Abstract

Takarazuka revue: a estrela por detrás de Shoujo Kageki Revue Starlight

Como parte de um projecto de multi-media mix, no verão de 2018 Shoujo☆Kageki Revue Starlight teve o seu debut na televisão, juntando-se assim aos três mangás [1][2][3], ao jogo para telemóveis e ao stage play no estilo de Takarazuka Revue que completam o resto da franquia. Contudo, antes de entrar em detalhe sobre o anime gostaria de explorar um pouco o que é Takarazuka Revue, para que quando dissecar o anime e compará-lo à sua contraparte real estejamos todos na mesma página.

Imagem de Shoujo Kageki Revue Starlight

Takarazuka Revue é um tipo de teatro caracterizado pelas performances de estilo ocidentais (semelhantes ao tipo de coisas que esperaríamos da Broadway, com parte de musical e tudo) e pelo seu elenco exclusivamente feminino. Com mais de um século de história, Takarazuka ganhou parte do seu charme e fama devido à peculiar divisão do elenco em duas categorias,  otokuyaku (a parte do elenco que representa papéis masculinos) e musumeyaku (por exclusão de partes, a parte do elenco que representa papéis femininos). O tipo de papéis que cada atriz pode desempenhar está definido por fatores como a sua altura e alcance vocal, sendo que apenas mulheres altas e com vozes relativamente profundas são escolhidas para otokuyaku.

Cada trupe tem uma otokuyaku como cara do elenco, acompanhada por uma musumeyaku, sendo estas consideradas as melhores atrizes da trupe. A masculinidade representada pela otokuyaku tenta apelar ao público feminino (a maioria dos fãs deste tipo de teatro) ao apresentar o que seria para muitas o “homem ideal”, cavalheiro mas delicado; sendo esta interpretação de masculinidade realçada pela exagerada feminidade das musumeyaku

Apesar de existir muito mais para falar sobre Takarazuka, como o contexto social e político que levou à sua formação e o impacto que teve em muitos mangás e anime (como Versailles no Bara e Shoujo Kakumei Utena) penso que já têm toda a informação que necessitam para compreenderem algum do simbolismo por detrás de Shoujo☆Kageki Revue Starlight (ou Revstar, para facilitar, malditos animes com nomes grandes).

Exemplo de uma atuação de Takarazuka Revue

De seguida entrarei em grande detalhe acerca do anime, por isso caso ainda não tenham visto o anime (o que é que estão aqui a fazer?) estão avisados que vão ser abordados spoilers assim como pontos principais da narrativa que provavelmente não irão perceber sem o contexto do anime. Bom, agora que todos os que não tinham visto o anime já se foram embora, vamos ao que interessa: Revstar é uma crítica de Takarazuka Revue! 

Ok, se calhar convinha tentar colocar a narrativa de Revstar um pouco em perspectiva antes de fazer afirmações destas… 

Revue Starlight é sobre uma peça chamada Starlight, onde duas jovens se encontram, tal e qual passo do destino e tentam subir a uma torre, mesmo com oposição de uma série de deusas para alcançar as “estrelas”, os seus sonhos. Uma vez tendo as “estrelas” ao seu alcance as jovens são castigadas pela sua ambição, caindo uma delas da torre e ficando a outra lá aprisionada; acabando a peça com a sua dramática separação. 

Revue Starlight é também sobre uma série de aspirantes a atrizes que tentam obter os papéis principais na peça anteriormente referida. À primeira vista esta é a história que Revstar conta, não fosse a existência de uma misteriosa Girafa que incita as raparigas a participar numa estranha audição em que se defrontam (tipo mesmo à porrada, com armas e isso) pelo título de Top Star. 

Apesar de parecerem elementos separados um do outro, à medida que os episódios avançam fica claro que o que se passa nas audições da Girafa, e por consequência, toda a vertente slice of life do anime, é tudo uma grande encenação da história de Starlight. Isto para dizer que o desenvolvimento que ocorre ao nível mais simples como a interação que existe entre as personagens acaba por afetar a grande narrativa. No grande Starlight que é encenado ao longo dos episódios de Revstar a “torre” que as protagonistas, Aijou Karen e Kagura Hikari, têm de subir é o ranking relativo às audições da Girafa, ou seja derrotando as suas colegas num Revue, que, como explicado pela Girafa, é uma representação que inclui dança e canto (é uma desculpa para termos números músicais, ok?) da qual sairá vencedora quem “brilhar” mais e conseguir soltar o botão que prende o casaco da oponente.

Ao longo de toda a história, Starlight é encarado como algo definitivo, sempre como uma história dramática sobre duas pessoas que são unidas mas também separadas pelo destino. Apesar de diversas personagens afirmarem que, tal como as atrizes, também o palco é algo em constante mutação, nunca consideram este “destino” apresentado pela peça mutável.

Aqui podemos começar a traçar um paralelo com Takarazuka. Para começar, Revstar como um todo critica a grande ênfase que Takarazuka põe na binariedade entre os géneros, quer ao apresentar uma história (a peça de Starlight) em que ambas as personagens principais são mulheres, num contexto claramente romântico e que facilmente se poderia ter conformado com heteronormatividade (como seria habitual vermos em Takarazuka, uma vez que existe uma grande tentativa de dissociar o teatro com homosexualidade principalmente depois dos anos 30 devido a alguns escândalos); quer nas personagens.. Temos como exemplo Isurugi Futaba, de longe a personagem que mais seria associada a papéis masculinos, contudo, devido à sua altura, estaria impedida de ser uma otokuyaku devido aos padrões tradicionais de Takarazuka. Tal como Futaba, a maior das personagens que aspira a ser Top Star nunca teria essa hipótese no contexto do “sistema” pelo qual os papéis são distribuídos, sendo esta uma das formas que Revstar aproveita para não só desenvolver as personagens mas também a sua relação com o teatro.

Outro conceito fundamental para Takarazuka que Revstar coloca sob escrutínio é a dinâmica entre a top otokuyaku e a sua musumeyaku. Isto é desenvolvido através de dois pares de personagens: Tendou Maya e Saijou Claudine, representando o par otokuyaku e musumeyaku ideal, e Aijou Karen e Kagura Hikari, representando um desvio a esta norma uma vez que nenhuma delas assume nenhum papel particularmente masculino ou feminino como parte da sua dinâmica. 

O estudo destas duas abordagens acaba por estar ligado com o desenvolvimento que acompanha estas quatro personagens ao longo do anime.  

Com Maya e Claudine temos um arco que certo modo reforça a dinâmica clássica de Takarazuka; no caso de Maya (a representação do clássico otokuyaku) observamos desenvolvimento no sentido de compreender que em vez de tentar distanciar-se dos outros como forma de melhorar a sua performance, a qualidade da sua representação aumenta quando tem alguém que a complemente a seu lado; esse alguém sendo Claudine, que por seu lado tem de lidar com o facto de o seu papel não ser como estrela mas como o seu apoio. Este par mostra a força que a dinâmica tradicional de Takarazuka consegue trazer para o teatro, reforçando que, para a maior parte das peças que são interpretadas por estas trupes, este “sistema” permite criar algo único a Takarazuka Revue.

Em contraste temos também a perspectiva que contraria o “sistema”, representado por Karen e Hikari que negam não só a binariedade da representação masculina e feminina mas também o “destino” em si. Lembram-se como acima tinha comentado que  a natureza de Starlight como uma tragédia nunca era posta em causa, bem… no final do anime a versão final de Starlight que é representada em palco e que é encenada por Karen e Hikari durante o último Revue é uma que termina com um final feliz: apesar de separadas as personagens voltam a encontrar-se, acabando por obter “a estrela pela qual tinham desejado”, ou seja não desistir dos seu sonhos. Assim podemos ver Starlight como uma alegoria para o tradicionalismo de Takarazuka, do qual as personagens principais (quer na peça quer na narrativa principal) escapam, deixando de estarem captivas pelas expectativas binárias desse “sistema”.

Outro símbolo relevante na narrativa principal e durante os revues é a torre de Tokyo. Por um lado, esta representa a promessa entre Karen e Hikari para serem atrizes, sendo o local onde haviam formado tal pacto em pequenas; contudo, durante os revues, a torre de Tokyo no fundo acaba por representar o teatro, mas mais especificamente Takarazuka, com as suas regras e morais. Tal como o teatro em si, a torre de Tokyo nunca é encarada como elemento de “opressão” (apesar de encher o plano de fundo de forma quase sufocante em algumas frames) nem de liberdade (contudo, servido como ponte no final da história, permitindo que Hikari e Karen abandonem o “sistema”), cabendo esse julgamento não só às personagens mas também à audiência. Como é realçado nos momentos finais do anime, uma encenação só existe quando existe um público para presenciar o que se passa em palco, por isso nenhum dos elementos é “bom” ou “mau”, simplesmente existe, servindo diversas funções tal como um ator representa diferentes papéis. 

Existe muito mais simbolismo em Revstar mas penso que o que discutimos até agora é o que está mais diretamente relacionado com Takarazuka Revue. Além do desenvolvimento ao nível meta que analisámos, existe também um desenvolvimento interno das personagens, que achei que Revstar abordou de forma muito interessante. Os temas de aprender a deixar o passado para poder melhorar e não associar o nosso amor-próprio com outros ou as suas expectativas, durante os arcos de Daiba Nana e Tsuyuzaki Mahiru, respectivamente, são alguns exemplos de pequenos detalhes que acabam por dar mais personalidade ao texto de Revstar. 

Shoujo☆Kageki Revue Starlight foi um dos animes que mais gostei de ver e rever durante 2018 e acho que é do tipo de histórias que ganha muito com pelo menos uma revisita, por isso deixo o desafio para reverem o anime com estas novas ideias em mente e pode ser que encontrem uma história que seja um pouco diferente da que viram da primeira vez.

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