Abstract

Promare: show, don’t tell

Promare foi um anime que me fez apaixonar por ele na sua simplicidade, tema, animação, roteiro, estética, etc. Tudo isso me fez amar, não só a obra, como também o diretor Hiroyuki Imaishi, o roteirista Nakashima Kazuki e o estúdio Trigger.

Para mim, quando amamos algo ou alguém, o seu valor se torna muito alto. A minha forma de dizer que Promare é incrível por eu amá-lo, é falando sobre a sua forma de passar algo a quem assiste sem ter que dizer diretamente.

“Show, don’t tell” ou “mostre, não fale” é um termo usado no cinema para designar a forma pela qual uma obra audiovisual passa ao espectador uma informação de forma sutil sem ser diretamente falado. Isso se relaciona muito bem com a economia narrativa, pois se a obra utiliza técnicas audiovisuais para passar algo ao público de uma forma onde a narração não é necessária, ele está economizando tempo de filme. O espectador precisa se inserir no tema e no universo da obra com um mínimo de explicação e Promare faz isso muito bem, principalmente no seu primeiro ato narrativo.

O que irei avaliar aqui é o trabalho feito em Promare, portanto, a forma pela qual outros animes fazem sua economia narrativa não terão espaço aqui, apenas se for necessário fazer uma comparação com outras obras. 

Neste texto haverá spoilers da obra em questão, por isso eu o convido a dar uma chance a Promare caso ainda não tenha assistido. Quando terminar de assistir,  volte para ler este texto, aqui você pode ganhar mais conhecimento sobre o anime em questão.

Agora vamos desenvolver o assunto.

Conseguir passar ao espectador o seu principal elemento, tema, universo, personagens e como funcionam alguns dos poderes dos burnish mais as power armors dos bombeiros em 22 minutos de filme é um grande feito, pois Nakashima Kazuki e Hiroyuki Imaishi possuem a total segurança que se os elementos forem passados de forma correta sem ter que atrasar a narrativa, o espectador vai conseguir entender como estes funcionam.

Nos seus primeiros 4 minutos e 10 segundos, Promare utiliza uma estética para dar ênfase ao seu elemento principal, que são os burnish. Tudo é cinza, menos a cor marcante do roxo neon. A trilha musical tensa ajuda a fazer com que o espectador se foque em todas aquelas cenas fortes do Mundo ficando um completo caos. A montagem também se torna essencial para o dinamismo da cena, esta nada mais é do que cortes que são feitos para montar a cena e cada corte tem uma justificativa para estar ali. Os cortes nesta cena de Promare são muitos, tanto para agitar o público, como também para criar tensão.

Tudo isso para criar uma imagem de burnish na cabeça do espectador. Quem assiste a esse início vai temer esses novos seres humanos, e isso é essencial para o tema da obra e para o final do primeiro ato narrativo, pois temos que ter essa imagem de que eles são temíveis para que essa ideia seja quebrada e enxergarmos o que Promare realmente quer falar. Todo esse início cinza de Promare é feito sem nenhuma narração. O que fizeram nessa cena foi transmitir algo ao seu público sem ter que falar nada, tudo isso em apenas 4 minutos e 10 segundos de filme.

A economia narrativa em Promare também é usada na apresentação dos bombeiros durante o primeiro ato narrativo, o que não agradou a muitos. Quando a sirene toca alertando um incêndio, vemos rapidamente os armários desses bombeiros. Cada armário é um espelho do dono, pois cada um está especificamente customizado conforme o proprietário, o que nos faz pensar da seguinte forma: mesmo não conhecendo muito esses personagens, cada um deles já está muito bem escrito dentro daquele universo. Promare acabou por criar personagens minimamente interessantes, fez uma rápida apresentação deles, e fica por aí. Estes bombeiros que tanto chamam a atenção não terão muito destaque dentro da história, o que deixou algumas pessoas um tanto decepcionadas. 

Um detalhe que vai servir como curiosidade é que nesse início do filme, bem nos segundos iniciais, vemos o planeta dos Promare se conectando com o Planeta Terra. Vemos um começo muito semelhante com o primeiro filme de Gurren Lagann, onde vemos o vilão saindo do seu planeta, chegando ao Planeta Terra e atacando os humanos.

Outra semelhança está na economia narrativa de explicar como funcionam seus elementos. No caso de Promare, grande parte da explicação sobre o poder dos burnish; em Gurren Lagann, como funcionam os mechas. Em nenhum momento temos uma narração ou explicação direta sobre estes elementos, tudo o que precisamos saber é transmitido visualmente;  nós vemos as coisas acontecendo com um mínimo de explicação e entendemos tudo o resto, o que não surpreende, uma vez que Nakashima Kazuki e Hiroyuki Imaishi trabalharam em ambos animes.

Durante todo o filme de Promare, grande parte da explicação sobre como funciona o poder dos burnish é feita visualmente. Apenas no final do segundo ato narrativo, quando Lio e Galo encontram o doutor Deus Prometh é que temos uma explicação sobre a situação geral, qual é o real problema e como os Promare dão poder aos seres humanos que conseguem se conectar com eles dando origem ao burnish;  todo o resto da explicação de como funciona o poder dos burnish também é feita visualmente quando estão em luta, na cena da caverna ou quando Lio fica preso congelado dentro do vulcão (sei que ficou estranho essa parte kkk).

Com isso podemos ver que “mostrar em vez de falar” é algo que acrescenta muito a uma obra. Promare fez isso e o seu primeiro ato narrativo é uma bela forma de economia narrativa.

A importância de percebermos isso em uma obra, é para vermos toda a dedicação daqueles que trabalham para criar tudo dessa forma e eu acho importante dar o devido valor a essa dedicação, tanto que estou aqui escrevendo este texto e espero que eu consiga fazer você enxergar esse valor também.

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