Abstract

A fórmula shounen – os elementos de um dos géneros mais populares

A minha relação com animes do género shounen é longa e atribulada. Quem me pergunte atualmente se gosto deste género terá como resposta curta e rápida: “não”, o que contrasta bastante com as minhas origens como fã de anime, evidentes no facto da primeira série que eu vi consciente de que era animação japonesa ter sido One Piece (do qual consumi uns meros 600 episódios antes de me atirar a outros mares). Mas essa resposta “curta e rápida” tem uma versão mais longa e definitivamente mais demorada que gostaria de elaborar nesta publicação.

A partir daqui vou entrar em mais detalhe acerca da história e personagens, por isso se ainda não viram o anime ou se importam com spoilers, desaconselho continuarem a ler esta análise.

Comecemos com um pouco de contexto sobre este género, para quem não esteja muito familiarizado com o termo. Anime ou mangá shounen define um género cuja demografia alvo são rapazes entre os 12 e 18 anos, por norma, retratando histórias com protagonistas masculinos em situações repletas de ação, aventura, humor e por vezes ecchi e harem. Estas narrativas tendem a ser do tipo chegada à maioridade (coming of age), sobre um personagem ou grupo desfavorecido (underdog), ou com um grande foco na auto-superação, sacrifício pessoal para o bem dos outros, ser moralmente justo (fazer o “bem”), ultrapassar desafios e “derrotar vilões” (literais ou figurativos), sendo que estes temas estão muitas vezes entrelaçados e interligados entre si. Apesar destes serem descritores gerais para shounens, não são requisitos obrigatórios, uma vez que o que acaba por ser o fator decisivo na classificação de algo como shounen ou não é a revista ou marketing que lhe está associado. Como exemplo de animes que fogem um pouco a este modelo/padrão temos Shigatsu wa Kimi no Uso, Nichijou, e Mahoutsukai no Yome, que são todos considerados shounen

O género explodiu em popularidade no final dos anos 60, com a criação da revista Weekly Shounen Jump, que continua a ser uma das principais publicações até aos dias de hoje. Todas as semanas saem novos capítulos das franquias atualmente mais populares, como Boku no Hero Academia, One Piece, Black Clover, Dr. Stone, ou Jujutsu Kaisen, nas mesmas páginas por onde já passaram JoJo’s Bizarre Adventure, Dragon Ball, Naruto, Bleach, Slam Dunk, e os recentemente terminados Kimetsu no Yaiba, Yakusoku no Neverland e Chainsaw Man. O facto de muitos anime shounen serem baseados em mangá tem que ver com a natureza do género, que, normalmente, tem um formato maior, com arcos mais compridos do que os tradicionais 12 episódios. Isto torna a produção de um shounen “clássico” original para anime complicado, devendo-se, em parte, exatamente ao facto deste género ter sido criado para a publicação semanal de uma dezena de páginas, mantendo as expectativas e especulação elevadas entre os fãs. Não é algo que quero alongar muito nesta publicação em particular (sendo um tema para outro dia), mas a mesma receita que torna estas séries incrivelmente populares também cria um ambiente de competição muito pouco saudável entre autores, uma vez que as séries que são incluídas ou canceladas nas revistas são decididas por voto de popularidade do público, assim como por quantidade de venda de volumes, o que promove um clima de stress em que apaziguar os fãs se torna tão importante como escrever uma “boa” história. A situação é mais complexa do que o que eu descrevi e felizmente existe cada vez mais transparência em relação a estes processos editoriais. 

Terminados com a introdução podemos começar a desconstruir os meus hot takes sobre shounens. Estes estão normalmente associados a três fatores que para mim são importantes para uma boa história: personagens, ritmo/pacing e consequências narrativas.

No que toca às personagens de shounen, o meu principal problema é a quantidade de personagens que costuma constituir o elenco destas histórias e a sobre utilização de estereótipos e clichés para as caracterizar. Utilizar clichés para construir a fundação de uma personagem é uma ferramenta narrativa bastante útil e comum, pois permite que a audiência tenha logo um entendimento básico da personalidade da personagem, tornando-a memorável, nem que não seja porque é a tsundere ou o rival residente do grupo. Como ferramenta, não tenho nada contra este “atalho” de caracterização, o problema surge quando o personagem em questão não é desenvolvido para além destes estereótipos, resultando em personagens unidimensionais, sem motivação ou personalidade própria.

Tabata Yuuki, autor de Black Clover, é um grande fã desta técnica, exatamente porque permite introduzir personagens fácil e rapidamente de forma a que a audiência não fique perdida ou saturada. Contudo o que faz com que o elenco de Black Clover seja particularmente memorável (além da arte e character designs distintos, que definitivamente ajudam) é o grande foco no desenvolvimento das personagens. O grande leque de personagens é introduzido por blocos, nos arcos iniciais da história, de forma que inicialmente olhamos para elas como o grupo das pessoas armadas em fixes, o grupo dos meninos ricos, o grupo dos underdogs e por aí fora. Isto por si só não é revolucionário, longe disso. Animes como One Piece têm arcos fantásticos de introdução às personagens principais, e no início do anime isso é suficiente para manter a atenção do público ao mesmo tempo que a tripulação se está a formar e a audiência está a compreender as diferentes dinâmicas entre as personagens. Contudo, isso fica bastante aborrecido ao fim de algum tempo, porque o anime foca-se mais em desenvolver o mundo à volta do elenco principal em vez de os desenvolver em conjunto, parecendo que as personagens principais ficam num limbo, já tendo tido os seus cinco minutos de fama e agora podem reformar-se do desenvolvimento e ficar só a ver a paisagem a passar. Mas isto é algo que Black Clover evita ao tratar de forma semelhante o desenvolvimento das personagens principais e secundárias, introduzindo e reintroduzindo o elenco por diversas vezes e em variadas situações, o que permite vermos um lado diferente delas. Isto vai acontecendo ao longo de toda a história, de forma que a meio caminho a audiência já conhece e reconhece todas as personagens mesmo que não lhes saiba o nome. Isto traz o foco para um drama de personagem em vez de ser só uma série de manequins a ver a paisagem passar por eles.

No que toca ao ritmo da narrativa (ou pacing) o meu problema é mais subjetivo do que uma falta de desenvolvimento das personagens, pois prende-se com o facto da maioria dos shounens ter uma óbvia estrutura em arcos, claramente definidos. De novo, eu não me oponho ao conceito de arcos, nem à sua utilização adequada para contar uma história. Eu sou aquela pessoa que está sempre a tentar encaixar histórias na jornada do herói ou decifrar arcos de personagens, considerando o arco a unidade básica para a progressão de narrativas épicas, como a que a maior parte dos shounens tenta ter. Mas quando me deparo vezes sem conta com a mesma fórmula quase culinária para a construção de uma narrativa shounen, esta minha fixação com arcos torna-se numa maldição, tornando estas histórias incrivelmente previsíveis, repetitivas e monótonas. A principal ofensa deste tipo de fórmula é que é puramente estética, não se refletindo em arcos semelhantes para as personagens na maior parte dos casos.

Para dar um exemplo do que quero dizer, imaginemos um anime em que o protagonista tem um objetivo a curto prazo (o que seria o chamamento da aventura na jornada do herói) que vai contribuir para o seu sonho/objetivo a longo prazo (Desejo); para obter esse objetivo o protagonista treina as habilidades que necessita para alcançar esse objetivo (training arc ou tournament arc), sendo confrontado com desafios ou inimigos que tem de superar (fighting arc), ficando mais forte quando os consegue derrotar ou superar. Quando o objetivo a curto prazo é alcançado existe um momento de reflexão onde o protagonista recupera ou descansa, restabelecendo o quotidiano para reiniciar a jornada do herói de novo (waiting arc). Quantos animes conseguiram enumerar com arcos destes? Se for necessário, o protagonista não terá tido nenhum arco durante este “arco narrativo”, uma vez que o seu Desejo e Necessidade estão ligados à narrativa a longo curso e não são atualizados de cada vez que surge um novo arco. Um anime que para mim é particularmente culpado de seguir esta fórmula religiosamente é Boku no Hero Academia (BNHA), cuja fórmula de “training arc ser interrompido por ataque de vilões e virar fighting arc seguido de um waiting arc de uns quantos episódios” já ficou velho para mim há três temporadas atrás. O que é particularmente insultuoso em BNHA é a forma como o desenvolvimento das personagens não só não acompanha os arcos narrativos como parece funcionar num plano completamente diferente. Eventos que impactam as personagens e arcos de desenvolvimento dessas personagens estão completamente dessincronizados, parecendo que, tal como em One Piece, cada personagem tem os seus cinco minutos de desenvolvimento onde resolve todos os seus problemas internos, de acordo com um calendário estritamente planeado e não quando seria natural que isso acontecesse com o decorrer da história. Shounens com abordagens mais fluidas em relação à estruturação em arcos, como Fullmetal Alchemist ou Black Clover, acabam por apostar no desenvolvimento das personagens quando é narrativamente relevante, não tendo medo de voltar atrás e revisitar os traumas e problemas de personagens já desenvolvidas anteriormente, realçando o seu crescimento como pessoa mas também (tal como na vida real) que a maior parte dos problemas não têm uma solução simples ou imediata. Isto resulta não só num ritmo muito mais natural e menos rígido da história, mas também num desenvolvimento de personagens muito mais orgânico e memorável.

O último ponto é algo de que me queixo com frequência, não só no que toca a shounen: a falta de consequências (realistas) das ações das personagens na narrativa ou no mundo. O que quero dizer com isto é que quando uma personagem faz algo esperamos ver um efeito, em outras personagens ou no mundo que as rodeia; ou quando algo acontece a uma personagem esperamos que esta responda a esses acontecimentos. Infelizmente isto é um campo que shounens por norma falham, contudo de formas nem sempre óbvias. Devido à narrativa geral de superação e auto-sacrifício, muitas vezes parece que os acontecimentos da narrativa tem um impacto emocional nas personagens (porque têm um impacto emocional na audiência) mas na realidade esses eventos não alteram a sua personalidade de forma significativa e são rapidamente abandonados em prol do novo clímax narrativo. Apesar de isto parecer trivial, está longe disso, uma vez que o conceito de consequências e repercussões é fundamental para criar tensão num conflito. Um exemplo óbvio de falta de consequências narrativas seria Fairy Tail ou Dragon Ball, onde personagens “morrem” e são reanimadas com frequência, tornando difícil compreender o quão forte é um personagem ou vilão em relação a outros ou o perigo em que estes se encontram (uma vez que “perigo mortal” deixa de ter significado quando as personagens simplesmente não morrem). Isto é um sentimento que é amplificado por aquilo que normalmente se chama plot armour, quando uma personagem parece imune aos desafios e perigos da história, que garante que o protagonista e os amigos ganham sempre no final, tirando grande parte da tensão que está associada a esta incerteza. Um shounen que na minha opinião lida bastante bem com consequências é HunterXHunter, principalmente a partir do chimera ant arc, marcado pela morte de várias personagens secundárias consideradas centrais no mundo da narrativa. Isto faz com que na nossa cabeça qualquer personagem possa ser derrotada (apesar de objetivamente sabermos que o protagonista não vai morrer), o que faz com que nos preocupemos e fiquemos mais interessados ainda mais na tensão narrativa. Estes arcos funcionam bastante bem porque já tivemos tempo anteriormente para conhecer os principais participantes e para nos afeiçoarmos a eles, o que não acontece na quarta temporada de Boku no Hero Academia, tirando logo grande parte do impacto do sentimento de perigo. Se a audiência não tem um laço emocional com uma personagem, o impacto de a ver derrotada ou falecida vai ser muito menor do que quando comparado a uma personagem acarinhada pelo público, que foi o que se passou comigo durante a referida temporada de BNHA, em relação não só a Eri, como também a Sr. Midnight ou Leorio (eu não estou muito investido nas personagens de BNHA em geral, caso não tenham percebido).

Para sumarizar, a fórmula shounen continua a refletir as suas origens como mangá semanal, tentando causar o maior impacto durante o maior período de tempo, esticando a tensão e hype muitas vezes à custa das suas personagens, ritmo e consistência narrativa. Apesar disto, existem séries que conseguem ter uma boa execução narrativa e evitar estes problemas, se bem que raras, tal como Fullmetal Alchemist, Black Clover e HunterXHunter, como vimos. Por outro lado, eu também compreendo que não só eu não sou o público alvo dessas histórias (digo eu do alto dos meus 25 anos… como a malta fica velha), mas também não é preciso, nem seria expectável, que toda a média tenha de ser narrativamente complexa, principalmente considerando o tipo de mensagens que as histórias shounen tentam transmitir e o seu público alvo. Admito que por variadas vezes me sinto inspirado e cativado por shounens, com os seus temas de amizade e auto-melhoramento (muitas vezes ajudado por fantástico sakuga), contudo eu faço questão de distinguir animes e mangá que gosto e me movem pessoalmente, daqueles que fazem bom uso das ferramentas narrativas existentes e executam aquilo que para mim é uma “boa” narrativa, e acontece que a maior parte dos shounens escolhe não fazer esse investimento. 

Está assim explicado porque é que, na maior parte dos casos, a minha opinião no que toca a shounens não é muito favorável. É como comer fast-food: todos sabemos que existe comida “melhor”, melhor cozinhada e com melhores ingredientes, mas o facto de ser previsível e familiar tem o seu apelo quando estamos nesse tipo de disposição.

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