Análises

Little Witch Academia (TV) – Análise

Eu tenho uma história atribulada com o estúdio Trigger que surgiu em parte devido à igualmente atribulada relação que tive com o seu parente Gainax. Começando por considerar que os seus animes eram “só para inglês ver” e as suas histórias “repletas de personagens cliché e tropes demasiado recalcados”, o que associado à sua tendência para utilizar a rule of cool faziam com que eu não conseguisse levar os animes a sério. Talvez não ajudou o facto de o primeiro anime da Trigger que eu vi ter sido Kill la Kill (um anime que mesmo entre os fãs foi difícil de reconciliar por diversos motivos, entre os quais nudez e sexualização de diversas personagens, mas estou a divagar) e na altura eu ter 17 anos e apenas uns quantos anos de anime no saco. 

Depois de 2014 as minhas opiniões foram cimentadas com Uchuu Patrol Luluco e Kiznaiver, aparentemente mostrando o quão pouco dinâmico era como estúdio e que era incapaz de executar bem um drama centrado em personagens (um dia farei uma análise de Kiznaiver, mas esse dia não é hoje). Só no ano de 2017, quando saiu Little Witch Academia, mudei a minha opinião sobre o estúdio Trigger e a forma como eu vejo anime. 

Talvez a segunda metade desta frase seja um pouco exagerada, porque se não fosse outro anime no ano anterior abanar o meu barco e fazer-me questionar os meus gostos e preconceitos coughcoughFlip Flapperscoughcough provavelmente não teria sido capaz de acolher Little Witch Academia tão perto do meu coração, nem tão rápido. Contudo, isso não muda o facto de o último ter confirmado que sim, eu consigo gostar de animes “ridículos”, cliché e onde manda a “rule of cool”. quando há dedicação e paixão embutidos no anime.  E isso foi o que me impactou mais em Little Witch Academia, a emoção e puro amor à animação que o anime transmitia, que me fez rir e chorar e que, acima de tudo, me relembrou (e continua a relembrar sempre que revejo a série) a razão pela qual eu adoro anime.

Depois desta introdução provavelmente demasiado longa, definitivamente demasiado pessoal e incrivelmente vaga sobre o conteúdo do anime em questão, vamos então discutir Little Witch Academia (ou LWA para simplificar). Nesta publicação iremos falar da série de 2017, como devem ter percebido, e não do filme de 2013. Esse terá de ficar para outra altura, uma vez que, apesar de se passarem no mesmo universo com as mesmas personagens, as histórias que o filme e a série carregam são muito diferentes.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

Tal como o título indica, Little Witch Academia trata de magia e bruxas. Shiny Chariot era uma bruxa particularmente famosa, atingindo um nível de popularidade tal que era praticamente um fenómeno cultural, desde fazer espetaculares performances de magia para grandes audiências até ter uma coleção de cartas inspiradas na sua magia. Anos após ter caído no esquecimento, o seu charme ainda inspira a protagonista de LWA, Kagari Atsuko (ou Akko, como é tratada), a mudar-se do Japão para o Reino Unido para se inscrever na escola de magia que Shiny Chariot tinha frequentado, a prestigiada academia Luna Nova. 

Apesar da sua incansável dedicação para aprender magia, Akko tem muito pouco potencial, o que somado ao facto desta estar constantemente a falar sobre Shiny Chariot, a torna rapidamente alvo de piadas entre as alunas. Isto porque dentro da comunidade mágica, Chariot era mal vista, tentando apelar às pessoas comuns através de magia bonita mas pouco complexa, em vez de estudar magia de forma mais tradicional. Isto introduz um dos temas centrais de LWA que liga com o que eu estava a discutir na introdução: a produção de arte altamente técnica e cuidada para o consumo da comunidade artística contra a produção de arte “se calhar” menos cuidada, mas que apela à emoção de um maior número de pessoas “se calhar” menos versadas. Isto porque em LWA existe um certo elitismo em relação à magia e quem a consegue ou pode fazer, nomeadamente ligado com famílias ancestrais e antigas tradições mágicas, que torna muito difícil para alguém “normal” entrar nessa esfera. Este tema permeia todo o anime, com grande ênfase na animação, como veremos nas seguintes secções.

Outro tema que diria central à narrativa seria a dicotomia entre progresso e tradição. Este é apresentado como parte do setting, desde a forma como a magia é vista pelo público em geral, até à prática da mesma. Isto porque o impacto do “progresso” está em todo o lado, principalmente na escola que, devido aos recentes avanços tecnológicos e consistente perda de relevância de magia no mundo atual, está longe do seu esplendor de dias passados, havendo uma mão cheia de episódios dedicados à exploração deste tema de diversos ângulos.

Uma razão pela qual é mais fácil falar de LWA com base nos temas que aborda em vez de compassos narrativos tem que ver com o facto de ser um anime maioritariamente episódico, onde cada episódio avança um pouco a história ao mesmo tempo que conta a sua pequena narrativa. Por vezes os temas abordados são lições morais que a protagonista precisa de aprender para desbloquear um novo poder da varinha mágica que herdou de Shiny Chariot (não quero entrar no abismo que é tentar explicar o macguffin que é o Shiny Rod por isso quem não viu o anime vai ter de se contentar com esta explicação), enquanto outros desenvolvem as personagens (principal ou secundárias) ou mundo. 

Apesar da natureza episódica de LWA, no geral, o anime segue de forma bastante fiel a estrutura geral da jornada do herói, por isso, apesar de não considerar a narrativa particularmente inovadora, implementa de forma bastante eficaz cada passo da fórmula que implementa. Quando o anime começa, o herói já abandonou o quotidiano, estando a responder ao chamamento da aventura, neste caso, estudar em Luna Nova.  No primeiro episódio temos o encontro com o mentor e o sobrenatural, na forma da professora Ursula e Shiny Rod, respetivamente, que ajudam Akko na sua jornada. A maior parte do anime consiste nos testes, sendo estes a maior parte dos episódios mais isolados do anime, sendo que tudo se une nos últimos episódios, com o ponto mais baixo de Akko (quando esta perde confiança em si, nas suas capacidades e nos seus amigos). O anime termina com uma prova do poder da amizade e autoconfiança para superar todos os desafios, como é já um marco da Trigger. O dia é salvo, as pessoas voltam a acreditar em magia e Akko mostra a todos que com dedicação e empenho qualquer um pode alcançar os seus sonhos. Tal como tinha dito, não é radicalmente inovador, mas é sólido o suficiente para ter o impacto pretendido. Outra vantagem da fórmula episódica é a liberdade para integrar referências de cultura pop, algo que LWA faz bastante, tendo por exemplo um episódio em torno de um bootleg da série Crepúsculo (Twilight).

Eu queria evitar grandes spoilers mas há mais um tema que eu gostaria de apontar por achar bastante interessante em LWA: a realização dos sonhos. Isto porque no início do anime Akko tem como objetivo conhecer o seu ídolo, Shiny Chariot; e é exatamente isso que acontece nos últimos episódios. E é a forma como o anime aborda isto que me surpreendeu, porque Akko alcança o seu Desejo (encontrar Chariot) mesmo depois de reconhecer e ultrapassar a sua Necessidade (é o empenho e dedicação que fazem de Akko uma bruxa respeitável e não o reconhecimento do seu ídolo), o que resulta numa cena que para mim é sempre incrivelmente emocional em que Akko agradece a Chariot o impacto que teve na sua vida, reconhecendo contudo que nunca consiguirá ser como ela, uma vez que Akko é ela própria (se têm dúvidas sobre o Desejo e Necessidade de que estou a falar, leiam a nossa publicação sobre o assunto aqui). Isto foi, para mim, um dos pontos altos da história, ilustrando que na realidade a vida é um ciclo de sonhos e objetivos e quando cumprimos um temos de continuar a viver e avançar. Nem todos temos como objetivo de vida ser o rei dos piratas, muitas vezes temos objetivos muito mais simples como terminar a escola ou encontrar um emprego; e acho que a forma como LWA ilustrou o progresso e crescimento de Akko ao longo deste “sonho” em particular e a forma como ela continua a traçar o seu caminho é, no mínimo, inspirador.

Grande parte do que torna LWA tão cativante para mim é, de facto, a forma como as personagens evoluem ao longo da narrativa, nomeadamente quando comparando com Akko. Isto porque Akko é uma protagonista com um arco estático, que apesar dos seus diversos defeitos e de ter de aprender diversas lições ao longo da narrativa, já alcançou a “verdade”, que em LWA está encapsulada no lema de Shiny Chariot “um coração que acredita é a tua magia”.  Assim, apesar de vermos todo o trabalho e dedicação que Akko coloca em aprender magia mesmo com as suas dificuldades, diria que o foco está em como é que outras personagens interagem com ela, sendo através dessa interação que Akko cresce como pessoa, mas também que se desenvolvem os temas centrais da narrativa.

O elenco é relativamente grande, contudo LWA faz um bom trabalho de utilização de tropes para caracterizar as personagens mais secundárias (como Constanze ou Barbara) de modo a dar mais tempo para desenvolver outras personagens mais complexas como Diana, Croix ou Ursula, que são fundamentais para a exploração dos temas que falámos anteriormente relativamente ao decaimento da relevância da sociedade mágica e ao dilema entre tradição e progresso.

Tal como a história se apoia num modelo simples e é capaz de o executar bem, também as personagens têm um semelhante tratamento. Não diria que são particularmente inovadoras ou profundas, contudo, LWA constrói uma fundação sólida em clichés e desenvolve o resto em cima disso, atingindo um equilíbrio perfeito em que os arcos das personagens nunca levam a mudanças radicais nas suas personalidade (o que é ideal considerando a natureza episódica do anime) mas que são suficientes para que no último episódio estas tomem decisões que nunca teriam feito no primeiro, como nos casos de Diana, Lotte, Sucy ou Andrew.

Há uma certa expectativa quando vemos um anime do estúdio Trigger para um certo estilo de animação e movimento das personagens. Eu diria que esse é um dos pontos principais de LWA, uma vez que não é só um anime com boa animação (se bem que um pouco inconsistente por vezes) mas um anime em que a animação ajuda a ilustrar os temas e a transmitir as emoções da protagonista. Akko, tendo crescido num meio sem magia, é constantemente impressionada e cativada pelos diferentes tipos de magia a que é exposta durante o seu tempo em Luna Nova, ou nas suas aventuras. E este sentimento é passado à audiência pelo contraste entre a animação emotiva mas grosseira que ilustra o dia-a-dia de Akko e a animação fluida e polida que acompanha os segmentos de ação e magia.

Além da animação, outros pequenos detalhes visuais como a arte de background até às paletes de cores usadas para os diferentes locais ou personagens também contribuíram para que as flutuações na animação nunca parecessem fora de sítio. Não podia também deixar de referir os character designs pelo diretor, You Yoshinari, que só por si permitiam distinguir todas as personagens secundárias, muitas das quais nem sei o nome, mesmo depois de ter visto LWA umas quantas vezes.

Eu compreendo que o facto das personagens saírem constantemente dos modelos, principalmente a protagonista, possa ser incómodo para algumas pessoas. E, de facto, eu sou uma dessas pessoas que normalmente se queixa dessas coisas. Contudo, em Little Witch Academia não levo isso como um defeito, mas sim uma parte integrante da personalidade do anime. LWA não se apresenta como uma história muito séria durante a maior parte do tempo e isso é óbvio na forma como Akko está constantemente a transformar-se em animais com proporções distorcidas, ou mesmo como Croix voa em Roombas em vez de vassouras (um conceito que acho genial e hilariante ao mesmo tempo, não vou mentir).  Isto porque mais do que ser “levado muito a sério”, Little Witch Academia (tal como Chariot) quer entreter e encantar a audiência, e realmente transmite a impressão de que os criadores divertiram-se tanto a criar aqueles cenários e personagens absurdas e fantásticas como a audiência depois se diverte a vê-los. 

Little Witch Academia tem uma série de faixas na sua banda sonora que poderiam ser consideradas leitmotivs, uma vez que estão associados a personagens ou locais, tal como Diana, Croix,  Academia Luna Nova ou Floresta de Arcturus.

Contudo, a banda sonora continua a sofrer de síndrome de “motivo central”, ou seja, diferentes faixas que estão associadas a coisas ou pessoas diferentes acabam por partilhar um mesmo motivo musical, que acaba por ser o tema central que define a identidade musical do anime. No caso de Little Witch Academia isto passa-se com o motivo presente na faixa adequadamente chamada “Tema Principal”, que é partilhado também por outras como “Tema de Chariot du Nord”, “A Minha História”, “Magia (Waku Waku)” ou “Futuro” só para dar alguns exemplos. Apesar de ser uma oportunidade perdida de ter mais leitmotivs, Little Witch Academia utiliza o motivo do “Tema Principal” como quem usa o opening durante as cenas de ação (estou a olhar para ti SSSS.Gridman), para associar feitos de grande magia da parte de Akko com esse tema. Deste ponto de vista poderíamos debater se esta utilização não estaria ainda dentro do conceito de leitmotiv, mas não é esse o ponto que quero fazer.

A banda sonora é incrivelmente diversa e rica em diferentes sonoridades, mesmo que muitas não fiquem necessariamente na mente dos espetadores enquanto estão a ver o anime. Quando ouvimos a banda sonora isoladamente identificamos mais faixas do que se calhar nos tínhamos apercebido, exatamente por estarem associadas a personagens ou locais específicos. 

Voltando ao que tinha partilhado na introdução, Little Witch Academia foi capaz de me relembrar porque é que eu adoro animação, e continua a fazê-lo até este dia. Isto porque de cada vez que eu vejo esta série, depois de meses de ver animes sazonais ou apenas medianos, sou relembrado do quão a animação é capaz de mover a audiência. É uma ferramenta que não existe simplesmente como produto do meio audiovisual que é anime, podendo ser um fator integrante na narrativa que, em conjunto com a música, consegue adicionar outra camada à história.

Recomendo Little Witch Academia não só pela história reconfortante, mas principalmente pela incrível combinação de música e animação que apresenta. É um anime que define claramente aquilo que quer ser e cumpre essa promessa. Não é um intricado drama com personagens e lore muito profundos mas não tenciona ser, e tentar ler Little Witch Academia unicamente por essa lente acaba por ignorar uma das principais mensagens que o anime tenta passar, sobre dedicação e paixão por arte, seja ela animação, escrita ou escultura. 

No final do dia é por isso que gosto de Little Witch Academia, porque me mostrou que um anime pode ser “bonito” e bem executado sem ter de ser muito intelectualmente profundo. Por vezes também é preciso aprendermos a divertimo-nos e deixarmo-nos mover por uma história, que acaba por ter um impacto maior nas nossas vidas, em vez de estarmos apenas focados em classificar o valor intelectual da arte que consumimos.  

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