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Tokyo Godfathers: a benção da família

A propósito da época natalícia que se aproxima, gostaria de chamar a atenção para um dos filmes de Kon Satoshi que ocupa um lugar muito particular no meu coração: Tokyo Godfathers.

Imagem promocional para Tokyo Godfathers

Caso ainda não estejam familiarizados com o autor, Kon Satoshi é considerado um dos visionários da cinematografia japonesa das últimas décadas, ao lado de outros nomes mais conhecidos como Miyazaki Hayao, Takahata Isao, Hosoda Mamoru e (mais recentemente) Shinkai Makoto.

Numa curta carreira com pouco mais de 10 anos, Kon Satoshi produziu mais marcos cinematográficos do que muitos diretores aspirariam. A sua influência chegou ao outro lado do mundo, podendo ser vista em diversos filmes como Black Swan, Requiem for a Dream ou Inception.

Exemplo da edição de Kon Satoshi em Paprika

Existe um tema central que é transversal ao trabalho de Kon: o conflito entre a ficção e a realidade, seja esta ficção produto da imaginação, como sonhos e imaginação, ou ilusões. Isto reflete-se no tipo de histórias que as suas obras contam. Graças ao seu estilo de direção e edição, Kon é capaz de construir narrativas em que o espectador está constantemente a questionar-se sobre o que surge no ecrã. Será que foi algo que ocorreu mesmo ou será que foi tudo na cabeça das personagens?

Este tema está presente frente e centro em todas as obras de Kon… exceto em Tokyo Godfathers. Em vez de termos personagens em conflito com o seu subconsciente (Perfect Blue e Paranoia Agent), passado (Millennium Actress) ou com forças exteriores (Paprika); em Tokyo Godfathers temos personagens em conflito com o seu lugar na sociedade.

A história passa-se entre o dia de natal e o ano novo, acompanhando três sem-abrigo que encontram um bebé abandonado na rua. Gin é um alcoólico de meia idade que afirma que ficou sem abrigo após ter perdido a carreira como ciclista profissional ao tentar um esquema para ganhar dinheiro para pagar o tratamento da filha. Tendo sido apanhado e desqualificado a filha tinha-lhe morrido e pouco depois também a mulher. Hana é uma mulher transgénero que nunca conheceu a sua família, simpatizando imediatamente com o bebé a quem chama Kiyoko. O último elemento do trio é uma jovem chamada Miyuki que fugiu de casa após uma discussão com os seus pais.

A narrativa segue o percurso destes três numa tentativa de devolver Kiyoko aos seus pais enquanto nos é mostrado como é a sua vida na rua, assim como o que os prende a essa vida. À medida que Gin, Hana e Miyuki vão desabafando e mostrando um pouco mais de si começamos a compreender que mais do que pressão social, o que devasta os nossos protagonistas é a pressão que colocam sobre si mesmos, arrependimentos que os impedem de estar com quem amam ou com a sua família.

Apesar dos temas pesados sobre abandono, suicídio e estratificação social Tokyo Godfathers é capaz de ser a obra de Kon mais recheada de comédia, seguindo um largo leque de personagens secundárias que retornam para uma ou outra piada que tornam o filme muito mais leve.

Como isto não seria um filme dirigido por Kon sem alguma manipulação da realidade, o filme é incrivelmente fiel aos seus narradores, contando mentiras atrás de mentiras. A edição volta a ter um papel central no que toca à transmissão de informação, tendo uma pronunciada utilização de Chekhov’s gun como transição entre cenas ou para rapidamente justificar o percurso da narrativa. Não existe um frame desperdiçado neste filme!

Além do facto do filme se passar na época de natal e dos paralelos entre o cristianismo e xintoísmo (e das óbvias sugestões que Kiyoko é na realidade Jesus whaaat) o filme transmite também uma forte mensagem sobre o poder da família e de como nem todas as famílias são iguais, mas que o que é necessário é amar o outro. Vemos isto ilustrado tanto em Kiyoko, que junta os nossos protagonistas numa família improvisada, mas também no nosso trio e na forma como vão confrontando as suas respetivas famílias ao longo do filme.

Por isso já sabem, este natal juntem a família (de sangue ou não) e deleitem-se com o trabalho de um dos melhores diretores das últimas décadas.

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