Análises

Houseki no Kuni (TV) – Análise

Baseado num mangá com o mesmo nome, Houseki no Kuni foi uma das grandes surpresas do ano de 2017, surpreendendo não só pela sua narrativa e mundo envolventes, mas também pelo seu sentido estético, utilizando CGI para criar uma identidade visual bastante única.

Houseki no Kuni retrata um futuro onde, após ser atingida por seis meteoritos, a superfície da Terra fica inabitável, levando à extinção dos humanos. No seu lugar, caminham pedras preciosas que, graças às suas inclusões (microorganismos presos na estrutura cristalina), adquiriram uma consciência.  Ao longo dos episódios vamos acompanhando a sua permanente batalha contra os misteriosos Lunarians, que parecem querer colecionar as Gemas. A história segue Phosphophyllite, uma das Gemas mais novas e frágeis, enquanto esta encontra o seu lugar no mundo e o seu propósito.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

Em Houseki no Kuni seguimos o dia a dia das Gemas da Academia que, lideradas por Kongou (Adamant)-sensei, batalham os Lunarians, seres que habitam a lua e cujo misterioso propósito parece ser capturar Gemas. O nosso protagonista é Phosphophyllite (Phos para os amigos), uma das Gemas mais novas que não tem nenhuma tarefa atribuída devido à sua frágil composição (em termos da escala de Mohs) e desastrada disposição. Phos inicia a história sentindo-se inútil e abaixo do seu potencial: a única Gema sem uma tarefa; e acompanhamos a sua jornada enquanto busca uma tarefa e propósito.

Acredito que o apelo de Houseki no Kuni está principalmente nos detalhes da narrativa e nos arcos dos personagens, sendo um caso em que quanto menos se souber a posteriori melhor. Por isso, para quem ignorou o aviso inicial de spoilers, irei debater alguns temas inerentes e a narrativa em geral sem entrar demasiado em pormenores.

A história de Houseki no Kuni tem como base o arco de Phos, à medida que este tenta encontrar um trabalho útil, assim como ilustrar o quão longe podemos ir para obter aceitação dos nossos pares. Ao início, Phos é um personagem simples e descontraído que funciona um pouco como stress relief para as outras Gemas. Tendo surgido há menos tempo, toda a gente trata Phos como aquele irmão mais novo super chato que está sempre a tentar fazer o que os mais velhos fazem, mas que no fundo toda a gente gosta porque é fofo e querido. Tal como nesses casos, Phos é o único a quem a sua “inutilidade” realmente incomoda. Ao longo dos episódios vamos acompanhando Phos na descoberta do seu papel na Academia e no quotidiano das Gemas, ao mesmo tempo que exploramos os segredos desse estranho mundo.

Graças ao seu cenário removido da nossa realidade quotidiana, Houseki no Kuni é uma caixa de areia para a exploração de temas de uma forma mais direta do que o habitual, ao mesmo tempo que mantém a narrativa vaga de modo a poder ter diversas interpretações e leituras dependendo da bagagem com que a audiência encara a série. Existe um conjunto de temas no centro da narrativa  (denotar conceitos como individualidade, propósito, mudança e aceitação) que são refletidos nos arcos de uma ou mais personagens, cada personagem ilustrando uma variação destes temas. Através da interação destas personagens com o protagonista vemos a narrativa a explorar estes temas ao opor diferentes personagens com objetivos semelhantes que tomam caminhos vastamente diferentes para os concretizar.

Uma vez que o mangá ainda não terminou ao momento desta publicação, podem prever que o anime não reflete uma narrativa completa, donde existe sempre a necessidade de suplementar o anime com a leitura do mangá para ter uma visão mais completa do que está a ser tratado (principalmente porque o anime só engloba 5 dos 10 volumes publicados, até à data).  Contudo, e como vamos abordar a parte visual, o nível de narrativa quer textual quer visual do anime faz com que valha a pena, apesar do mangá também ser excecional nestas categorias dentro do seu próprio meio (isto foi uma recomendação para irem ler o mangá também).

O elenco de Houseki no Kuni é bastante extenso, por isso em vez de falar de personagens individualmente irei falar sobre variações nos temas principais.

Na sociedade de Houseki no Kuni, as Gemas que combatem os Lunarians estão organizadas em pares, criando pequenos focos de contraste e desenvolvimento para cada elemento. Os pares com mais relevância a meu ver são Diamond e Bort, e Phos e Cinnabar. 

No caso de Dia(mond) e Bort temos uma versão miniatura do arco de Phos. Apesar de ser um diamante e estar entre os mais fortes, devido à sua elevada clivagem, Dia tem um certo complexo de inferioridade em relação a Bort, sentindo-se como um empecilho. Por seu lado, Bort apenas quer garantir eficiência durante combate, não sabendo como melhor comunicar isto, acaba sempre por magoar os sentimentos de Dia sem nunca o conseguir confortar. Como produto deste conflito, Dia acaba por projetar as suas ansiedades em Phos, encaminhando os dois por um caminho de “mudança” cujos frutos ainda estão a ser colhidos.

No caso de Phos e Cinnabar temos um confronto com a realidade, onde Cinnabar atua como um complemento para os desenvolvimentos de Phos, confrontando o “novo” Phos com as ideias do seu “eu” antigo. Isto porque devido a um veneno que este secreta, Cinnabar isola-se da Academia para evitar contaminar os outros, mantendo uma posição cínica e “objetiva” em relação a Phos. Apesar de serem das Gemas com uma ligação muito profunda, Cinnabar e Phos não passam quase tempo nenhum juntos devido aos diversos conflitos morais e psicológicos que (principalmente Phos) enfrentam. 

Se estiverem interessados numa exploração mais profunda dos temas de Houseki no Kuni, podem ler sobre isso aqui.

Além do rico conteúdo narrativo que Houseki no Kuni apresenta, o anime eleva a história para um nível só seu graças ao seu art style único  e integração de CGI. Desde os character designs, onde cada Gema tem o seu “brilho” (traduzido pela forma única como os seus cabelos brilham e refletem a luz) até à integração dos personagens nos backgrounds tradicionais, algo feito com tamanha subtileza que por vezes fica difícil traçar a linha entre o que é feito em computador e o que é feito à mão. Ao contrário do que é habitual, em Houseki no Kuni o 2D é utilizado para complementar o 3D e não o inverso, mantendo o anime visualmente consistente. 

A animação dos personagens é incrivelmente expressiva, mesmo quando comparado com o normal anime 2D sazonal, o que combinado com o excelente trabalho por parte dos atores realmente dá vida às Gemas. A utilização de CGI permite também maior flexibilidade durante as cenas de ação, onde podemos ver cuts longos, alguns com mais de um minuto (principalmente prevalentes durante o episódio 10), algo que seria impossível utilizando animação 2D mantendo o nível de qualidade constante como é apresentado.

A direção e narrativa visual apresentada foi um trabalho colaborativo entre o diretor, Takahiko Kyougoku, e Yōichi Nishikawa, que teve uma grande influência no produto final com os seus concept designs de algumas cenas e cenários. 

Além de demonstrar um domínio sobre a arte de narrativa visual, Houseki no Kuni solidificou CGI como uma opção não só viável como em alguns casos preferível à animação 2D tradicional.

O departamento de som de Houseki no Kuni também merece parte dos louros, não só em termos de banda sonora mas também de efeitos sonoros e voice acting

A banda sonora composta por Yoshiaki Fujisawa está recheada de fantásticas peças, algumas (como o tema dos Lunarians, ou o tema de Cinnabar) muito perto daquilo que poderíamos chamar leitmotifs, todas distintas o suficiente entre si para que não se confundam mas com uma sonoridade própria de modo a que tenham diferentes cores. Existem também três grandes tipos de peças na banda sonora, aquelas que correspondem às Gemas, aos Lunarians e aos Admirabilis (de quem não falámos, mas que são os habitantes do oceano), cada um com os seus instrumentos e sonoridade característica.

Também gostaria de chamar a atenção para este senhor,  Yukio Nagasaki, o diretor de som, devido ao cuidado que foi claramente colocado não só nos efeitos sonoros dos materiais como as espadas ou o gelo, mas também nas coisas mais simples como passos. Estes não soam como passos de uma pessoa de carne e osso (fiz uma piada) mas sim como eu imaginaria que as Gemas soariam. A atenção ao detalhe em praticamente todos os aspetos do mundo é fantástico e algo que já não experienciava a este nível há algum tempo.

Em termos de voice acting, o facto do diálogo ter sido gravado a priori, ao contrário do que é habitual em anime, permitiu que as performances dos atores fossem integradas na animação dos personagens, embutindo-os de mais vida e personalidade do que aquilo que estamos habituados.

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