Abstract

Estilo versus Substância: o eterno debate sobre arte

Existe um debate perpétuo na análise de arte que se prende com a dicotomia entre estilo e substância. Aplicado ao mundo do anime isto traduz-se em séries com “boa” animação (algo que discutiremos mais à frente) e efeitos ofuscantes como atração principal em oposição a animes mais sóbrios, onde o foco principal são os temas e ideais discutidos.

Claro que todos os animes têm sempre uma certa mistura destes dois elementos, não fosse anime uma forma de média audiovisual, contudo, muitas vezes este confronto entre os elementos visuais e (sub) textuais é utilizado como uma ferramenta para justificar uma opinião ou invalidar outra. Quantas vezes não ouvimos falar de títulos que são muito apelativos superficialmente mas que carecem de profundidade de temas, ou vice versa, onde a falta de apelo visual é justificado pela complexidade da narrativa. 

A conversa fica ainda mais complicada quando falamos de animes que se enquadram na categoria de arthouse que, para quem não sabe, são produções cujo principal propósito é serem peças artísticas, normalmente de natureza mais abstrata do que o tradicional anime sazonal (mas essa discussão terá de ficar para outra altura).

Vamos então discutir estilo e substância como elementos fundamentais de qualquer anime e como uma melhor integração destes parâmetros na nossa opinião geral como fã de anime nos pode abrir os horizontes para outros títulos ou géneros que normalmente não procuraríamos.

Reforçando um dos pontos anteriores: anime faz parte de média audiovisual, por isso-, à partida, existe uma grande componente estilística na base de cada título. Existem estilos específicos associados a um certo estúdio, diretor, animador ou character designer, e isso é algo que é tomado como garantido no mundo de animação. Outra camada de estilo que é incorporada em anime prende-se com o tipo de animação e esta está muitas vezes condicionada pelo tipo de história que está a ser contada. 

Elaborando um pouco mais, o tipo de animação necessário para tornar um slice of life interessante é fundamentalmente diferente do que torna um shounen interessante. O primeiro deve ser muito mais focado na animação das personagens e atenção ao detalhe, enquanto em shounen esperamos ação explosiva e desculpamos algumas artimanhas para poupar recursos (como still shots por exemplo). Outro factor que poderá condicionar a animação é o simples facto de animar o movimento das personagens muitas vezes condicionar o seu design, uma vez que quanto mais detalhe for embutido nos modelos mais difícil será manter o modelo constante ao longo de toda a ação o que pode ter um impacto visual muito maior do que seria de esperar à primeira. Tudo, desde a conceção dos modelos até à sua animação deveria ter em consideração o aspecto final do anime, contudo muitas vezes existe demasiada ambição e muita falta tempo, originando as famosas potato faces quando as personagens aparecem distorcidas ou fora de modelo.

Contudo, no contexto da discussão entre estilo e conteúdo não é isto que está a passar pela cabeça das pessoas, mas sim porque é que o artstyle de FLCL não é consistente, porque é que Little Witch Academia faz questão de passar por todos os géneros possíveis e imaginários incluindo mecha e um comentário meta sobre Twilight?, porque é que animação de Kill la Kill tem uma qualidade tão inconsistente, e por aí fora.

Na indústria de anime existem sempre duas vozes principais por detrás de qualquer projeto: o comité de produção e o calendário. O primeiro é constituído pelas pessoas responsáveis pela direção do projeto, seja uma adaptação ou um título original, porque vai dar dinheiro ou porque querem desafiar os seus limites. São estas pessoas que decidem o que é posto no papel. O segundo nasce do estado atual da indústria onde, devido ao excesso de trabalho e falta de planeamento, os trabalhadores estão em constante modo crunch para terminar os projetos. Um caso muito popular foi o de Madoka Magica, cujos episódios eram passados na televisão incompletos (nomeadamente no que toca à arte de fundo) sendo corrigidos para a versão em bluray

Idealmente, uma produção tem em conta estes obstáculos e os objetivos são planeados de acordo; por isso é que existe uma grande quantidade de anime com animação mediana ou medíocre, que jogam pelo seguro em termos de tempo e recursos, mas também é muito comum haver uma sobrestimação da capacidade da equipa, resultando em animes com boa animação nos primeiros episódios mas cuja qualidade baixa significativamente com o passar do tempo.

Apesar de, na sua essência, a apreciação da parte visual de um anime ser algo bastante subjetivo, existem alguns fatores que podem objetivamente afetar a sua qualidade. Ninguém gosta quando os personagens nunca estão desenhados consistentemente, nem quando a ação consiste só de panning shots ou still frames com pouca ou nenhuma animação para começar.

A parte visual é ironicamente a mais suscetível a flutuações de qualidade ao longo dos episódios e a alterações de última hora devido a complicações de calendarização. Na minha opinião, um anime com animação mediana mas consistente demonstra mais coesão visual do que outro que mostra que queimou os cartuxos todos cedo demais, mas isso é debatível.

No que toca à “substância”, esta normalmente não é tão afetada por problemas de produção como vimos que acontece com a parte visual. Isto em parte deve-se ao facto de os guiões serem escritos antes do episódio passar para a animação, sendo esta a fase mais demorada de produção. A questão que normalmente vem à baila quando se fala sobre este tópico é muito mais subjetiva do que a qualidade da animação pois prende-se com os temas, narrativa e personagens inerentes a uma história. 

Apesar de não ser inédito, a quantidade de anime cujo guião tem de ser alterado devido a imprevistos é muito baixa, quando comparamos com o departamento de animação, sendo este o campo onde se tomam mais atalhos e onde a “qualidade” é normalmente comprometida devido à falta de tempo.

Quando se discute estilo contra substância em relação a um anime muitas vezes o que na realidade se está a discutir são as diferentes partes de um anime que cada pessoa valoriza mais. Alguém que prefira “boa” animação vai naturalmente fechar os olhos quando a história não faz sentido ou as personagens não estão bem escritas, enquanto alguém que prefira conteúdo mais facilmente ignora “má” animação (ou inconsistente) pois o foco está na narrativa e não como esta é apresentada.

Tal como muita gente, eu sou capaz de apreciar animes de ambas as vertentes: animes com uma forte componente visual pelo puro espectáculo; e animes mais focados no conteúdo do que na forma, sendo uma boa fonte de novas ideias ou perspetivas. Contudo, apesar de todos os animes serem, até certo ponto, uma mistura destas duas componentes, existem animes cujo estilo é o conteúdo e estes são os mais mal entendidos.

Para entender melhor este conceito vamos olhar para três animes que, de formas muito diferentes, podem ser descritos com a etiqueta de “estilo é conteúdo”.

Yuri Kuma Arashi é produto da mente de Kunihiko Ikuhara, um diretor com uma visão muito peculiar e um estilo bastante marcado. Em Yuri Kuma, praticamente tudo é uma metáfora, adicionando não só elementos estilísticos como narrativos a cada cena. A história é sobre a ostracização de minorias, por isso existe uma literal muralha entre os dois grupos de personagens. A sociedade representada defende de forma extrema um sistema onde o bem estar do grupo é superior ao bem estar individual, por isso existe uma votação entre todos os membros para criar um bode expiatório em quem descarregar o stress comum. Os elementos visuais não podem ser separados da narrativa de forma simples pois tal como elementos da narrativa estão refletidos nos visuais, existe uma grande influência do caráter artístico na narrativa e no mundo em que a história se desenrola.

Flip Flappers entra numa categoria que eu gosto de chamar “consistentemente inconsistente” que engloba animes com um foco maioritariamente episódico, cujo estilo narrativo muda com frequência (tal como Kill la Kill, Little Witch Academia e o resto do catálogo da Trigger basicamente). À primeira vista é um formato que pode ser desconfortável para quem esteja habituado a ver animes mais lineares, contudo é uma ferramenta que permite um incrível grau de liberdade na exploração das personagens e do mundo, mas também de estilos de animação, de artstyle e dos diferentes géneros a que estamos habituados (shounen, mecha, horror, etc.).

Exploração é um tema central neste tipo de anime, quer a nível da narrativa, quer a nível meta de produção, permitindo trazer novos talentos para dirigir um outro episódio. No caso de Flip Flappers, a história parece um pouco vaga ao início; com a premissa de investigar mundos mágicos paralelos para encontrar artefatos valiosos; contudo rapidamente se transforma numa exploração das personagens principais (e das suas interações) à medida que vão sendo postas à prova, algo que é visualizado pela constante mudança de artstyle e género entre episódios. Às vezes algo tão simples como uma alteração da paleta de cores é suficiente para transmitir à audiência que este é um mundo diferente do habitual; tornando assim muito mais fácil simpatizar com esse sentimento das personagens do que quando apenas nos é dito que estão fora do seu ambiente.  

Em último lugar temos 3-gatsu no Lion, com uma versão muito subtil deste conceito. Produzido pelo estúdio Shaft, 3-gatsu herda todo o esplendor visual que é possível num estúdio com este pedigree, contudo em vez de retratar fantásticas cenas de ação como tínhamos visto em Madoka Magica ou Monogatari, temos… jogadores de shogi deprimidos. A magia de 3-gatsu está na forma como é capaz de ilustrar estados de espírito complexos como solidão ou alegria quando estamos com quem amamos apenas pelas variações no artstyle, na paleta de cores ou do traço utilizado para desenhar os personagens. A atmosfera criada é incrivelmente realista apesar de recorrer-se de ferramentas por vezes muito abstratas, fazendo um fantástico trabalho a transmitir ao espetador os estados de espírito do  protagonista. Isto associado à mistura de estilos de animação entre tradicional e óleo sobre vidro resulta numa experiência visual que se torna indispensável para o contexto da narrativa. De novo, e tal como em Flip Flappers, o impacto é muito maior quando conseguimos sentir o estado emocional das personagens em vez de nos ser apenas narrado.

Para terminar, as componentes visual e narrativa são fundamentais para qualquer mídia audiovisual e anime não é exceção. Preferências de um sobre o outro são pessoais, como é óbvio, contudo, acho que isso não deveria limitar exploração de outros géneros mais afastados do que estamos habituados a consumir. Animes que me cativam particularmente são aqueles que tomam máximo proveito do seu tipo de mídia, entrelaçando componentes visual e narrativa para formar uma malha fina onde não é possível distinguir quem influencia quem.

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