Análises

Dorohedoro – Análise

Como preparação para a adaptação para anime que atingiu o pequeno ecrã na temporada de inverno de 2020, decidi ler o mangá de Dorohedoro, que se tornou rapidamente num dos meus mangás favoritos. Quer pelo cenário ambicioso e moralmente ambíguo, personagens carismáticas ou art style muito detalhado, Dorohedoro cativou-me bastante, criando um cantinho especial para si no meu catálogo de arte com o seu apelo. Isto vem com a desvantagem que Dorohedoro não será para todos, o que é apenas reforçado pela profusão de nudez e ainda maior quantidade de gore bastante gráfico, que não recomendaria, de todo, para os mais sensíveis. 

Apesar de ter também críticas e elogios a tecer ao anime, irei analisar maioritariamente o mangá uma vez que a adaptação não retrata a história na sua integridade, o que quer dizer que esta análise conterá spoilers para personagens e eventos que podem não estar incluídos no anime. 

Num mundo onde magia é comum, os feiticeiros (Sorcerers) utilizam os humanos do Hole (uma região muito pobre e sub-desenvolvida) como campo de treino para magia, praticando nos seus habitantes indiscriminadamente. Caiman, o nosso protagonista, é um homem que após um incidente num beco sem saída acordou praticamente sem memórias e com a sua cabeça transformada na de um lagarto. Aqui somos introduzidos à premissa base de Dorohedoro, que é bastante simples: Caiman quer encontrar o feiticeiro que o transformou para reverter o feitiço. Para adicionar ao fator bizarro, existe um homem dentro da boca de Caiman que se lembra do feiticeiro em questão, onde tudo o que este tem de fazer é abocanhar a sua vítima para saber saber o veredito. 

Como tinha dito, a premissa de Dorohedoro é relativamente básica, construindo em cima dela um mundo rico e complexo onde se exploram diferentes formas de moralidade e organização social. A narrativa em si tem um objetivo definido desde o início (encontrar o feiticeiro que transformou Caiman), havendo outros objetivos secundários à medida que a história se vai desenrolando, colocando o foco mais na ação do momento do que no grande plano geral. Isto porque apesar de parecer que existem uma série de desvios ao longo do curso da narrativa, muitas vezes estes acabam por ser mais relevantes do que o que tínhamos previsto. Devido à sua natureza espontânea, a história é muito difícil não só de analisar como de tentar descrever sem contexto, além de que acho ser um ótimo exemplo do tipo de história que ganha com a falta de conhecimento prévio. Assim vou falar por alto de alguns dos temas abordados em Dorohedoro, sem na realidade elaborar muito sobre a história em si.

Um detalhe sobre o estilo de narrativa que aprecio bastante em Dorohedoro é o facto da audiência não ser demasiadamente exposta a todos os detalhes do mundo. Existem personagens que servem de substituto da audiência, às quais os elementos do mundo (como eventos, por exemplo) são explicados apenas quando é necessário, sendo que a maior parte dos pequenos detalhes do dia-a-dia dos personagens são deixados por explicar, cabendo à audiência ler entre as linhas para compreender alguns pormenores do mundo. Eu tenho um ponto fraco por narrativas que não sentem a necessidade de levar o público pela mão quando contam a sua história, e a forma como Dorohedoro consegue dar sempre o mínimo de exposição necessária para não ficar à toa, deixando o resto para pormenores de fundo, merece os meus parabéns.

Na realidade, o mundo é constituído por três camadas: o Hole, o mundo dos feiticeiros e o mundo dos demónios (dos quais ainda não falámos). Estes últimos, os demónios, são as criaturas mais poderosas neste universo, sendo veneradas quase ao nível de deuses pelos feiticeiros, uma vez que são figuras que validam o seu poder e renome ao fazerem máscaras especiais (que aumentam o poder mágico) entre outras coisas. Ironicamente, além de demónios “puros” existem também feiticeiros com potencial mágico que se podem tornar demónios, alimentando o tema do sucesso predeterminado à nascença que está muito presente no mundo dos feiticeiros.

O mundo dos feiticeiros é um dos mais interessantes devido à sua moralidade muito diferente da nossa, em grande parte devido à utilização de magia, que  existe na forma de fumo negro que os feiticeiros produzem. Associado a este fumo está uma habilidade específica de indivíduo, introduzindo o primeiro tema de “o potencial de uma pessoa estar determinado desde o seu nascimento” que é acompanhado pelo facto de neste mundo também importar a quantidade de fumo produzido (algo que também é normalmente determinado à nascença). O fumo é algo mundano e praticamente toda a sociedade está construída em cima de uma hierarquia em que indivíduos com maior produção de fumo e magia mais poderosa dominam sobre os outros, criando-se um esquema de pirâmide semelhante a uma organização como a máfia. Esta fração do mundo é muito interessante pela sua exploração social e moral de valores como individualidade e hierarquia de poder, assim como o determinismo que já falámos em relação ao potencial de alguém estar predeterminado.

O outro lado da banalização do fumo é o Hole, cujas pessoas sofrem as consequências de feiticeiros inexperientes utilizarem magia inadvertidamente, matando ou incapacitando pessoas diariamente. Enquanto o foco principal da narrativa se passa no Hole, descobrimos diferentes formas em que a prática de magia pelos feiticeiros afeta a vida quotidiana, como por exemplo o facto dos mortos voltarem à vida devido ao excesso de magia que se infiltra nos solos, criando um cenário quase de apocalipse zombie, não fosse o twist de cada morto ter uma chapa de identificação que ao serem colecionadas podem ser trocadas por prémios pelos participantes do “evento”, tal como uma atração da feira popular. Estas pequenas vinhetas da vida quotidiana destas sociedades entre grandes eventos narrativos não funcionam só como alívio da tensão (quer para a audiência, quer para as personagens) como também fornece bastante informação sobre a sociedade e as pessoas que a habitam de forma orgânica. Diria que o core temático do Hole seria uma exploração da perseverança e adaptabilidade humana e de como seriam os valores de uma sociedade construída numa posição tão desfavorável.

A minha única queixa no departamento narrativo prende-se com o curso da narrativa nos últimos volumes. Nomeadamente o sentimento de que a história poderia dar-se por terminada em pelo menos duas ou três ocasiões antes daquilo que foi de fato o final, mas que por uma questão de manter a série em publicação foi necessário estender a narrativa (algo que o autor discutiu no posfácio do último volume). Apesar de não ter sido particularmente mal implementado, uma vez que estava bastante em linha com o tipo de narrativa que tinha vindo a ser utilizada até então, o que saltava à vista era o fato de existirem uns quantos momentos de clímax na história, com uma resolução bastante sólida, que por motivos nem sempre muito bem desenvolvidos levavam a um novo “conflito final”.

Ao longo da narrativa temos sensivelmente quatro personagens principais, Caiman e Nikaido, que tentam descobrir o feiticeiro que o transformou, representando inicialmente a ideologia do Hole; e Shin e Noi, dois feiticeiros ao mando de um dos homens mais poderosos no mundo dos feiticeiros, En, cujo trabalho é eliminar os inimigos do seu patrão que eventualmente acabam por ser Caiman e Nikaido.

Apesar do protagonista ser Caiman, eu prefiro pensar nestes quatro como personagens principais não só por serem personagens narradores (cujos pontos de vista são apresentados à audiência), mas também, no caso de Shin e Noi, por protagonizarem o que poderia ser considerado o b-plot (ou a narrativa paralela) desta história: a ruína da família En. Outra razão pela qual prefiro considerar estes quatro é para chamar a atenção ao fato da história nunca tomar lados, nunca proclamar o Hole como melhor que o mundo dos feiticeiros ou vice-versa. A narrativa tenta sempre ser imparcial quando pode, deixando julgamentos morais nas mãos da audiência quando confrontada com os segmentos em que as personagens narram.

Este vai ser um campo em que muito afincadamente não vou elaborar sobre nenhuma personagem em específico, porque quanto menos se souber melhor. Vou apenas relembrar que neste tipo de narrativa as personagens são praticamente todas relevantes para algum evento ou função narrativa no futuro, sendo utilizadas de uma forma muito inteligente que requer a constante atenção do público. Por norma estão todas bem desenvolvidas, mesmo as personagens secundárias têm profundidade suficiente para poderem protagonizar a sua própria história, que é algo que não é habitual.

A arte de Dorohedoro é muito detalhada e dinâmica, algo que aprecio bastante, contudo tornando algumas sequências de ação difíceis de seguir por vezes.  Hayashida Q tem um art style muito próprio que se alinha bastante com as minhas preferências pessoais, com um bom equilíbrio entre estilização e fieldade anatómica (algo que é bastante proeminente nos momentos mais gore) que acho que funciona muito bem para o tipo de cenário de Dorohedoro.

A forma como os painéis são utilizados nos momentos de maior ação e tensão confere instabilidade e um ritmo de leitura frenético que se adequa bem à narrativa. Contudo, os momentos mais calmos ou slice of life estão também bem executados, criando um sentido de humor próprio com piadas que vão sendo recorrentes ao longo da narrativa.

Dorohedoro é uma história para ser experienciada, uma aventura frenética num mundo ao mesmo tempo estranho e familiar. Com arte, designs e um sentido estético bastante distinto, é uma obra de arte que toma o máximo proveito do seu meio visual para contar uma narrativa que, apesar de nem sempre brilhante, merece uma oportunidade na minha opinião. Isto salvo o caso de serem particularmente sensíveis a gore que, de novo, é um elemento que existe em profusão em Dorohedoro, e na maior parte das vezes bastante anatomicamente correto. 

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