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Top wo Nerae! Gunbuster – Análise

Top wo Nerae! Gunbuster (ou Aim for the Top! em inglês) é um dos títulos mais icónicos de anime dos anos 80, seja pela sua influência em produções posteriores ou pela qualidade da animação. Para quem gosta de mecha, ficção científica ou clássicos da animação japonesa, este é um dos animes que é obrigatório ver.

Gunbuster é um hard sci-fi produzido pelo estúdio GAINAX que esteve no ar entre 1988 e 1989 e, apesar de ser um sólido representante do seu género, foi o palco de diversas novidades. Para além de pertencer à lista dos primeiros animes a serem produzidos diretamente para vídeo (OVA), uma das suas estreias mais relevantes foi a inauguração de Anno Hideaki como diretor, que aproveitou esta série de seis episódios para poder raspar a superfície de algumas temáticas que irá explorar mais tarde num (outro) anime icónico chamado Neon Genesis Evangelion.

A história de Gunbuster foca-se principalmente em duas raparigas, Noriko Takaya e Kazumi Amano, e na sua evolução como cadetes numa escola de pilotagem de mechas até estarem ao serviço do Machine Weapon Advance Assault Squadron, uma unidade militar de elite (mas que só utiliza jovens pilotos) e cujo propósito é combater uma misteriosa raça alienígena que ameaça a Humanidade.

A premissa é bastante simples e direta. Contudo, Gunbuster deixa-se entregar a uma certa profundidade na execução das personagens, do seu worldbuilding e dos seus temas: como o nepotismo, o peso da responsabilidade, depressão, PTSD, bullying e, principalmente, a passagem do tempo. 

A nossa protagonista, Noriko, tem um típico progresso associado à jornada do herói. Logo nos primeiros dois minutos, somos expostos ao ataque alienígena onde, supostamente, morre o pai da nossa protagonista, um famoso almirante a cargo das armadas galáticas. A vontade de ser como o pai e de o poder encontrar mais tarde estabelece a motivação inicial para que ela ingresse na Escola Secundária Feminina de Okinawa, uma academia de pilotos de mechas. Depois de estabelecidas as motivações iniciais, o enredo segue uma estrutura clássica de outros animes shounen ou de desporto. A história passa a concentrar-se no triângulo da protagonista inútil e incapaz que não consegue sequer pilotar um robô, da figura modelo que é perfeita em beleza, atletismo e competência e do treinador que, contra tudo e todos, decide que a protagonista é a «tal» que salvará a galáxia.

Como cada episódio tem um arco próprio que depois se liga à narrativa principal, conseguimos acompanhar as diversas fases do desenvolvimento, não só da Noriko, à medida que ela ultrapassa os seus múltiplos surtos mentais e ataques depressivos para se tornar a salvadora da galáxia, mas também das pessoas que a rodeiam e estão dependentes dela e das consequências dos seus atos. 

Top wo Nerae! Gunbuster apesar de ser um anime de apenas seis episódios (ou talvez exatamente por isso) tem diversos problemas de pacing e pode ser dividido em duas partes distintas. A primeira parte, que inclui os primeiros quatro episódios, é bastante lenta enquanto os dois últimos episódios podem (quase) ser considerados os episódios nucleares do anime. Em bom rigor, a importância e relevância de todas as decisões das personagens principais só se notam durante o quinto episódio, até lá, não há uma explicação clara do que se está a combater ou quais são as consequências para a Humanidade se os planos falharem.

Contudo, isto não significa que a primeira metade do anime é aborrecida. O seu pacing torna-se lento porque se nota uma atenção especial em ter um worldbuilding sólido (geralmente típico de hard sci‑fi) onde se perde algum tempo a explicar e a desenvolver o que se está a passar no ambiente em que as personagens se encontram. Essa exposição está muitas vezes integrada no diálogo e nós nem nos apercebemos de imediato que estamos a ser bombardeados com explicações científicas; apesar disso, também existe muito worldbuilding não-intrusivo, que é explicado apenas através das situações em que as personagens estão no seu dia-a-dia. Algumas dessas exposições, apesar de servirem para solidificar o universo, por vezes abrem linhas que não voltam a ser exploradas e que dariam uma textura mais rica ao resto da história.

É apenas na segunda parte do anime que começamos a perceber quem são os vilões desta história: os monstros e o fenómeno da dilatação do tempo. Os monstros são os inimigos da humanidade, o vilão físico que as personagens têm de enfrentar. No entanto, são explicados como algo misterioso e perigoso, mas natural e, narrativamente, são simplesmente um catalisador da ação, algo que existe para dar sentido ao progresso da história.

O verdadeiro antagonista de Gunbuster é o fenómeno da dilatação do tempo (a teoria em que o tempo avança a uma velocidade diferente quando te moves bastante rápido, ou seja, que o tempo passa mais rápido para quem esteja na Terra do que para as personagens se encontram a combater no espaço). É este fenómeno que apresenta o maior obstáculo na série e são as decisões tomadas à volta da sua existência que obrigam, em muitos casos, as personagens a desenvolverem-se.

A essência de Gunbuster está, principalmente, nas suas personagens. Estas estão longe de ser perfeitas narrativamente e o seu desenvolvimento sofre devido aos problemas de pacing que um guião para seis episódios possa trazer.

Noriko Takaya é a nossa protagonista. Ela é atlética e leva o seu treino bastante a sério de modo a que ninguém questione a sua determinação, mas a verdade é que ela é uma incompetente, tornando-se praticamente inútil quando entra num mecha. Apesar disso, é escolhida para ingressar num projeto para salvar a humanidade. Isto tudo só porque o novo treinador da academia, um senhor chamado Kouichirou Oota (também conhecido apenas por «Coach») decidiu que havia potencial nela (ele sabia que ela era a protagonista deste anime e é assim que as coisas funcionam).

O arco da Noriko começa efetivamente a partir do momento em que ela é selecionada. Apesar de transparecer alegria, ela mostra-se confusa e insegura, e tudo piora quando tem de lidar com a pressão das colegas que a importunam. Os rumores sobre ela ter sido selecionada só por ser filha de um almirante famoso e o facto dela começar a acreditar nisso, juntamente com a consciência da sua falta de capacidade, leva-a a tentar desistir do programa em favor da aluna modelo Kazumi Amano. No entanto, Noriko é levada a perceber que a Amano só é «perfeita» porque trabalha para assim ser e acaba por ser persuadida a melhorar, passando a ter a atenção do Coach durante todo o programa de treinos.

Este padrão de Pressão – Dúvida – Quebra / Falha – Compreensão – Determinação – Melhoramento é utilizado várias vezes durante o arco da Noriko, que é posta à prova em situações de grandeza cada vez maiores, desde simples bullying na escola até alguém morrer por culpa dela. Contudo, a Noriko sabe qual é o seu papel e as consequências de falhar ou desistir. Por isso, ela nunca recusa as suas missões e volta sempre a erguer-se para fazer o que tem de ser feito, independentemente do seu estado mental e do risco que ela própria possa correr. 

Kazumi Amano é o completo oposto de Noriko. Ela é inteligente, calma, elegante, coordenada e uma piloto exemplar. Acima de tudo, é uma figura modelo para a protagonista. É claro que elas acabam por (não) ser o par perfeito quando são ambas selecionadas a participar no projeto de salvar a humanidade. É nesse momento que se percebe que ela também tem defeitos. Mostra-se infantil, emocional e impulsiva, principalmente quando é provocada. E quando chega a altura em que ninguém pode falhar, a Amano é a primeira a ceder sob a pressão e é a Noriko que a consegue manter no rumo certo. Os arcos da Noriko e da Amano são, na verdade, paralelos na maior parte do tempo; sendo que o pico mais baixo da Noriko coincide com o mais alto da Amano, e mais tarde acontece o inverso. 

Ainda existe uma terceira rapariga, uma ruiva soviética chamada Jung Freud que é apresentada como um «génio» dos pilotos de mecha. Ela acaba por fazer parte do mesmo programa que Noriko e Amano apenas para se mostrar uma personagem conflituosa. Ela está completamente consciente das suas capacidades de pilotagem e, na sua arrogância, está sempre a desafiar Amano ou Noriko para duelos, só porque as considera suas rivais. De resto, serve (praticamente) simplesmente como desculpa para o anime ter cenas de fanservice.

É interessante ver que apesar de ser um anime curto com problemas de pacing (devido à quantidade de ideias que os produtores tiveram e quiseram implementar na série) mesmo assim conseguiram arranjar espaço para dar a essas personagens secundárias algum desenvolvimento pessoal e envolvimento na narrativa.

Para um anime produzido nos anos 80, Gunbuster envelheceu bastante bem. A animação é fluida e pode ser comparada a muitas séries que saíram durante a última década. Apesar de recorrer a bastante movimento de câmara com painel estático e de reaproveitar animações, a sua frame by frame animation está muito bem conseguida, tanto para cenas de ação como nos movimentos das personagens no seu quotidiano.

É também na categoria da animação que Gunbuster é inovador… Esta série é considerada a pioneira daquilo que hoje assumimos como uma das características distintas e principais da animação japonesa: boob physics (não é como hoje em dia, em que o peito parece ter uma física própria separada do resto do corpo, mas sim algo como um realismo ligeiramente exagerado). Apesar de tudo, Top wo Nerae! é um anime com bastante fanservice, a começar pelo design da indumentária das raparigas que têm de pilotar os mechas.

Além da animação em si, Gunbuster conta com diversos painéis bonitos e detalhados. Isso faz com que o espetador não perca o momentum visual, mesmo quando confrontado com uma cena estática. A paleta também é variada e existe uma boa cooperação da direção no uso das cores, tendo em conta a situação das personagens, onde elas se encontram e o que a cena quer transmitir, seja calma, medo ou o stress da situação. Associado a isto está um fantástico trabalho de direção de câmara que complementa toda a atmosfera das cenas.

O último episódio é bastante particular em relação ao resto do anime. Está (quase) todo animado a preto e branco, o que reflete bastante bem o tom do que se passa e enfatiza o drama no final. Além disso, tem uma resolução num rácio de 16:9 (que seria o rácio original para uma apresentação no grande ecrã) enquanto os episódios anteriores estão todos em 4:3, o habitual para se ver nas televisões da altura.

A animação também tem um grande impacto no worldbuilding. Nem vou tanto falar dos detalhes expressos que mostram como funcionam os navios espaciais ou no facto das batalhas terem um efeito de embaciamento da câmara por causa dos pós galáticos e detritos que andam por todo o lado; o que eu quero mencionar é o facto dos mechas estarem desenhados e animados de forma a simpatizarmos com eles. 

Não há violência gráfica em Gunbuster. No entanto a violência é percetível, assim como as consequências de uma batalha. Isto porque os mechas são desde o início representados como humanos. Além da sua forma antropomórfica (óbvia), por dentro também são construídos como nós com esqueleto, veias, coração, etc. Apesar de não sermos expostos a pessoas todas desfeitas, o mesmo impacto e desconforto é causado quando somos confrontados com os robôs destruídos. É uma forma inteligente de criar empatia com todas as outras pessoas envolvidas nos combates contra os alienígenas.

Tal como na secção da animação, Gunbuster tem uma excelente direção de som. Este é utilizado sempre de maneira a contribuir não só para a atmosfera ou para dar o tom certo a uma determinada cena, mas também (mais uma vez) para complementar o worldbuilding no anime. Coisas bastante simples como a explosão do navio espacial Exelion não ter tido qualquer som ou o barulho de fundo durante os congressos espaciais ser constituído do burburinho em diversas línguas, são detalhes que, para além de poderem causar um bom momento dramático, dão profundidade ao espaço e universo onde se está a passar a ação.

Top wo Nerae! Gunbuster tem uma banda sonora bastante característica e icónica. Apesar disso, o uso de algumas das faixas em determinadas cenas fazem com que estas pareçam inapropriadas e tornam alguns momentos demasiado dramáticos ou até cómicos. Apesar de poder ter sido algo dentro dos standards nos anos 80, para nós, humanos dos anos 20 do séc. XXI, as cenas perdem o sentido emocional original que a produção queria transmitir se não estivermos conscientes desse envelhecimento.

Para concluir, Top wo Nerae! é um clássico da animação que impulsionou o sucesso do estúdio GAINAX e de Anno Hideaki. Apesar de ter uma história linear, clichés e problemas de pacing, nada disso retira a satisfação de ver Gunbuster. Afinal de contas, é um anime influente com temáticas profundas e que vale a pena ver (mesmo que não se goste do género) seja pelos seus visuais, pela sua música ou pelo facto de ser icónico.

Pode não ser muito original (devido à influência de animes anteriores), mas foi o palco de experimentação que veio dar oportunidade ao nascimento de Evangelion e Gurren Lagann; e também foi com Gunbuster que se iniciou a conhecida «GAINAX pose».

Top wo Nerae! Gunbuster é ainda complementado pelos episódios extra que explicam as teorias científicas utilizadas em Gunbuster. Além disso, tem uma sequela de 2004 (Top wo Nerae 2! Diebuster) que foi produzida para a celebração do 20º aniversário do estúdio GAINAX. No entanto, é bastante diferente do original, de tal forma que pode ser considerado um anime à parte já mais na onda de FLCL (talvez faça uma análise de Diebuster no futuro, quem sabe). Foi também anunciado em 2016 e confirmado em 2018 que haverá um Gunbuster 3!

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