Abstract

Pode algo ser objetivamente “bom”? – A influência da opinião popular

Como autointitulada elitista (mais como piada do que outra coisa), encontro-me frequentemente em situações nas quais a minha opinião não vai ao encontro da opinião popular, aquela que é considerada a resposta “normal” a um certo tópico ou anime.

Recentemente, tive uma prolongada conversa com um amigo, sobre os animes que tínhamos visto, que acabou por ir parar a Boku no Hero Academia, um anime quase universalmente aclamado dentro da comunidade, devido à “forma como aborda clichês do género de uma forma criativa”, enquanto aos meus olhos é mais do mesmo –  mais personagens sem personalidade, que já vi feitas em outros mil animes e que apenas servem para encher espaço na narrativa porque não pode ser tudo só sobre o protagonista.

O “problema” numa situação destas não é Boku no Hero, com certeza, devo ser eu. Afinal, como é que eu posso discordar da opinião de milhares de pessoas que consideram este anime um clássico e uma moderna masterpiece?

Quem me conhece não é surpreendido por estas opiniões, nem fica magoado quando palavras como “meh não é nada de especial, era bastante genérico” saem da minha boca para descrever o que, se calhar, é o seu anime favorito. Sem ser arrogante, acho que parte do meu mérito como crítica vem exatamente da minha opinião divergente em relação a muitos tópicos, porque ao não me sentir pressionada para manter o status quo, permito-me olhar para as coisas de forma mais objetiva do que quem vive no ambiente saturado de hype, na perpétua busca do “novo grande anime” que é a experiência de ver anime sazonal.

Se falarem com fãs mais antigos de anime, compreenderão que o paradigma do consumo de media mudou radicalmente com a mudança de século, em grande parte, devido ao acesso à internet. Nessa altura, havia uma lista quase fixa de clássicos, como Ghost in the Shell, Neon Genesis Evangelion, Gundam, Legend of the Galactic Heroes, Cowboy Bebop, entre outros. A maior parte desses títulos, pregados nos dias primordiais desta comunidade como obras de arte, continuam hoje em dia a ser considerados “bons” animes. Mas com base em que padrão é que isso foi decidido? Que autoridade olhou para os animes daquelas décadas e decidiu que estes seriam os que seriam passados às seguintes gerações de fãs? Os fãs, para dizer a verdade. Os mesmos fãs que fizeram de Dragon Ball, Naruto e agora Boku no Hero Academia sucessos culturais. Então porque é que os títulos daquela lista de anime, praticamente obrigatórios para alguém se poder considerar fã de anime no início do século, mantêm o seu prestígio na era contemporânea, enquanto animes que, depois dessa data, também foram fenómenos culturais, mas têm a sua qualidade “objetiva” posta em causa (estou a olhar para ti SAO)?

Para compreendermos este fenómeno temos de esclarecer uma série de pontos, nomeadamente, como a comunidade evoluiu ao longo dos anos, como é que a crítica de anime se foi desenvolvendo e como é que distinguimos entre um anime “bom” e um “mau”.

Nos anos 90 e início do século XXI, a comunidade de anime era relativamente pequena, em grande parte, devendo-se ao facto de as únicas formas de se ver anime serem acompanhando as transmissões televisivas ou comprando cópias físicas de cassetes ou DVDs, daquilo que as companhias importadoras achavam popular no Japão e consideravam que venderia no mercado ocidental. Além disto, não havia praticamente uma comunidade per se, uma vez que havia pouca partilha de opiniões e interesses. Com a introdução de maior banda larga e o aumento do alcance da Internet, começou a haver, não só proliferação de comunidades online em fóruns, mas também partilha de títulos mais obscuros que hoje em dia equivaleria àqueles animes além dos três com mais visualizações no MAL. As fansubs (traduções feitas por fãs) estavam em crescimento, explodindo em popularidade quando, em 2006, a comunidade cresceu da noite para o dia, graças a Suzumiya Haruhi no Yuuutsu e Lucky Star. O que se desenvolveu nesses anos foi um protótipo da nossa comunidade atual, em que a crítica de anime começou a ser relevante pelo menos dentro da comunidade. De repente, havia centenas de anime para ver e ninguém queria perder tempo com “maus”. Os “clássicos” foram estabelecidos, quase unanimemente pela comunidade, como um legado para a posteridade.

Com o crescimento de popularidade de sites de partilha de vídeo como o YouTube, houve uma deslocação da comunidade para essas plataformas, criando-se o “sistema” de análises que ainda hoje é geralmente utilizado: repartir a série em categorias como animação, música etc., e dar uma nota de um a dez. Este sistema parecia incrivelmente eficaz pois aparentava ser a forma mais “objetiva” de analisar algo, oferecendo argumentos para se gostar ou não do anime em questão, como, por exemplo, “a animação é boa”. Devido ao número massivo de análises e críticas, acabámos, como comunidade, por, silenciosa mas unanimemente, concordar sobre o que é boa animação, o que é uma narrativa com bom ou mau ritmo, o que são boas personagens, sem nunca refletir sobre a “objetividade” deste tipo de análise.

Um exemplo clássico dos problemas do sistema atual de crítica de anime é Sword Art Online. Antes de ser o alvo de piadas e crítica como o conhecemos agora, SAO era dos animes mais amados que a (nova) comunidade tinha visto, conquistando quase toda a gente com apenas um episódio. 25 episódios e uns anos depois, dizer mal de SAO passou a ser moda dentro da comunidade, que continuamente disseca a série e goza com, como “algo tão mau”, fora uma vez o anime favorito de muita gente. Um olhar atento para o fenómeno de SAO permite-nos compreender que grande parte dos seus defensores iniciais experienciou o anime quando estava a sair, naquilo que acima descrevi como “ambiente saturado de hype”. Assim que o fator “hype” deixou de estar associado a SAO, foi possível ver os seus defeitos de forma tão “objetiva” como tinha sido possível ignorá-los anteriormente.

Atualmente, dentro da comunidade existem duas forças principais que motivam os seus membros: hype relativa a anime sazonal (e tudo o que lhe está relacionado), e a já referida demanda pelos clássicos, os animes que ficam para a história da indústria. Apesar de não serem necessariamente contraditórias, é praticamente impossível ter ambas as motivações ao mesmo tempo como fã.

Acompanhar tudo (ou quase tudo) o que sai numa temporada além de destruir qualquer semelhança a uma vida social torna praticamente impossível revisitar antigos títulos e ter novas perspetivas. Fica-se preso num loop de expetativa e a recompensa que se revela é superficial e insatisfatória. Os fãs são quase obrigados pela comunidade a consumir ridículas quantidades de media (correndo o risco de ficar de lado das discussões e teorias caso não o façam) para no final da temporada esquecer 99% e reiniciar o processo. O tipo de julgamento que determina o sucesso de um anime durante a febre da sua estreia é muito diferente do que o que o mantém na história da indústria. Muitas vezes, o que é considerado “o melhor anime” da temporada ou do ano acaba por não chegar aos calcanhares de outro mais antigo e “melhor”. Contudo, focarmo-nos apenas nos clássicos é também uma noção enganadora, uma vez que não existe forma de classificar algo como “objetivamente ” bom. Procurar “bons” animes acaba por ser inútil para quem não partilhe do mesmo gosto que nós. Numa era de globalização, os títulos que têm impacto imediato nem sempre têm longa fama (olhemos para o já referido SAO, Erased ou Re:Zero). Tal como os animes que saíram ao lado dos atuais clássicos, e que eventualmente ficaram perdidos no esquecimento, estes, certamente, tinham fãs. O facto de um anime ser popular enquanto está a sair não lhe garante o reconhecimento da próxima geração de fãs, sendo que a longo prazo acaba por ser a sua “qualidade objectiva” que o torna um clássico e não a hype ou controvérsia que gerou.

Já estabelecemos que nem tudo o que é popular é “objetivamente” bom, mas então, como podemos argumentar em defesa da qualidade de um anime, face a todos os problemas com o atual sistema de análise? Apesar de todas as críticas, não é o sistema atual que é o problema, mas sim, a forma como é encarado. Ainda com o ending a tocar, notas são dadas meros segundos após se terminar um anime, para nunca mais serem revistas, o que resulta em listas do MAL sem uma única entrada com score abaixo de 7. Apesar de armados com argumentos aprendidos nas horas de análises que consumiram no YouTube, muitas são as pessoas com as quais é impossível ter uma discussão produtiva (na internet ou na vida real), principalmente, se for um tópico acerca do qual a comunidade tem uma ideia bastante definida. A ilusão de objetividade é algo que é mais problemático do que a análise das diferentes partes de um anime, algo que se deve à falta de sentido crítico dos membros da comunidade, mas também à falta de tempo para o desenvolverem (podera, considerando as horas que gastam com anime sazonal).  

Respondendo então à pergunta que dá nome a esta publicação – pode algo ser objetivamente “bom”? Não, porque não existe objetividade na crítica de arte. No entanto, podemos chegar perto, fazendo um esforço para, quando deliberamos se algo é realmente bom ou mau, nos afastarmos um pouco das nossas emoções e preferências. Não existe problema nenhum em gostar de algo. Contudo, a partir do momento em que existe uma relação de causalidade entre o “eu gosto” e o “é bom”, temos um problema de falta de sentido crítico que acaba com sentimentos magoados porque alguém diz que o anime favorito de outra pessoa está mal escrito ou tem personagens com mau desenvolvimento. Numa comunidade tão baseada na análise e na crítica como é a comunidade de anime, é necessário compreender que objetividade é coisa que não existe. Logo, todos têm direito à sua opinião e a que ela mereça respeito, desde que devidamente formulada e não como um simples “é bom porque eu gosto”.

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