Abstract

Leitmotivs: uma ferramenta muito negligenciada em bandas sonoras de anime

Além de anime, música é outro dos meus grandes interesses. Recentemente apercebi-me de que não me lembrava de alguma vez ter ouvido leitmotivs utilizados em anime e essa realização fez-me refletir sobre o porquê da indústria não se recorrer desta ferramenta narrativa.

Começando pelo início (lol), leitmotiv é uma palavra originalmente alemã utilizada para descrever uma frase ou motivo músical associado a um personagem, local ou conceito dentro da narrativa. Um exemplo clássico de leitmotiv é o tema da Irmandade do Anel na série O Senhor dos Anéis, constituído por um motivo que surge em diversos pontos dos filmes sempre que a irmandade está reunida ou é referida no diálogo; ou o tema do Shire, que toca durante as cenas nessa terra ou quando os personagens falam ou se lembram dela.  

De seguida, queria mostrar como esta ferramenta narrativa é negligenciada pela indústria de anime. É habitual existir um tema ou colecção de temas específicos que tocam em certos momentos de um anime para aumentar o impacto da cena em questão. Exemplo disto é a popular música de Boku no Hero Academia, You Say Run, que toca em momentos de tensão, aumentando a hype da audiência; ou a utilização de Never Coming Back em Violet Evergaden, para aumentar o impacto sentimental de uma cena. De acordo com a definição de leitmotiv, as músicas utilizadas desta forma não são leitmotivs, porque não transmitem nenhuma informação adicional ou relevante à audiência. Isso acontece em parte porque não estão associadas a nada nem a ninguém em particular, em vez disso, são utilizadas para evocar um sentimento e “manipular” as nossas emoções para que tenhamos uma certa resposta à cena em que estas músicas estão incluídas. Isto é um truque a que estamos mais habituados do que se calhar nos apercebemos, sendo semelhante à utilização da música de opening ou ending como clímax da história no último episódio.

Leitmotifs são fundamentalmente diferentes desta “música para manipulação emocional” (como passarei a chamar à utilização de música descrita acima), não só na forma como são utilizados para aumentar a quantidade camadas narrativas, mas também devido à versatilidade e mutabilidade que um motivo pode ter ao longo da narrativa.

Para explicar o que quero dizer com isto vou voltar a utilizar O Senhor dos Anéis como referência: na narração inicial da série, o Anel é apresentado lado a lado com o seu leitmotiv; mais tarde, quando a personagem de Gollum é apresentada, são evidentes as semelhanças entre o seu leitmotiv e o do Anel, representando a relação que estes dois elementos da história partilham. Ao estarem associados a pessoas, locais ou ideias, estes motivos musicais estão abertos a mudança para acompanhar alterações naquilo que estão a tentar representar.    

Apesar de não utilizarem leitmotivs, muitas bandas sonoras procuram ter uma frase ou motivo que as distinga e que sejam facilmente reconhecíveis pelo público. Normalmente ouvidas em cenas que exploram os temas centrais da narrativa ou momentos emocionais, estas faixas tornam-se a marca sonora do anime. Como exemplo óbvio disto temos o tema central de Mahoutsukai no Yome, que ao longo do anime vai tendo diversas iterações e versões, mas que falha em ser um leitmotiv por ser utilizado, não só para representar a protagonista, mas também magia em geral. Por vezes a “música para manipulação emocional” acaba por coincidir com o que é considerado o tema da banda sonora, o que é justificado uma vez que nos momentos de alta tensão a música é utilizada como catalisador emocional, criando os momentos mais memoráveis para a audiência. 

De um ponto de vista narrativo, leitmotivs são uma das maiores contribuições que a música pode ter para a história, além do óbvio papel de fornecer alguma música de fundo para quebrar o silêncio, por isso, é uma pena que quase nenhuns animes utilizem esta ferramenta. Um dos poucos exemplos que posso dar é de uma faixa da banda sonora de Liz to Aoi Tori que representa as raparigas que tocam instrumentos com palheta dupla (neste caso fagote e oboe) que, sem surpresa, é uma peça tocada por esses instrumentos. Compreendo que este tipo de dedicação à parte musical de um anime é muito pouco habitual, em parte devido aos calendários apertados das produções sazonais, mas também à falta de comunicação que normalmente existe entre produtores e compositores (algo que não é exclusivo à indústria japonesa, sendo também muito comum no cinema de hollywood). Contudo, anime não são só séries sazonais, também existem filmes,onde ainda há muito potencial inexplorado neste campo.  

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