Análises

Nami yo Kiitekure – Análise

Baseado num mangá com o mesmo nome, Nami yo Kiitekure teve uma adaptação para anime na temporada de primavera de 2020. A narrativa introduz um pouco do que é a produção de rádio, tendo-me cativado pelo cenário profissional envolvendo adultos no mercado de trabalho; algo que nem sempre vemos representado em anime, onde a norma costuma ser  explorar este tipo de interesses utilizando clubes escolares.

Ao longo da narrativa acompanhamos Koda Minare, uma empregada de restaurante, que após uma série de eventos insólitos encontra uma oportunidade de começar o seu próprio programa de rádio. Apesar do cenário mundano, o carisma de todas as personagens, a animação e produção de som criaram uma experiência envolvente que me surpreendeu bastante pela positiva.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

A história de Nami yo Kiitekure, apesar de cativante, não é particularmente original: a protagonista, tendo recentemente terminado um relacionamento, acaba a noite  embriagada e à conversa com um estranho num bar, contando-lhe a história da sua vida. No dia seguinte ouve uma gravação dessa mesma conversa na rádio. Graças  ao seu carisma e forma de falar, o estranho da noite anterior acaba por lhe propor um trabalho como locutora de rádio. É uma premissa bastante simples que neste caso é executada de forma fantástica.

Mais do que retratar toda a vida da protagonista, Koda Minare, a narrativa foca-se num momento particular e acompanha-a até resolver o seu conflito através daquele “arco” da sua vida, até encontrar uma nova normalidade. Neste caso o conflito é o seu (recente) ex-namorado, e o coração partido de Minare quando o abandona; e a sua mudança de vida é o início do seu trabalho na rádio, o que a vai ajudando a ultrapassar a relação falhada.

Não sei até que ponto é que a história retrata a realidade da produção de rádio no Japão, contudo, acho que o ponto a ser feito não é esse, mas antes apresentar à audiência uma personagem com uma personalidade muito vincada e ver como é que ela lida com as mais variadas situações e adversidades; e como é que interage com outras personagens com personalidades tão ou mais marcadas que a dela. 

Diria que um dos grandes pontos que me cativaram foram, de facto, os segmentos de rádio, que graças ao meio visual em que estão representados tomam uma nova vida. Se no programa de Minare esta está na montanha a lutar contra um urso enquanto lê as cartas dos fãs (sim isto realmente acontece nos primeiros episódios), a audiência do anime vê todo o combate a desenrolar-se entre os dois. Isto não só ajuda à comédia visual, como também retrata uma pintura bastante viva do encanto que o teatro radiofónico pode ter.

Se isto vos pareceu uma descrição bastante vaga é porque foi. É difícil descrever a narrativa de Nami yo Kiitekure sem entrar em muito detalhe devido ao facto de, em primeiro lugar não acontecer muita coisa muito importante (Minare consegue o seu programa! Fantástico e agora? É preciso gravar o programa, claro!), e em segundo lugar praticamente todo o anime consiste em diálogo, interno ou externo, sendo através dele que “as coisas acontecem”. Por isso é difícil elaborar mais sem começar a descrever todo o anime. Felizmente, este não é um problema para quem vê, uma vez que o diálogo é fortíssimo, na minha opinião, estando ao nível de outras franquias como Monogatari Series

Como seria de esperar de um anime cujo foco principal é o diálogo, grande parte do drama é entre as personagens; e por drama não estou apenas a falar de conflito, mas também de momentos de tensão ou comédia. É o tipo de história em que as dinâmicas e as teias entre personagens são rainhas, fazendo ou quebrando o flow da história. 

Neste caso, praticamente todas as personagens estão bastante bem escritas. Provavelmente não chega ao nível de escrita que vemos em outros grandes dramas como Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu ou Violet Evergarden, mas todo o cast secundário está melhor desenvolvido que os protagonistas de muitos animes. De facto, a protagonista é capaz de ser a personagem mais simples do elenco. Notem que disse simples, não mal escrita, porque Minare é uma pessoa de ideias fixas que diz tudo o que lhe vem à cabeça, o que apesar de não lhe dar muita nuance ou subtileza acaba compensado com uma personalidade muito marcada. No fundo, acaba por ser tão realista como o resto do elenco, porque nós todos conhecemos “aquela pessoa” que diz o que não deve sempre nas piores alturas.

Em termos de animação não tenho muito para dizer, sendo bastante consistente. Apesar de tudo, tirando um ou outro shot, a direção é bastante conservadora, não sendo nada de espectacular. A qualidade do traço e a paleta de cores por outro lado são mais distintos, o que associado ao art style particular dá ao anime uma identidade singular.

No final do dia, fica um pouco acima da média devido ao art style e character design com um toque original aliados a uma animação sólida e consistente.

Como seria de esperar de uma anime focado em produção de rádio, o departamento de som está de parabéns, não só no diz respeito ao voice acting, mas também edição de áudio e efeitos especiais. 

No que toca a banda sonora esta é bastante mediana, não sendo particularmente má de um ponto de vista musical mas também não sendo particularmente memorável (tirando talvez o opening e ending). 

Nami yo Kiitekure foi um anime que me entreteve bastante em grande parte à custa do diálogo constante e dos cenários insólitos em que a protagonista se encontrava. Toda a teia de personagens estava incrivelmente bem escrita e executada, parecendo que nos juntámos a um novo círculo de amigos onde cada um tem o seu papel bem definido.Em termos de adaptação, há algumas marcas da vida passada da história como mangá, principalmente em pequenas piadas visuais, mas de resto é uma história que se adapta ao média visual como uma luva, permitindo um leque de expressividade e linguagem corporal que não é possível painel a painel.

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