Abstract

Houseki no Kuni: O Navio de Teseu e o Desejo de Ser Aceite

Tal como discutimos um pouco na análise que fizemos da série, devido ao cenário removido da realidade atual, Houseki no Kuni é o palco perfeito para debater questões filosóficas mais abstratas de uma forma mais tangível e acessível.  

Como vamos discutir os temas de forma mais aprofundada acabaremos por entrar em mais detalhes sobre a história e personagens do que na análise pois iremos discutir algumas coisas que apenas são introduzidas mais a frente no mangá, sendo este o mandatório alerta de spoilers.

Caso não tenham lido a nossa análise, vamos recapitular rapidamente do que trata Houseki no Kuni. A narrativa passa-se num futuro distante, em que os humanos deixaram de existir após uma série de seis meteoritos atingir a Terra, dividindo-se nos seus três componentes: carne, espírito e osso, sendo que a cada um destes elementos corresponde a um dos principais grupos de seres que habitam a Terra. 

Os Admirabilis, seres vivos a meio caminho entre um molusco e uma alforreca, representam a carne; sendo o grupo que mais se  assemelha aos animais que conhecemos, com um ciclo de vida que nos é familiar. Tematicamente o seu design como os personagens mais sexualizados (para uma franquia sobre rochas assexuadas) é contextualizado pela sua natureza carnal. 

Os Lunarians representam o espírito, algo aludido pela sua incorporeidade, pela estética budista que adotam, mas também pelo facto de serem literalmente os espíritos de antigos humanos à espera de serem purificados para poderem alcançar a paz. Os Lunarians atacam as Gemas aparentemente com esse objetivo em mente (contudo leiam o mangá para mais detalhes). 

As Gemas representam o osso, seres imortais, completamente inorgânicos, cuja consciência se deve à existência de inclusões (microorganismos) na sua estrutura cristalina. Esta separação entre os componentes do ser humano, assim como o facto da história ser contada da perspectiva do “osso”, confere um nível de abstração para a crítica social que é raramente tão acessível como Houseki no Kuni. Do ponto de vista de um ser eterno, sem conceito de morte ou necessidade de reprodução tudo aquilo que poderiam ser considerados os nossos problemas do quotidiano deveriam ser insignificantes. Contudo esse não é o caso e, como vemos ao longo da narrativa, os problemas que assolam as diversas Gemas são tão ou mais humanos do que os dos outros grupos.

O nosso protagonista é Phosphophyllite (Phos), uma das Gemas mais novas, que procura o seu lugar na sociedade apesar de não ter nenhuma tarefa atribuída. Isto deve-se em parte ao facto de ter uma dureza tão baixa que simplesmente tocar noutras Gemas é suficiente para que se parta, mas também porque Phos é muito desengonçado e desastrado. Assim, apesar de aparentar ser relaxado, Phos tem muito baixa auto-estima, sentindo-se constantemente um empecilho e um inútil. Vamos agora pôr em prática os componentes de um bom protagonista que falaremos em mais detalhe num abstract futuro e colocar a personagem de Phos em perspetiva. O seu Desejo principal é “não ser inútil”, que se traduz nos desejos secundários de “lutar contra os lunarians”, “encontrar um trabalho divertido para Cinnabar que só este é capaz de fazer” ou de “descobrir a verdade acerca do Sensei”. A sua Fraqueza está em constantemente procurar validação externa, não vivendo no presente nem aproveitando o que tem; donde a sua Necessidade é compreender que as outras Gemas não se importam que Phos não tenha nenhuma tarefa, que ele já é amado por quem é e que não precisa de mudar para obter validação exterior. Mais, é altamente sugerido que a solução para o seu problema seria procurar validação interna, aprender a amar-se como é, algo que o personagem constantemente ignora como opção viável (isto não é necessariamente uma crítica, uma vez que Phos ainda vive na “mentira”, não tendo passado pela Auto-revelação).

Um dos pontos temáticos que eu considero mais interessante em Houseki no Kuni é a variação do paradoxo do navio de Teseu desenvolvida ao longo da história, que é apresentada logo desde a primeira interação entre Phos e Cinnabar. Cinnabar é o personagem contra qual a narrativa quer que nos comparemos Phos, apresentando logo desde o início a solução para o seu problema. Isto porque Cinnabar é uma Gema que, apesar de muito inteligente e perspicaz é muito frágil (com a dureza mais baixa de todas), sendo também incapaz de viver na Academia devido ao mercúrio que produz, que é venenoso quer para os seres vivos quer para as Gemas em seu redor. Qualquer área do corpo de uma Gema que tenha sido tocada pelo mercúrio de Cinnabar fica incapaz de captar luz (a sua fonte de energia), tornando necessário raspar a zona afectada, o que pode levar à perda de memórias que estivessem guardadas nos fragmentos removidos.

Isto porque, ao contrário dos animais, as Gemas não contém um cérebro ou uma “alma” onde reside o seu “eu”, em vez disso, a sua personalidade e as suas memórias são o produto das inclusões presentes em todo o seu corpo.

Ao construir as Gemas como entidades quebráveis desta forma, Ichikawa Haruko consegue introduzir uma das melhores variações do navio de Teseu que eu já vi. Ao longo da história Phos vai perdendo diversos membros como parte do seu arco, primeiro as pernas, depois os braços, e até mesmo a cabeça. Sendo estes sempre substituídos por compostos estranhos (ágata, ouro e platina, e a cabeça de Lapis Lazuli respectivamente) que alteram a composição total de Phos ao ponto em que, no final de todas estas mudanças Phos já é constituído de menos de cinquenta por cento de fosfofilite. A cada passo desta mudança é sempre posto em questão se, tal como o navio ao qual se vão mudando as tábuas, Phos continua a ser “Phos”, e de que forma as mudanças que o seu corpo sofre alteram quem Phos é. 

Isto é particularmente evidente quando se põe a questão de utilizar a cabeça de Lapis Lazuli que, ao contrário das próteses anteriores, possui inclusões pertencentes a outra Gema, podendo levar a um conflito entre as suas personalidades. A narrativa acaba por sugerir que Phos não permanece a mesma pessoa, mudando para acomodar o trauma (quer físico, quer psicológico) que sofre. E mesmo quando confrontado com as inclusões de Lapis, Phos acaba por assimilar traços da personalidade de Lapis sugerindo que, apesar de continuarmos a dar o mesmo nome ao navio, ele não é o mesmo mas também não é um navio completamente diferente, pois existe uma série de bagagem emotional que não pode ser separada do objeto dessas emoções.  

A par com as mudanças físicas que vemos em Phos, acompanhamos também a sua evolução para alguém competente e sério, no qual os outros podem depender; que era o seu desejo inicial.  Contudo, quando questionado sobre se ter-se tornado mais forte era tudo o que tinha imaginado, Phos responde que não, pois os seu conflito interno não foi resolvido, continuando a sentir-se inadequado em cima de todo o trauma psicológico que acompanhou os seus novos membros. Isto é ilustrado de forma brilhante pelas alucinações e pesadelos que Phos tem constantemente sobre Antarcticite e Lapis, revelando que não é apenas o seu corpo que é instável, mas também o seu psique. 

Por falar no corpo de Phos ser instável, o facto da liga de Ouro e Platina estar constantemente a transbordar é um dos principais simbolismos da série, aludindo à arte de Kintsugi, reparação de cerâmica com resina misturada com pó de ouro, prata ou platina, realçando as falhas em vez de as esconder, abraçando os ideais de wabi-sabi sobre aceitação da imperfeição. Este simbolismo transmite de novo a mensagem de que a solução para o conflito interno de Phos está em aprender a amar-se e obter validação interna em vez de a procurar nos outros. Sugerindo que muitas vezes o que é necessário mudar não somos nós (fisicamente) mas a forma como nos vemos a nós próprios e como nos vemos contexto do mundo à nossa volta. 

Houseki no Kuni é um mangá lindíssimo, com um sentido estético fantástico, ao qual o anime faz justiça, ambos utilizando as componentes visuais de forma fantástica para adicionar mais uma camada de significado ao texto. A narrativa trata de vários temas que não abordei aqui, como auto-mutilação, PTSD, a construção da sociedade na Academia com base em padrões sociais (como género) que não existem para as Gemas, o significado de não existir o conceito de morte e ter vida eterna; assim como as variações dos temas principais por outras personagens, como Cinnabar ou Dia. Se estes temas vos captaram o interesse recomendo-vos a irem ler o mangá (se ainda não o fizeram), onde estes e outros temas são mais aprofundados.

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