Análises

Promare – Análise

Um dos animes que marcaram 2019 para mim foi Promare, não só por ter acompanhado online a produção desde que foi anunciado em 2017; mas também porque, na minha opinião, marca um grande passo em frente na incorporação de animação 2D e 3D da parte do estúdio Trigger.

O filme retrata um mundo em que grande parte da população foi dizimada como consequência do aparecimento de um novo tipo de humanos capazes de controlar chamas. Esses humanos, denominados de Burnish, tornaram-se rapidamente alvo de discriminação e perseguição. Como forma de combater não só os Burnish, mas também os incêndios que estes causam, um novo tipo de força de bombeiros foi criada, da qual faz parte o nosso protagonista: Galo Thymos.

A temperatura aumenta (e o sakuga também) quando Galo e Lio Fotia se defrontam. Este último é líder de um grupo terrorista chamado Mad Burnish, e está determinado em criar uma sociedade em que os burnish possam viver em paz e livres de discriminação.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

Promare segue uma estrutura bastante simples: partes iguais de Jornada do Herói e “o plot acontece todo na última meia hora”, algo a que o estúdio Trigger nos tem habituado. Para quem não está muito familiarizado com o modus operandi da Trigger, as histórias normalmente desenrolam-se da seguinte forma: o protagonista acata o chamamento para a aventura, abandonando o seu quotidiano; cria-se um novo status quo onde o protagonista combate e vence alguns inimigos; depois de um novo chamamento da aventura no arco final da história, estes inimigos tornam-se aliados e juntam forças com o protagonista para derrotar o grande vilão da história (que só é revelado no final, como devem ter depreendido). Isto seria um bom sumário para Little Witch Academia, Kill la Kill, Darling in the FranXX, SSSS.Gridman ou BNA (poderia continuar mas vocês percebem a ideia).

Elaborando, Galo Thymos (o nosso protagonista) começa o filme como bombeiro na cidade de Promopolis, combatendo os Mad Burnish (um grupo terrorista constituído por burnish) e os incêndios que estes provocam. O chamamento para a aventura inicial não é mostrado, uma vez que faz parte do seu backstory, sendo esta a motivação para ser bombeiro. Isto sugere que a história começa in media res, ou seja, a meio da narrativa, mais especificamente a meio da jornada do herói no ponto equivalente aos “testes, aliados e inimigos”. 

Durante a primeira metade do filme é estabelecido que os burnish são os antagonistas enquanto Galo, o resto dos bombeiros e Kray Foresight (o governador de Promopolis) são os heróis. Contudo, a fuga do líder dos Mad Burnish, Lio Fotia, da prisão despoleta o segundo chamamento para a aventura em Galo, uma vez que Lio faz com que ele questione quem é realmente o “antagonista” ao acusar o governador de utilizar os burnish para fazer experiências científicas. Quando confrontado por Galo, Kray admite que as acusações são verdadeiras, mas defende que se trata de um caso em que “os meios justificam os fins” uma vez que o planeta irá explodir dentro de pouco tempo e é necessário abrir um portal para outra dimensão de modo a salvar (uma parte selecionada) da humanidade (um clássico enredo à Trigger que só fica mais Trigger daqui para a frente)

Como resposta a este chamamento para aventura, Galo junta-se relutantemente a Lio, pondo a descoberto o último elemento da narrativa (quando o filme já vai quase a três quartos): o facto das habilidades de controlo de chamas dos burnish se deverem à presença de uma espécie alienígena que literalmente quer ver o mundo envolto em chamas (eu bem disse). Aqui a ação atinge o seu auge e podemos ignorar qualquer lógica (ou falta dela), recostar, comer pipocas e ver uma épica batalha de mechas até praticamente ao último minuto do filme (que inclui esmurrar diversos personagens e até planetas).

É mais ou menos a isto que me refiro quando falo de uma narrativa “à Trigger”: 70% do tempo é gasto a construir um quotidiano recheado de “inimigos” para derrotar; enquanto os 30% finais são recheados de reviravoltas na narrativa que transformam aliados em inimigos e vice versa. Quando percebemos o que se está a passar, a narrativa acaba por ser bastante simples, sendo que o seu impacto depende da forma como é executada. 

Outro ponto que quero abordar é o incrível nível de detalhe de que foi introduzido no mundo do filme, tal como um obsceno número de bocas de incêndio em todo o lado, mesmo na fachada de edifícios, por exemplo. Estes pequenos detalhes constroem o que para mim é um exemplo de bom worldbuilding. No caso de Promare diria que a fórmula foi bem implementada, em grande parte devido à execução e interação dos elementos que vamos abordar de seguida.

Tal como a narrativa, as personagens são bastante simples com defeitos e objetivos bastante claros do início ao fim do filme. De notar as que figuram no elenco principal, uma vez que o resto do cast secundário (o resto do corpo dos bombeiros ou os outros elementos dos Mad Burnish) têm pouco ou nenhum desenvolvimento.

Galo Thymos é o nosso indiscutível protagonista, sendo a personagem que nos enquadra na história. Galo é órfão, vítima de um ataque de burnish do qual Kray o salvou, algo que fez com que Galo idolatrasse Kray como um herói. Teimoso e auto-proclamado “idiota”, Galo é o clássico estereótipo do tipo musculado, obtuso, teimoso e determinado que vemos em shounen. Contudo, o que o demarca na minha opinião é a sua inteligência emocional, demonstrada ao longo do filme quando Galo é capaz de compreender e processar sentimentos (seus e dos outros) de forma bastante madura, assim como a sua imensa capacidade de empatia. O arco de Galo é praticamente estático, uma vez que ele como personagem não muda, em vez disso sendo o seu papel mudar o mundo à sua volta. Tirando a traição de Kray no último arco (spoilers I guess), que altera as afiliações de Galo completamente para o lado dos burnish, ele como personagem não muda muito (sendo que desde o início ele nunca tinha discriminado ativamente contra burnish civis, apenas contra os que causavam incêndios colocavam outros em risco), mudando contudo o paradigma geral do mundo à sua volta de um que discrimina contra os burnish para um que os aceita.

Lio Fotia é a contraparte de Galo, na medida em que representa o outro lado do conflito: os burnish. Como líder dos Mad Burnish, Lio tem como objetivo a igualdade entre humanos e burnish. O arco de Lio é à volta de aprender a confiar nos outros, e que não precisa de fazer tudo sozinho. No filme ele é muito desconfiado da ajuda que qualquer humano, mas quando Galo mostra que as suas intenções são genuínas e que ambos têm o mesmo objetivo conseguem pôr as diferenças de parte e trabalhar juntos.

Kray Foresight completa a tríade, sendo o antagonista “final”, e acabando por ter menos desenvolvimento do que os outros dois. Kray é um burnish que odeia a sua natureza ao mesmo tempo que despreza a fraqueza do espírito humano. Ele representa tudo aquilo contra o que os heróis lutam: derrotismo, discriminação e segregação; abrindo portas a uma nova sociedade mais tolerante e pacifica quando esmurram a ideologia de Kray até esta deixar de existir (literalmente). Em sim, Kray não tem nenhum arco, uma vez que durante todo o filme ele praticamente não muda e este termina antes de ele ser confrontado com as consequências dos seus atos.

Queria ainda chamar atenção àquilo que para mim foi um dos arcos mais interessantes de todo o elenco: o de Heris Ardebit. Heris é irmã de Aina, uma colega de Galo do corpo de bombeiros, e que trabalha com Kray nas experiências que utilizam burnish na esperança de conseguir incluir Aina no grupo de pessoas salvas da Terra em perigo iminente de explosão. Assim, apesar de óbvio e simples (um padrão, como devem ter compreendido por este ponto), o seu arco é sobre tomar a escolha moral de não utilizar o poder dos burnish de uma forma desumana e que mesmo fazendo-o por amor à irmã não torna uma escolha correta.

Tal como Heris, outras personagens têm pequenos arcos que apesar de bastante simples em teoria ajudam a solidificar os temas centrais do filme sem serem demasiado rebuscados. De novo, a boa execução de algo simples chega mais longe do que algo menos sólido mas aparentemente mais complexo.

A parte visual de Promare é sem sombra de dúvida um dos principais ingredientes que torna o filme tão cativante. Tal como tinha dito no início, a Trigger subiu a fasquia no que toca à integração de 2D e 3D ao misturar ambos de forma a que sejam quase indistinguíveis. Quer pelo tipo de design de personagens, fogo ou mechas, tudo desde os cenários até à paleta de cores foi desenhado para que estes elementos trabalhassem juntos em vez de simplesmente coexistirem no mesmo espaço. 

Na minha opinião, independentemente da qualidade da narrativa, Promare merece uma chance para todos os que gostam deste tipo de animação mais experimental que não corta nas cores vibrantes e coreografias de luta recheadas de adrenalina. Queria partilhar uma pequena curiosidade caso não tenham reparado pela primeira vez ou para quando forem o ver o filme (estou a olhar para vocês, pessoas que ignoram spoiler warnings), que é o facto dos personagens interagirem com o texto que surge no ecrã, apresentando personagens, sítios ou ataques. Isto foi algo que eu achei absolutamente adorável, demonstrando um grande nível de atenção ao detalhe combinado com uma atitude divertida que realmente traduzem aquilo que quer o diretor, Imaishi Hiroyuki, quer o estúdio Trigger têm representado ao longo deste anos (como se o facto de terem chamado Deus X Machina ao deus ex machina do filme não fosse indicação suficiente)

A par com o departamento visual, grande parte da adrenalina de Promare é alimentada pela banda sonora, composta por Sawano Hiroyuki, que apesar de não ser muito diferente dos seus trabalhos anteriores, cumpre com o seu objetivo de aumentar a tensão da cena e manter a audiência cativada. De notar também as insert songs interpretadas pela banda Superfly, que, ao lado do resto das outras insert songs do filme, ganharam um lugar de destaque nas minhas playlists de música de anime.

Queria por fim fazer um pequeno comentário relativo aos atores, nomeadamente Saotome Taichi, o ator de Lio, pela sua incrível performance, sendo a primeira vez que este empresta voz a um personagem de anime, apesar da sua carreira como ator.

Tudo considerado, Promare está longe de ser uma obra prima. Contudo, não deixa de ser um espetáculo para os sentidos, acompanhado de uma narrativa e personagens que não se levam muito a sério (o que sinceramente ajuda a tornar a experiência mais divertida).

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