Abstract

Narradores Duvidosos em Anime

O narrador é um elemento tão básico de uma narrativa que muitas vezes quase nos esquecemos que ele existe. Neste Abstract vamos falar um pouco sobre diferentes tipos de narrador, com especial foco no narrador duvidoso, e ver como alguns animes usam esse tipo de narrador para enriquecer a sua narrativa.

O narrador é o veículo através do qual a audiência experiencia a história. É particularmente evidente em livros, uma vez que é a única fonte de informação sobre as personagens e o mundo que as rodeia, contudo, está presente em praticamente todos os meios cujo propósito seja contar uma história.

Existem diferentes formas de categorizar o narrador, sendo algumas delas praticamente homólogas. No entanto, existem três grandes maneiras de analisar o narrador, sendo estas: de acordo com a pessoa do narrador, o foco narrativo que o narrador adota e a forma como o narrador narra os acontecimentos.

O narrador pode ser heterodiegético (quando não faz parte da história), homodiegético (quando é personagem mas não necessariamente o protagonista) ou autodiegético (quando é o protagonista dos acontecimentos narrados).

Paralelamente, podemos também classificar o narrador como omnisciente (quando sabe tudo sobre o que se passa no mundo da narrativa, o que normalmente coincide com o narrador heterodiegético), observador (quando narra acontecimentos tal como eles se desenrolam, sem grande foco no que as outras personagens pensam ou sentem, que normalmente coincide com o narrador homodiegético) e personagem (quando o narrador é uma personagem ativa na história, expressando emoções e pensamentos próprios).

Quando o narrador é omnipresente ou heterodiegético normalmente utiliza a terceira pessoa para se referir a todas as personagens, incluindo o protagonista. Ao passo que quando o narrador é uma personagem (homo ou autodiegético) pode utilizar a primeira ou segunda pessoa (apesar desta última  ser bastante rara fora de contextos específicos como jogos ou alguns tipos de livros).

 Como já devem ter deduzido, a maior parte das histórias que encontramos têm um narrador heterodiegético e omnisciente que narra os eventos na terceira pessoa, ou um personagem narrador autodiegético que narra na primeira pessoa.

Um narrador omnisciente normalmente relata a narrativa de forma mais imparcial, tendo em consideração as emoções e pensamentos de todas as personagens envolvidas de forma mais ou menos igual. Por outro lado, um narrador autodiegético está sujeito à subjetividade que acompanha o facto de ser tratar de um personagem isolado, que tal como a audiência, apenas sabe o que lhe é dito ou mostrado. O narrador não confiável ou duvidoso é, por isso, um caso extremo deste tipo de narração.

Podemos considerar que o narrador é duvidoso quando, propositadamente ou por acidente, incita a audiência em erro. Isto pode derivar do facto da personagem cometer um erro de julgamento com base no seu leque limitado de informação, enganando também o público; ou do facto do narrador querer alterar a narrativa apresentada por alguma razão. O narrador duvidoso é uma ferramenta narrativa que funciona porque este é o ponto de vista através da qual a audiência experiencia o mundo da história, donde nem sempre temos forma de saber se a informação que temos está “correta”. Normalmente a audiência tem a vantagem de estar a ver algo que foi planeado, podendo ter informação que os personagens não têm ao observar diferentes perspetivas ou acompanhar diferentes pontos de vista (temos como exemplo clássico disto a série da HBO Guerra dos Tronos, ou o anime de 2007 Baccano). Contudo, essa mesma vantagem torna-se desvantagem caso o propósito do autor seja de facto induzir o público em erro, como veremos de seguida.

Vamos então ilustrar tudo isto com alguns exemplos. Vamos falar de Monogatari Series, principalmente de Second Season, de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu e de Perfect Blue, por isso, se querem evitar spoilers para estes animes a vossa oportunidade de saltar borda fora é agora.

Em Monogatari Series acompanhamos Araragi Koyomi, um jovem no último ano do secundário, enquanto este se depara com criaturas do folclore tradicional japonês que parecem assombrar aqueles à sua volta. A história é caracterizada por ter bastante fanservice e quem fosse pouco versado neste universo pensará que é apenas o anime a tentar seduzir a audiência com frames cândidos das personagens (maioritariamente jovens raparigas). Contudo, esta noção é posta em causa durante a terceira temporada do anime (ironicamente chamada Second Season), quando o narrador deixa de ser Araragi. Nestas raras ocasiões podemos ver que toda a sexualização das personagens a que nos fomos habituando é produto da forma como Araragi vê o mundo à sua volta.

Apesar de não ser a única ocasião em que Araragi não narra durante esta temporada, quero chamar particular atenção para a mudança de narrador que ocorre durante o arco Hitagi End (ou Koimonogatari). Neste, Deishuu Kaiki não só quebra a forth wall várias vezes para troçar e quase insultar a audiência, mas também distorce e mente sobre os acontecimentos relatados (como descobrimos mais tarde através do diálogo entre outras personagens). Chegando ao ponto ridículo de terminar o arco relatando a sua própria morte para depois aparecer vivo e de boa saúde algumas temporadas depois. Este exemplo é bastante meta, tratando-se de um caso em que o autor, Nisio Isin, utiliza o meio para distorcer a mensagem e enganar o público.

No caso de Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu, uma história sobre contadores de histórias, temos um narrador que durante a primeira temporada relatada as suas vivências para a audiência e as outras personagens. Contudo, durante a segunda temporada, tanto a audiência como as personagens descobrem que Yakumo tinha manipulado os eventos narrados anteriormente para transmitir uma certa imagem sobre si que lhe convinha. Neste caso temos o narrador enganar a audiência, como também outras personagens, contribuindo para a narrativa como um todo.

Em Perfect Blue acompanhamos uma jovem que abandona a sua carreira como ídolo em prol de uma como atriz. À medida que a sua psique se deteriora e Mima começa a perder a noção do que é realidade e do que é ficção, também o público fica na dúvida pela forma como os shots são compostos e as transições são implementadas. Neste caso temos um autor, Kon Satoshi, que quer claramente confundir a audiência, apesar de não ser essa a intenção do narrador, que acaba por ser um narrador duvidoso acidental. 

Espero que vos tenha chamado a atenção para o poder que o narrador tem na forma como nós, a audiência, vemos não só o mundo da história, mas também como interpretamos a narrativa como um todo. Esta é uma peça fundamental que muitas vezes passa despercebida por ser algo a que já estamos muito acostumados e que já nem questionamos. Mas às vezes, temos de parar e pensar se o narrador não nos estará a enganar.

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