Análises

Appare-Ranman! – Análise

Um dos animes que me fez companhia durante o ano passado foi Appare Ranman!, cuja produção, tal como a de outros animes de 2020, foi marcada pela pandemia de COVID-19, resultando numa interrupção entre 17 de Abril e 24 de Julho.

Uma produção original do estúdio P.A. Works, Appare Ranman! leva-nos numa aventura que começa no Japão, atravessando a América do Norte numa corrida de carros como nunca antes vista. Os nossos protagonistas são Sorano Appare, um jovem excêntrico e introvertido inventor, e Isshiki Kosame, um samurai encarregado de garantir que Appare não cause danos na propriedade de um rico mercador local. Ignorando os conselhos de Kosame, Appare segue as suas ambições inspiradas por Júlio Verne, e decide partir numa aventura no barco a vapor que tinha construído. Os dois acabam salvos por um navio americano em alto mar, que tinha como destino Los Angeles, onde desembarcam. A cidade iria ser palco da primeira etapa da corrida de carros transamericana até Nova Iorque, uma oportunidade que nem Appare, nem Kosame querem perder; o primeiro para construir o seu próprio carro e participar, e o segundo numa tentativa de amassar o prémio que lhe compraria uma passagem de volta para o Japão; e é esta a premissa bastante simples de Appare Ranman!.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

A história passa-se na era Meiji (1868-1912), altura em que o Japão começava a abandonar o feudalismo em prol da industrialização. Este período precedeu a era Taisho, onde se passa Kimetsu no Yaiba, sendo que ambos estes animes têm uma atmosfera peculiar devido à mistura entre elementos tradicionais japoneses (como decoração e vestuário tradicional) com elementos mais modernos (como veículos de transporte a vapor ou combustível, e vestuário e acessórios mais comuns do ocidente).

Tal como no Japão, a viragem do centenário também significou progresso e industrialização para a América, onde cada vez mais cidades se tornavam urbanizadas, alimentadas pelo aumento de produção em massa em fábricas. Contudo, e como vemos ilustrado no anime, este progresso estava reservado para as regiões mais ricas, deixando as zonas rurais em situações de pobreza, muitas vezes extrema. O anime debruça-se bastante sobre o início da produção dos automóveis de combustão interna em substituição dos motores a vapor, uma vez que a corrida transamericana é patrocinada pelas três “B.I.G. Boss Companies” (BNW, Iron Motor Company e General Motors (G.M.)) como forma de promover os novos modelos a gasolina. 

Elaborando um pouco a premissa que apresentei anteriormente, Appare é um génio mal compreendido na sua vila rural, de onde acaba por sair num barco a vapor de sua própria construção (em parte porque Kosame se esgueira a bordo e, por engano, ativa a propulsão máxima, consumindo todo o carvão disponível). Ambos são resgatados por um navio americano. Uma vez no porto de Los Angeles, Appare dedica-se a modificar o seu barco enquanto Kosame tenta encontrar uma forma de voltar ao Japão, uma vez que, ao contrário de Appare, este tem uma vida familiar para manter, estando para casar dali a uns meses. Eventualmente ouvem falar da corrida de carros e decidem participar.

Na fase de preparação para a corrida, conhecemos o elenco secundário, que auxilia a equipa de Appare ao longo da corrida à medida que diversos obstáculos se atravessam à sua frente, desde corredores a utilizar técnicas sujas para ficar à frente até problemas técnicos com os veículos. Este é um caso em que a viagem é, de facto, onde está o entretenimento, uma vez que, apesar de relativamente conservador e previsível, cada episódio me cativava a querer ver mais e saber o que ia acontecer a seguir. O desenvolvimento do mundo, das diferenças entre as zonas urbanizadas e as planícies áridas que associamos a filmes do faroeste estava bastante bem conseguido, se bem que sendo bastante conservador dentro do género e atmosfera de filmes de cowboys. As diferentes localizações e paragens da corrida estão repletas de pequenos detalhes que lhes conferem uma personalidade própria, tornando o anime estilisticamente bastante distinto, algo que é suportado pela parte áudio e visual, como veremos de seguida. 

Esta atenção ao detalhe aplica-se também à tecnologia utilizada e como é explicada. Como alguém que sabe alguma coisa de física e química, achei incrivelmente interessante ver uma reimaginação desta era e como essas pessoas abordavam os limites técnicos que existiam nessa altura, sendo este um dos fatores que me mantinha cativado, muitas vezes no lugar da história principal, que começa a definhar assim que o vilão central se revela. 

Vou abordar isto no segmento sobre as personagens, mas toda a linha narrativa que envolve o vilão principal foi incrivelmente desapontante e dolorosamente previsível. Ao ponto em que temos o clássico cenário em que todos os corredores se juntam, pondo de parte as suas diferenças, para o derrotar com o poder da amizade e camaradagem. Foi uma viragem da narrativa que apesar de não ser assim tão mal executada deixou muito a desejar, isto porque até nesse twist, Appare e Kosome tinham estado a desenvolver-se numa direção bastante interessante, lentamente apreciando mais e mais a companhia e talentos um do outro. Pena que assim que a narrativa pôs o pé no pedal (ahaha) este desenvolvimento foi ou apressado ou posto em pausa.

Eu gostaria de acreditar que o final ter estado abaixo da marca traçada pelo resto anime pode ter estado ligado com os atrasos e atribulações causadas pela pandemia, que podem ter tido efeitos mais notórios também ao nível da história por ser um anime original; contudo, estou apenas a especular. Isto para mim não diminui o mérito de world building de Appare Ranman! mas impede que dê o salto de bom para excelente. 

 No que toca a personagens, Appare Ranman! Deixa muito a desejar, contudo, eu prefiro vê-lo como um anime que não é, nem tenta ser, um drama entre personagens. Ambos os protagonistas têm arcos incipientes, que acabam apressados ou postos de lado a meio da narrativa. Por exemplo, inicialmente Appare tem um arco sobre aprender a lidar melhor com pessoas, ser entendido e conseguir que as suas invenções tenham utilidade. Isto parece ser a sua base como personagem, uma vez que foi isso que criou os problemas que fizeram com que ele quisesse sair do Japão para começar. Contudo, mal os outros corredores se tornam seus amigos, estes não se importam com as suas excentricidades porque valorizam Appare como pessoa sem este fazer quase nada, o que derrota um pouco o propósito do seu arco.

Aproveito esta ocasião para introduzir o elenco secundário, que é bastante vasto, parecendo ser constituído por dois níveis de personagens, as que são amigas da equipa de Appare e as outras. Entre os amigos temos Jing Xia Lian, uma rapariga imigrante de ascendência chinesa responsável pela lida das garagens das pistas de corrida de carros que aspira a ser piloto mas que não é levada a sério por ser mulher, introduzindo alguns temas feministas que apreciei; ou Al Lyon e a sua chaperona Sofia Taylor, que representam a BNW na corrida numa tentativa de mostrar que Al é quem deveria herdar a companhia de entre os seus irmãos; e por fim Hototo, um jovem indígena cuja tribo foi massacrada por um bando de bandidos contra quem este procura vingança. 

Num mundo tão repleto de personalidade, as personagens acabam por ser o elemento mais fraco desta cadeia. Não porque sejam necessariamente más personagens conceptualmente ou estejam mal escritas, mas porque são bastante simples e unidimensionais, pecando por personalidades demasiado estereotipadas e com pouco desenvolvimento. É verdade que existe uma tentativa de subverter as expetativas de cada um dos estereótipos, mas estas subversões são bastante básicas e tão utilizadas que a própria subversão já se tornou também um cliché (como o lobo solitário que na realidade está só em luto pela sua amante falecida, ou o gigante e intimidante bandido que na realidade tem um bom e sensível coração).

Até certo ponto, o maior ofensor deste cliché subvertido que em si próprio é um cliché, temos Richard Riesman, uma pessoa tímida, sensível, desengonçada mas afável, que depois se revela ser Gil T. Cigar, um dos mais perigosos bandidos da altura, que é (como devem ter entendido) o principal vilão. A principal ofensa deste twist nem é o facto de ser um vilão surpresa, mas sim que Gil T. Cigar tem zero personalidade além de ser mau, tão mau quanto possível e não ter nenhuma característica redimível. Não me tinha apercebido que durante a sua última metade, Appare Ranman! tinha passado a ser uma série para crianças em que os personagens tinham de ser branco ou preto senão estas ficariam confusas. 

A animação é um pouco acima da média, mantendo-se relativamente constante neste patamar durante a maior parte do anime, com alguns momentos de sakuga fantásticos. Esta consistência evapora-se a partir da segunda metade do anime, sendo que os momentos em que a qualidade cai abismalmente tornam-se cada vez mais frequentes. 

Uma vez que estes episódios mais inconsistentes estão mais perto do fim do anime, e que Appare-Ranman! sofreu uma interrupção devido ao COVID-19 podemos extrapolar que a pandemia possa ter afetado a produção da reta final do anime a outros níveis que não só animação, tal como planeamento e storyboards. Como o processo de animação é dos últimos passos a serem completados, pode ter sido colocado sob pressão ainda maior que a que normalmente já é normal na indústria de anime, resultando em animação menos polida do que nos episódios até então. 

Em termos de aspeto e identidade visual em geral, Appare Ranman! é bastante distinto, tendo uma boa combinação de character design e paleta de cores que é visualmente interessante e singular sem ser cansativa. Os fundos com texturas bastante marcadas fazem uma boa transição entre elementos 2D e 3D. Por falar em elementos 3D, como os carros por exemplo, estes estão bastante bem integrados quer com as personagens quer com os fundos, o que infelizmente ainda não é a norma em anime.

A banda sonora por Evan Call é provavelmente um dos pontos mais altos do anime. Devido aos diversos cenários do anime, entre Japão feudal, América industrial, e faroeste, a banda sonora acaba por ser uma mistura de todos estes elementos. Algo que não deveria funcionar, mas funciona, como por exemplo nas faixas Super Dogeza, Dusty Roads ou Sneaky Samurai

A utilização de instrumentos com um som mais rústico como o trombone e a harmónica ao lado de instrumentos tradicionalmente mais delicados como o shamisen ou shakuhachi (flauta japonesa) cria uma paisagem sonora tão vasta como a que os personagens têm de atravessar ao longo da sua corrida. 

Numa época de bandas sonoras genéricas e sem personalidade, a OST acaba por complementar o cenário com o seu carisma único, sendo um dos elementos que faz com que Apparen Ranman! seja melhor do que a soma das suas partes na minha opinião.

No geral o anime tem uma narrativa simples e previsível, mas sólida; com uma revelação de vilão principal desapontante pela sua falta de complexidade e personalidade, que apenas é mau porque sim, porém não acho que isso retire o mérito da experiência do resto do anime. Appare Ranman! é um bom exemplo de um anime que é melhor do que a soma das suas partes, com animação  consistente durante a maior parte dos episódios e banda sonora que nos envolve como parte da aventura, sendo é um anime com um personalidade e estilo bastante distinto que só por si merece uma chance.

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