Análises

Shoujo Kageki Revue Starlight – Análise

Shoujo Kageki Revue Starlight (ou Revstar) é um anime original produzido pelo estúdio Kinema Citrus que teve o seu debut durante o verão de 2018. O anime faz parte de um projeto multi-media mix incluindo três mangás (1, 2, 3) , um stage play e um mobile game.

Um dos possíveis resumos de Revstar (talvez aquele que contenha menos spoilers) é que se trata de uma história sobre uma série de aspirantes a atrizes numa prestigiada escola de representação onde têm de batalhar entre si pelos papéis principais. Isto dentro e fora da sala de aula, uma vez que as personagens veem-se parte de uma bizarra audição conduzida por um girafa ?? onde são desafiadas a lutar entre si, de espada em punho enquanto dançam e cantam, pelo título de Top Star. Para todos os efeitos é um musical mascarado de slice of life, contrapondo o dia a dia das personagens com as sequências musicais.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho a continuarem a ler esta análise.

A história de Revue Starlight é um pouco mais complexa do que descrevi na introdução, sendo composto por três vertentes principais. A mais óbvia é a componente slice of life da narrativa, debruçando-se sobre o que seria a “realidade” das personagens: as aulas que têm na Academia de Música de Sheisho, as peças que têm de preparar e a sua vida no dormitório. Esta vertente surge em oposição à misteriosa audição apresentada pela Girafa, onde o palco, luzes e música respondem ao “brilho” de quem está em palco; um elemento “fantástico” que permite explorar não só a dinâmica entre as personagens, colocando-as em lados contrários do campo de batalha palco, tentando mostrar que são mais merecedoras do título de Top Star do que as restantes; assim como as motivações que as levaram a enveredar pelo caminho da representação. Transversal a estas duas componentes, existe uma terceira que contextualiza toda a narrativa de Revstar: a própria peça Starlight. A narrativa interna da peça funciona como espelho para o que se passa nas duas outras vertentes da história.

Este não é o tipo de história que entrega todas as respostas de mão beijada, confiando à audiência o papel de pensar sobre o que é apresentado e juntar as peças do puzzle, não só em termos do que se passa na história num certo momento, mas também o que o simbolismo significa no contexto geral da narrativa. Apesar de apresentada de forma um pouco esotérica, a história, no fundo, é uma crítica a um sistema (neste caso de teatro, mais especificamente Takarazuka Revue) apresentando pontos de vista a favor e o contra da perpetuação deste tipo de sistemas e tradições. 

Apesar de longe das mais complexas narrativas que já vi (estou a olhar para ti Lain), a história de Revue Starlight está acima da média e admito que não esperava algo assim tão competente quando comecei a ver o anime. 

Se esta discussão sobre a história vos pareceu algo vaga temos uma exploração mais detalhada do simbolismo de Revstar e da sua crítica ao teatro Takarazuka Revue aqui.

Que feito ter conseguido escrever sobre a história de Revstar sem nunca falar das personagens (palmas para mim), contudo não posso adiar o meu destino por muito mais tempo por isso aqui vamos.

Revue Starlight tem um leque vasto de personagens, mesmo considerando apenas as principais. Ao todo, o elenco central é constituído por nove raparigas. Olhando apenas para o que é apresentado no anime, nenhuma personagem é particularmente complexa, apesar de praticamente todas terem claros arcos de desenvolvimento, algo que lhes confere alguma densidade. Parte do charme do anime em comparação ao stage play é ver as personagens a interagir num ambiente relaxado e mundano, dando espaço à criação de dinâmicas que não estão presentes nos outros elementos da franquia.

No contexto de todo o material que existe sobre Revstar, nomeadamente graças ao contributo de Overture, posso afirmar que, tal como o departamento de história, também as personagens estão longe de ser a mais complexas que existem por ai, mas têm um desenvolvimento orgânico e gradual, o que é mais do que muitos animes fazem hoje em dia.

Sendo Furukawa Tomohiro antigo pupilo de Ikuhara Kunihiko, a componente visual de Revstar está ao nível do trabalho do seu mentor, partilhando o mesmo estilo visual de Mawaru Penguindrum e Shoujo Kakumei Utena. A direção, cinematigrafia e utilização estilística de cores criam uma atmosfera nostalgia com o “toque” de Ikuhara contudo é distinto o suficiente para que nunca pareça que está apenas a pedir elementos visuais “emprestados” a outros trabalhos.

Apesar das dificuldades que a produção encarou, o único episódio em que isto é dolorosamente óbvio é o dez, principalmente durante a atuação/batalha, havendo grandes porções que estavam preenchidas com still frames. Isto não quer dizer que Revstar tenha má animação, muito pelo contrário, a equipa por detrás simplesmente ambicionava fazer mais mas os recursos acabaram por limitar o produto final. Quer os segmentos slice of life quer as atuações estão maravilhosamente animadas, tanto que, para olhos mais desatentos, os problemas de produção passariam despercebidos.

Outro campo de Revstar onde tenho muitos elogios a tecer é o sonoro, afinal de contas isto é um músical, convém ter boa música

Apesar de maioritariamente constituída por faixas genéricas, a parte mais tradicional da banda sonora faz bem o seu trabalho de acompanhar os segmentos mundanos da história. Mas não é pela música de fundo que se veem musicais, e de facto é nas atuações que Revstar brilha. As revue songs, como são chamadas, percorrem uma pletora de géneros musicais, desde o jazz até ao techno (?? O que quer que Hanasaka Uta seja considerado) não dispensando, claro, uma forte componente clássica para dar aquele impacto extra onde necessário. Recheadas com pequenas artimanhas como mudanças de tom e jogos entre os instrumentos e as vozes, as músicas e as letras complementam o que se passa em palco, mas também com cada personagem no seu respetivo revue.

Como seria de esperar de um elenco (o elenco real desta vez, diga-se as voice actresses) com experiência em canto, quer participando em outras franquias que o envolvem ou tendo papéis frequentes em outros stage plays, o desempenho das atrizes superou muito as minhas espetativas. 

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