendo na sua sombra. Isto para dizer que um dos aspetos que mais me cativou desde o início em Violet Evergarden foi termos uma história de guerra contada do ponto de vista de quem participou nessa guerra; interesse esse solidificado pela personalidade da protagonista (ou falta dela, muitos argumentarão).

Violet era ainda uma criança quando foi deixada ao cargo do Major Gilbert Bougainvillea que, apesar de relutante, a treinou arduamente, produzindo um fantástico soldado da pequena. Entre ter crescido no meio de uma guerra rampante e a sua rígida educação militar, Violet, como seria de esperar, tem falta de senso comum, graves dificuldades em sentir empatia e em identificar e expressar emoções, suas ou dos outros.

É esta a Violet que encontramos no primeiro episódio (menos um par de braços, prontamente substituídos por próteses mecânicas altamente avançadas que parecem saídas de Fullmetal Alchemist), desejosa por voltar ao ativo (apesar da guerra ter terminado) e por reencontrar-se com o seu antigo Major. É evidente desde o início para a audiência que o Major está morto, contudo devido à personalidade particular de Violet (e também ao facto de, no final de contas, ela não ser mais do que outra jovem vítima da guerra) é prolongada a ilusão de que ele a espera algures, quer por aqueles que a rodeiam, quer pela própria Violet.

Entra Claudia Hodgins (sim, é um homem), antigo companheiro do Major Bougainvillea no exército, para trazer Violet para a sua empresa, a mando do Major. Uma vez dentro da CH Postal Services, Violet depressa repara na posição de Auto Memory Doll, alguém que escreve belas cartas para outros, lendo entre as entrelinhas dos sentimentos que querem transmitir. Isto ressoa profundamente dentro da jovem, que encontra a sua oportunidade para compreender as últimas palavras que o seu Major lhe tinha dito: “Amo-te”.

A partir daqui a história de Violet Evergarden desenrola-se episodicamente, tendo todos os episódios (ou mini arcos com 1 ou 2 episódios) uma estrutura relativamente parecida. Violet é chamada para um trabalho/tem de escrever uma carta por qualquer outro motivo, depara-se com o seu cliente e depreende que existe algum problema relacionado com algum ente querido/recipiente da carta; donde a exposição a tais demonstrações tão variadas de amor acaba por tocar Violet, que vai aos poucos ganhando consciência das suas próprias emoções e ganhando um sentido de identidade própria. Deixo a nota que, apesar da generalidade dos episódios terem uma estrutura definida, não quer dizer que sejam necessariamente aborrecidos. Sim, sabemos que a Violet vai acabar por escrever a carta e resolver o problema do seu cliente, contudo a magia está em como; porque muitas vezes nem tudo acaba tão bem quanto prevemos, como por exemplo nos episódios 10 (provavelmente o meu favorito) ou 11.

Este formato episódico serve não só para dar a Violet uma base a partir da qual crescer emocionalmente, mas também ajudam a dar mais contexto sobre o mundo da história e a forma como a guerra afetou as pessoas. O facto de não serem necessariamente sucessivos (criando uma sensação de mini time skip) permite que o crescimento emocional que vemos em Violet de episódio para episódio pareça mais natural e menos apressado ou forçado.

Além destas pequenas narrativas que acabam por desaguar na narrativa principal, o anime garante que não nos esquecemos de dois grandes clímax que se aproximam: um deles sendo o momento em que Violet descobre que o Major está morto, reforçado pelo facto de a cada dois ou três episódios termos Violet a questionar Hodgins sobre o seu paradeiro; e o momento em que Violet ganha auto estima e sentido de autopreservação suficiente para deixar de se ver como uma ferramenta de guerra e poder viver pela sua própria vontade, “sem precisar de ordens” como ela própria coloca no último episódio.

Estes são pontos narrativos importantes para aprofundar os temas que o anime apresenta desde o primeiro episódio, cujo desenvolvimento gradual na humanização da protagonista foram uma maravilha de se ver. A forma eficaz como cada ponto e pulso da narrativa é executado é fenomenal, sendo uma das melhores narrativas que vi desde Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu.

Tal como devem esperar de uma série episódica, Violet Evergarden tem muitas personagens, contudo mesmo as que não são aparências frequentes parecem ter uma individualidade própria. Desde a sua personalidade aos seus designs, todas as personagens tinham uma presença única enquanto estavam em cena, sendo memoráveis mesmo que não me recorde dos seus nomes.

Todos, desde o staff da CH Postal Services até às personagens que aparecem apenas durante alguns minutos (como o irmão de Luculia, por exemplo) têm o que consideraria comportamentos e reações realistas, estando muito bem escritos e animados, até ao mais ínfimo detalhe.

Em relação à própria Violet, apesar de ser a personagem com a personalidade mais volátil, nunca sentimos a mudança acontecer até vermos uma situação onde a antiga Violet se comportaria de uma forma diferente que a atual.

Apesar de ter ouvido algumas críticas em relação à idade de Violet (14 anos) eu não considero isso um problema, tendo em consideração que, apesar de a educação militar e guerra lhe terem roubado a infância, ela permanece ingénua e facilmente impressionável uma vez que começa a explorar as suas emoções; como podemos ver no episódio 7, pela forma como Violet reage enquanto escreve a peça de teatro, vibrando intensamente com a história à semelhança de uma criança normal. Vendo a personagem dela pelas lentes de uma criança a quem foram incumbidas imensas e pesadas responsabilidades, podemos compreendê-la melhor do que simplesmente argumentando que é irrealista que Violet tenha apenas 14 anos.

Na minha opinião a KyoAni continua a exceder-se a cada produção, elevando cada vez mais a bitola para o que é possível fazer; criando desta vez algo com a qualidade de Koe no Katachi (ou superior) mas durando mais do dobro do tempo (13 episódios) sem grandes flutuações de qualidade. Os efeitos especiais estão fantásticos (mesmo aquela fogueirazinha com baixa contagem de frames) e os acabamentos estão polidos a um nível que estávamos habituados a ser exclusivo do estúdio Ufotable.

A animação da linguagem corporal também estava fantástica, demonstrando facilmente o estado de espírito da personagem em questão sem ser necessário adicionar narradores ou voice overs. Em nenhuma outra personagem é isto mais verdade do que no caso da protagonista. A forma como são apresentadas as dificuldades de Violet em lidar com as atrocidades que cometeu durante a guerra, assim como com a dor de perder a pessoa que mais significava para ela é quase arrasadoramente real. Tudo, desde a forma como essas cenas são “filmadas” até à palete de cores saturadas utilizadas durante esses momentos, trabalha em conjunto para fazer a audiência sentir os feels.

Os meus elogios na direção acabam por me dar uma certa azia bipolar porque por um lado não deveria estar surpreendida pelas competências de alguém que trabalha lado a lado com os melhores do estúdio (ou talvez mesmo da indústria), mas por outro, o único anime que Taichi Ishidate dirigiu antes de Violet Evergarden foram partes da franquia de Kyoukai no Kanata (anime que eu não tenho em muito alta consideração).

O mundo do anime adota uma estética parecida à dos anos trinta ou quarenta em tudo, desde o vestuário aos carros (incluindo também braços robóticos, completamente em casa naquele período histórico), caracterizando bem o quotidiano apenas pelo aspecto visual da cidade.

Já o disse na secção das personagens, mas os character designs são fantásticos! Únicos o suficiente para serem distintos mas sem serem extravagantes demais ao ponto que seriam irrealistas. Acho que o que tem mais impacto para mim no anime é realmente esse equilíbrio e tentativa de ser o mais realista possível sem deixar de se apresentar como um anime (porque no final de contas também podemos ver Violet Evergarden só para ver uma menina bonita com braços mecânicos).

O departamento do som é outro onde só tenho praticamente coisas boas para dizer (peço desculpa ‘tá?). De notar a atuação de Yui Ishikawa, voz de Violet, devido à forma natural como ajuda à evolução da protagonista de um simples peão sem sentimentos para uma pessoa extremamente emotiva de forma muito subtil.

Mantendo a estética mais rural e clássica que os visuals apresentam, temos uma banda sonora constituída basicamente de peças sinfónicas, mas oh man se elas não valem mais do que ouro. A banda sonora composta por Evan Call é uma delícia para o ouvido, convertendo as emoções do que se passa no ecrã para áudio, de forma tão intensa que mesmo sem o suporte visual a música mantém todo o seu imponente poder de me fazer derramar uma lagrimazinha ou de me dar um arrepio pela espinha acima (se calhar eu sou a única :[ ).

Mas quase mais importante do que ter boa música para o anime em questão, é a forma como essa música é integrada com a componente visual para destruir completamente os corações da audiência. Felizmente, e repetindo o que fez em Hibike Euphonium, Youta Tsuruoka, continua a promover o papel da banda sonora como uma parte integral de uma história, com importância equivalente ao diálogo ou animação, algo que eu aprecio bastante.


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *